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Uma batalha atrás da outra (por Hubert Alquéres)

A saída de Flávio reforça a necessidade de uma oposição que respeite as instituições e ofereça alternativas ao governo

28/10/2026 11:05, atualizado 28/10/2026 11:28
KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
Uma batalha atrás da outra (por Hubert Alquéres)

Vencedor nas ruas e nas urnas, Lula não terá direito à lua de mel. A reação dos mercados mostrou que as próximas batalhas já começaram. Como presidente em exercício, não precisa esperar a posse para enfrentá-las. Sua responsabilidade vai além de assegurar o êxito de mais um mandato: é preciso deixar uma democracia menos dependente de sua liderança e menos refém da polarização.

A primeira batalha é a economia. A queda de quase 14% do Ibovespa, a valorização do dólar superior a 8% e a alta dos juros futuros combinaram a frustração de quem apostava na vitória de Flávio Bolsonaro com a desconfiança sobre a disposição do presidente de enfrentar o desequilíbrio fiscal. Ao chamar o superávit primário de “babaquice”, Lula ajudou a alimentar essa percepção.

O problema antecede o resultado eleitoral. Cerca de 92% das despesas primárias do orçamento federal são obrigatórias, enquanto a dívida bruta se aproxima de 83% do PIB. A combinação de endividamento crescente e juros elevados restringe a capacidade do Estado de investir e atender à população. O crédito caro também sufoca famílias e empresas, comprometendo o crescimento.

Lula terá de demonstrar se está disposto a sair da armadilha que ajudou a criar. Um ajuste substantivo poderá render-lhe a acusação de “estelionato eleitoral”, por contrariar expectativas alimentadas durante a campanha. Medidas paliativas, porém, podem consumir seu capital político sem resolver o problema. Adiar decisões difíceis não elimina seus custos; transfere a conta para o futuro.

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A escolha do ministro da Fazenda será um primeiro sinal, mas nenhum nome, por mais respeitado que seja, substituirá uma decisão do presidente. Não haverá credibilidade se o ministro anunciar contenção de despesas e Lula continuar tratando o equilíbrio fiscal como obstáculo ao desenvolvimento. Cabe-lhe explicar por que organizar as contas públicas é necessário para preservar políticas sociais e recuperar a capacidade de investimento.

A segunda batalha é a política. A vitória por mais de quatro milhões de votos não apaga a divisão do país. Tampouco transforma todos os votos recebidos em adesão ao lulismo. Muitos brasileiros escolheram Lula para impedir a volta da família Bolsonaro ao poder. Confundir esse apoio com aprovação irrestrita seria repetir um erro do terceiro mandato.

O cientista político Adriano Oliveira, professor da Universidade Federal de Pernambuco, interpreta o resultado como uma escolha motivada, em boa medida, pelo receio de uma mudança insegura. O medo do adversário reúne votos, mas não sustenta um governo. Lula precisa transformar o apoio eleitoral em confiança na sua capacidade de melhorar a vida dos brasileiros.

O caminho passa por um governo efetivamente de Frente Ampla, em que compartilhar o poder não seja cosmético nem se limite a postos ornamentais. O tom multicor das ruas deve refletir-se nas decisões do governo. Essa abertura exige disposição para ouvir divergências e negociar prioridades, inclusive dentro da coalizão que o elegeu.

A estabilidade institucional depende também de um centro e de uma direita democrática, ainda que oposicionista. O confronto entre direita e esquerda é legítimo. O que fez mal ao país foi o aprisionamento da competição política em dois polos que sufocam alternativas e tratam adversários como inimigos.

Depois de contestar o resultado eleitoral, Flávio deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos, apesar da proibição judicial de sair do país. Na véspera, havia afirmado que permaneceria para organizar a oposição. O episódio expõe a distância entre pretender governar o país e assumir as responsabilidades que a derrota impõe.

A saída de Flávio reforça a necessidade de uma oposição que respeite as instituições e ofereça alternativas ao governo. Lula deve dialogar com esses setores, sem confundir pacificação com concessão a quem procura deslegitimar as urnas. A reciprocidade é indispensável: cabe ao vencedor governar para todos e ao derrotado reconhecer a legitimidade da eleição.

A terceira batalha é compreender um Brasil que mudou. O país já não é o mesmo de 2003. Mudaram a sociedade, as expectativas e a maneira como os brasileiros avaliam o Estado. A gratidão pelas conquistas do passado não dispensa respostas às dificuldades do presente.

A segurança pública é um exemplo. Nas periferias, a violência e o domínio do crime organizado restringem a liberdade e comprometem a vida das famílias. Não basta tratar o tema como bandeira da direita nem responder com discursos repressivos. É preciso combinar inteligência, investigação, integração das forças e prevenção. A população não quer escolher entre segurança e democracia: espera ambas.

Os brasileiros também querem serviços públicos de qualidade e condições para empreender e melhorar de vida. Para quem ascendeu socialmente, não basta proteção contra a pobreza. Há busca por autonomia, reconhecimento e futuro. A esquerda precisa compreender essas aspirações e oferecer caminhos que conciliem oportunidades com proteção social.

Essas batalhas convergem para uma responsabilidade maior: preparar o país para uma disputa que não dependa novamente de Lula para conter o bolsonarismo. Sua vitória não pode servir de justificativa para prolongar indefinidamente essa dependência.

Isso exige abrir espaço a novas lideranças, dentro e fora do campo governista. Não basta escolher sucessores: é preciso permitir que novas vozes e projetos conquistem autonomia e legitimidade. Essa renovação precisa alcançar também a oposição, ampliando as possibilidades de alternância no poder.

Uma batalha atrás da outra: na economia, na política e na compreensão do país real. Lula sabe disputar eleições e vencer adversários. Agora, precisa transformar a vitória em realizações e usar sua autoridade para abrir caminhos à renovação política. Seu legado será maior se, em 2030, os brasileiros puderem escolher o futuro com esperança, em vez de votar novamente sob o medo.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.