
Uma batalha atrás da outra (por Hubert Alquéres)
A saída de Flávio reforça a necessidade de uma oposição que respeite as instituições e ofereça alternativas ao governo

Vencedor nas ruas e nas urnas, Lula não terá direito à lua de mel. A reação dos mercados mostrou que as próximas batalhas já começaram. Como presidente em exercício, não precisa esperar a posse para enfrentá-las. Sua responsabilidade vai além de assegurar o êxito de mais um mandato: é preciso deixar uma democracia menos dependente de sua liderança e menos refém da polarização.
A primeira batalha é a economia. A queda de quase 14% do Ibovespa, a valorização do dólar superior a 8% e a alta dos juros futuros combinaram a frustração de quem apostava na vitória de Flávio Bolsonaro com a desconfiança sobre a disposição do presidente de enfrentar o desequilíbrio fiscal. Ao chamar o superávit primário de “babaquice”, Lula ajudou a alimentar essa percepção.
O problema antecede o resultado eleitoral. Cerca de 92% das despesas primárias do orçamento federal são obrigatórias, enquanto a dívida bruta se aproxima de 83% do PIB. A combinação de endividamento crescente e juros elevados restringe a capacidade do Estado de investir e atender à população. O crédito caro também sufoca famílias e empresas, comprometendo o crescimento.
Lula terá de demonstrar se está disposto a sair da armadilha que ajudou a criar. Um ajuste substantivo poderá render-lhe a acusação de “estelionato eleitoral”, por contrariar expectativas alimentadas durante a campanha. Medidas paliativas, porém, podem consumir seu capital político sem resolver o problema. Adiar decisões difíceis não elimina seus custos; transfere a conta para o futuro.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA escolha do ministro da Fazenda será um primeiro sinal, mas nenhum nome, por mais respeitado que seja, substituirá uma decisão do presidente. Não haverá credibilidade se o ministro anunciar contenção de despesas e Lula continuar tratando o equilíbrio fiscal como obstáculo ao desenvolvimento. Cabe-lhe explicar por que organizar as contas públicas é necessário para preservar políticas sociais e recuperar a capacidade de investimento.
A segunda batalha é a política. A vitória por mais de quatro milhões de votos não apaga a divisão do país. Tampouco transforma todos os votos recebidos em adesão ao lulismo. Muitos brasileiros escolheram Lula para impedir a volta da família Bolsonaro ao poder. Confundir esse apoio com aprovação irrestrita seria repetir um erro do terceiro mandato.
O cientista político Adriano Oliveira, professor da Universidade Federal de Pernambuco, interpreta o resultado como uma escolha motivada, em boa medida, pelo receio de uma mudança insegura. O medo do adversário reúne votos, mas não sustenta um governo. Lula precisa transformar o apoio eleitoral em confiança na sua capacidade de melhorar a vida dos brasileiros.
O caminho passa por um governo efetivamente de Frente Ampla, em que compartilhar o poder não seja cosmético nem se limite a postos ornamentais. O tom multicor das ruas deve refletir-se nas decisões do governo. Essa abertura exige disposição para ouvir divergências e negociar prioridades, inclusive dentro da coalizão que o elegeu.
A estabilidade institucional depende também de um centro e de uma direita democrática, ainda que oposicionista. O confronto entre direita e esquerda é legítimo. O que fez mal ao país foi o aprisionamento da competição política em dois polos que sufocam alternativas e tratam adversários como inimigos.
Depois de contestar o resultado eleitoral, Flávio deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos, apesar da proibição judicial de sair do país. Na véspera, havia afirmado que permaneceria para organizar a oposição. O episódio expõe a distância entre pretender governar o país e assumir as responsabilidades que a derrota impõe.
A saída de Flávio reforça a necessidade de uma oposição que respeite as instituições e ofereça alternativas ao governo. Lula deve dialogar com esses setores, sem confundir pacificação com concessão a quem procura deslegitimar as urnas. A reciprocidade é indispensável: cabe ao vencedor governar para todos e ao derrotado reconhecer a legitimidade da eleição.
A terceira batalha é compreender um Brasil que mudou. O país já não é o mesmo de 2003. Mudaram a sociedade, as expectativas e a maneira como os brasileiros avaliam o Estado. A gratidão pelas conquistas do passado não dispensa respostas às dificuldades do presente.
A segurança pública é um exemplo. Nas periferias, a violência e o domínio do crime organizado restringem a liberdade e comprometem a vida das famílias. Não basta tratar o tema como bandeira da direita nem responder com discursos repressivos. É preciso combinar inteligência, investigação, integração das forças e prevenção. A população não quer escolher entre segurança e democracia: espera ambas.
Os brasileiros também querem serviços públicos de qualidade e condições para empreender e melhorar de vida. Para quem ascendeu socialmente, não basta proteção contra a pobreza. Há busca por autonomia, reconhecimento e futuro. A esquerda precisa compreender essas aspirações e oferecer caminhos que conciliem oportunidades com proteção social.
Essas batalhas convergem para uma responsabilidade maior: preparar o país para uma disputa que não dependa novamente de Lula para conter o bolsonarismo. Sua vitória não pode servir de justificativa para prolongar indefinidamente essa dependência.
Isso exige abrir espaço a novas lideranças, dentro e fora do campo governista. Não basta escolher sucessores: é preciso permitir que novas vozes e projetos conquistem autonomia e legitimidade. Essa renovação precisa alcançar também a oposição, ampliando as possibilidades de alternância no poder.
Uma batalha atrás da outra: na economia, na política e na compreensão do país real. Lula sabe disputar eleições e vencer adversários. Agora, precisa transformar a vitória em realizações e usar sua autoridade para abrir caminhos à renovação política. Seu legado será maior se, em 2030, os brasileiros puderem escolher o futuro com esperança, em vez de votar novamente sob o medo.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

