
Trump vai longe demais (por Marcos Magalhães)
Donald Trump se importa? Pouco provável.

Por uma questão de justiça, escreveu em sua rede social o presidente Donald Trump, sempre adepto das letras maiúsculas, os Estados Unidos vão cobrar 20% de pedágio sobre as cargas dos navios que cruzarem o Estreito de Ormuz.
Esta seria, na visão do líder americano, uma compensação pela possível administração da estratégica região por onde circulam 20% das vendas mundiais de petróleo. Uma inusitada maneira de tornar seu país um pouco mais rico.
O pedágio seria cobrado a 10500 quilômetros de Washington. Como se a distância não existisse e a cobiçada área estivesse sob a jurisdição norte-americana. Mesmo para os padrões de Donald Trump, seu governo parece ir longe demais.
Pode ser apenas mais uma bravata do presidente. Uma de suas artimanhas para obter mais concessões do Irã em uma negociação que já está suspensa. Mas ele pesou a mão, pois a possível cobrança de pedágio não puniria só o Irã, mas o mundo inteiro.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesÉ como se a conta de importação de petróleo de países ricos e pobres tivesse um acréscimo de 20% de uma hora para outra. Além do aumento dos preços do petróleo no mercado internacional desde o início da guerra no Irã.
Donald se importa? Pouco provável. Ele disse à rede de televisão Fox News que “provavelmente” seu país vai se encarregar da administração do estreito e de oferecer segurança aos navios que passarem por ali. Em troca, sugere o pedágio de 20%.
Antes do início da guerra, o Estreito de Ormuz estava aberto à navegação. Ninguém cobrava nada por isso. Depois dos ataques a seu território o próprio governo do Irã chegou a cogitar a cobrança de pedágio. Mas a iniciativa foi de Washington.
Se a taxa vier mesmo a ser cobrada, ela pode espalhar por diversos países do mundo a tensão política que hoje já atinge toda a região do Golfo. Como reagiria, por exemplo, a China? E os países da Europa, aliados dos Estados Unidos?
No caso brasileiro, será interessante acompanhar a reação dos aliados de Trump. Caso o Brasil tenha mesmo de pagar 20% sobre o petróleo que cruza o Estreito de Ormuz, o que dirão os que usaram o boné Make America Great Again?
O candidato de oposição, Flávio Bolsonaro, tem circulado mais nos Estados Unidos nos últimos meses do que nos diversos estados brasileiros. Ele tem defendido o adiamento – para depois das eleições, claro – da sobretaxa americana a produtos brasileiros.
O candidato não pede o cancelamento da sobretaxa, mas o adiamento. Uma vez que se consolide a proposta de pedágio no Estreito de Ormuz, ele pediria isenção ao Brasil? E o que diria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que também usou o boné de Trump?
De qualquer forma, o que se percebe nessa segunda presidência de Trump é que o presidente americano tem sido um fator de instabilidade global. Toma decisões unilaterais sobre comércio, sequestra o presidente de outro país e aciona tropas sem sequer ouvir o Congresso de seu próprio país.
O governo brasileiro já considera difícil escapar do tarifaço sobre suas exportações aos Estados Unidos. Caso o aumento das tarifas venha mesmo a se concretizar, pode ser mais um prejuízo além do aumento dos preços do petróleo e do prometido pedágio de 20%.
Não é à toa que outros países, além do Brasil, já estejam em busca de diversificação comercial e de maior autonomia energética e, ainda mais importante, tecnológica. Este é um tema que merece lugar de destaque no debate da eleição de outubro.

