
Falso brilhante
A trajetória dos candidatos à Presidência está escrutinada à exaustão; amanhã, o país escolhe sabendo exatamente quem é de vidro e quem não

Seu principal ponto fraco é a falta de conteúdo político de qualquer natureza. Ele é vazio, não tem nada, a não ser intenções meritórias. Parece um ator que decorou sua fala e interpreta o papel que lhe deram — ou que escolheu — de maneira convincente.
Não tem biografia, e não é a idade que justifica essa lacuna; é porque nada fez de relevante até aqui. Não tem compromisso com coisa alguma, a não ser com aquilo que a retórica da oportunidade lhe aconselha a dizer que tem.
O êxito de sua candidatura se ampara, no mínimo, em bases duvidosas. Apresenta-se como um “não político”, mas nasceu em berço político tradicional. É alguém capaz de fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa — para alcançar seus objetivos. Pode até conseguir se eleger presidente da República assim. Mas que tipo de presidente será?
Avancemos trinta e poucos anos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNos parágrafos acima, publicados originalmente no Jornal do Brasil em 21 de maio de 1989, eu desenhava o perfil de Fernando Collor de Mello. Então candidato à presidência, o ex-governador de Alagoas surfava na onda de partidos de aluguel como o Social Cristão, o Social Trabalhista e o Trabalhista Renovador.
Aquele pleito, o primeiro pelo voto popular desde o fim da ditadura, foi pulverizado por 22 candidatos. Entre as lideranças históricas, figuravam Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Lula, Mário Covas, Paulo Maluf e Aureliano Chaves. Collor venceu Lula no segundo turno, mas ruiu em 1992, escorraçado pelo Congresso sob o peso de denúncias de corrupção.
Na época, a direita que se pretendia civilizada não escolheu Collor por engano. Sabia perfeitamente quem ele era, mas preferiu abraçá-lo diante da ausência de outro nome capaz de deter a marcha da esquerda rumo ao poder. Para viabilizar o projeto, acionou-se a engrenagem de sempre: fartos recursos financeiros, pressão sobre o eleitorado, manipulação de debates e a embrionária disseminação de notícias falsas.
Diferente de hoje, a economia sangrava em crise crônica. Com o voto impresso em cédulas de papel, a apuração nos grotões do país corria sem fiscalização efetiva, abrindo margem para a manipulação de atas e urnas. A máquina publicitária manufaturou o “caçador de marajás” — o paladino implacável contra os supersalários —, prometendo um salvador da pátria. O desfecho a história registrou.
A grande diferença para quem ruma às urnas amanhã é o excesso de luz. A trajetória dos dois candidatos com chances reais de vitória já foi escrutinada à exaustão. Desta vez, ninguém terá o direito de alegar, no futuro, que foi ludibriado por um falso brilhante.

