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Educação antirracista continua longe da sala de aula

Secretarias não asseguram o ensino das culturas afro-brasileiras e indígenas; pesquisadores defendem mudanças na formação de professores

08/08/2026 12:00
Fotos Hugo Barreto/Metrópoles
Sala de aula

Tem lei que pega, tem lei que não pega. O dito popular acerta em cheio as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornaram obrigatórias aulas de História e Cultura Afro-Brasileira e povos indígenas na rede de ensino. Embora a legislação seja considerada um avanço das políticas educacionais, estudos indicam que sua implementação continua limitada por problemas estruturais, especialmente na formação de professores. O Brasil ainda está longe de consolidar uma educação antirracista.

Essa é a conclusão do artigo “Avanços e Desafios na Implementação da Educação Antirracista no Brasil”, escrito por Ana Tereza Reis da Silva, Bárbara Ribeiro Dourado Pias de Almeida e Lurian José Reis da Silva Lima e publicado em 2025 na Educação em Revista. O texto analisa o cenário educacional brasileiro a partir de três perspectivas: a compreensão do racismo enquanto fenômeno estrutural, os obstáculos enfrentados pelas escolas para aplicar a legislação e a avaliação de futuros professores sobre sua preparação para trabalhar as relações étnico-raciais.

Uma das evidências vêm de pesquisas realizadas em 2023 pelo Instituto Geledés e pelo Instituto Alana. Sete em cada dez secretarias municipais de educação realizam pouca ou nenhuma ação para assegurar o ensino das histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas.

O tema chega na sala de aula casualmente. Em outras palavras, uma discussão aqui no 13 de maio e outra lá no 20 de novembro. Isso favorece abordagens folclóricas e superficiais, que podem reforçar estereótipos ao invés de estimular  reflexões sobre o racismo e a desigualdade racial.

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Formação dos professores é obstáculo

O estudo identifica diversos fatores que dificultam a implementação da educação antirracista, como a escassez de recursos financeiros, a baixa adesão de gestores escolares e a ausência de prioridade institucional. No entanto, destaca um entrave na formação insuficiente dos professores. Muitos docentes relatam insegurança para tratar do tema em sala de aula porque não receberam preparação específica durante a graduação. Parte significativa dos profissionais evita abordar o assunto ou o faz de maneira limitada.

Essa deficiência começa na própria legislação, ao não estabelecer que os cursos de licenciatura sejam obrigados a formar futuros professores de Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER). Exige-se que os professores ensinem conteúdos para os quais não foram preparados. Também há escassez de professores concursados especializados no tema.

Os pesquisadores analisaram a disciplina Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) na Universidade de Brasília, revelando que, embora seja considerada essencial pelos alunos, sua oferta ainda é irregular e muitas vezes optativa. Os relatos afirmam que houve uma  “expansão de consciência” nas aulas. Para muitos alunos  negros, a disciplina funciona como um espaço de “autocuidado” e processamento de traumas: “tive interesse em me engajar na temática étnico racial para fazer das minhas dores uma forma de luta e resistência”

Mas e os professores, como são formados? O artigo “Educação antirracista como prática emancipatória: uma pesquisa-intervenção com educadores”, realizado com 36 educadores da rede pública paulista, mostra como professores são preparados para compreender o racismo e enfrentá-lo dentro das salas de aula. Publicado na Revista Brasileira de Psicodrama em  2025, é de autoria de Stephany Matias de Oliveira Crisostono,  Daniela de Figueiredo Ribeiro e Mariana Rocha Siqueira

Os pesquisadores recorreram ao sociodrama, metodologia que busca provocar experiências capazes de mobilizar emoções e memórias pessoais, permitindo que os participantes reflitam sobre questões que muitas vezes permanecem invisíveis no cotidiano .Logo na primeira atividade, um dado chamou atenção. 26 dos 36 educadores afirmaram nunca terem participado de qualquer formação sobre racismo durante sua trajetória profissional.

As atividades permitiram que os participantes revisitassem suas próprias experiências de discriminação. “No primeiro dia eu não consegui falar nada, porque pra mim foi voltar ao passado e reviver algumas das situações de racismo que eu já sofri.”, disse um dos educadores.  Para os autores, esse tipo de experiência demonstra que a educação antirracista também pode funcionar como espaço de escuta, elaboração e fortalecimento das pessoas afetadas pelo racismo.

Como no primeiro artigo, os autores também defendem que a disciplina Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) passe a ser obrigatória em todos os cursos de licenciatura. Também recomendam a adoção de metodologias participativas, como o sociodrama e a escrita epistolar, capazes de estimular a reflexão crítica, a autocrítica e o diálogo sobre experiências de discriminação.