
STF na linha de tiro (por Mirian Guaraciaba)
André Mendonça mostra a que veio: passar pano pra Flávio e desmoralizar Moraes

A pouco mais de um mês do pleito de 2026, explodiu, nessa terça, crise sem precedentes no STF. Diante de indícios da Policia Federal, o ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, determinou o levantamento do sigilo de relatório que revelaria mensagens trocadas entre o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Mendonça aponta para a presidência do STF como “caminho inevitável” a análise dos autos do processo pelo plenário do Supremo, “em sessão pública e transparente”.
Não se trata de um despacho de rotina. Mendonça surpreendeu o mundo político e colegas do STF ao colocar, maldosamente, Alexandre de Moraes, o julgador dos atos de 8 de janeiro de 2023, no centro de um dos maiores escândalos financeiros do Brasil. Levou no pacote o Procurador-Geral da República e o diretor-geral da Policia Federal. Sua vingança por Jair Bolsonaro saiu (por enquanto) quase perfeita: o ministro do STF que mandou prender o ex-presidente e militares da ativa não estaria acima de qualquer suspeita, segundo Mendonça. Teria perdido a prerrogativa.
A Policia Federal já havia demonstrado que Vorcaro agia como um polvo. Enrolou em seus tentáculos meio mundo político. Flávio e Eduardo Bolsonaro foram alguns dos primeiros presos na rede do Master. Flávio não explicou até hoje os milhões recebidos (confirmados por ele) de Vorcaro. E, se depender de André Mendonça, que está sentado sobre as denúncias contra o candidato do PL, nunca explicará.
Os diálogos vazados ontem do relatório da Policia Federal são explosivos. Alexandre de Moraes teria aconselhado Vorcaro nos dias que antecederam sua prisão. Entretanto, as respostas às perguntas de Vorcaro não aparecem no relatório. “Acha que segunda tenho que estar fora?”, indaga Vorcaro sobre se devia deixar o Brasil, em março deste ano. Não há resposta. Aproveita para pedir proteção à PGR e à PF. Igualmente, sem resposta.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA decisão de André Mendonça de tornar público o relatório da PF não agradou a todos. Causou revolta e indignação entre alguns pares do STF, na PF e na Procuradoria-Geral da República. Há quem diga, na PF, que o ministro agiu ao arrepio da lei, não foi provocado pela PGR, como manda o protocolo, e assumiu papel de investigador, o que não compete ao juiz.
Impactados, os Ministros do Supremo avaliam o dilema que enfrentam: abrir inquérito contra Moraes, enfraquecendo-o, por obvio, e fortalecendo tendência de senadores de aprovarem impeachment contra ministros do STF. Nesse momento, é exatamente isso que importa. Moraes não poderia sofrer tal punição sob pena de serem censuradas suas decisões no longo e penoso processo contra a tentativa de golpe de estado. Até hoje, foram condenados mais de 800 pessoas pelos atos de 8 de janeiro (site Migalhas).
A ver, com quem estará a razão.
Página infeliz da nossa história
Há exatos 10 anos, completados nessa segunda, 31 de agosto, o Congresso Nacional se vendeu ao centrão e cassou a primeira presidente mulher do Brasil, sob acusação de crime de responsabilidade fiscal. Num processo francamente misógino e partidário, iniciado por pulhas políticos, apoiados abertamente pelo vice golpista Michel Temer, Dilma Rousseff permaneceu altiva, como o foi, desde 1964, quando iniciou sua militância politica.
Dilma enfrentou o processo sem fazer concessões aos que a traíram, não pediu clemência, nem baixou a cabeça. Ao contrário, defendeu sua biografia e sua administração. Saiu como entrou na Presidência, “sem atos ilícitos, sem contas no exterior, sem enriquecimento. Consciência limpa”, discursou da tribuna da Câmara, no dia em que vendilhões entregaram o País para a extrema direita. Em 2022, resgatamos nossa dignidade, com a eleição de Luis Inácio Lula da Silva. Dilma assumiu o Novo Banco de Desenvolvimento, criado pelos BRICs e sede em Xangai, reeleita este ano para o posto, até 2030.

