
Sociedade da performance e o fracasso não é culpa sua (Ionara Silva)
A exigência constante de performance cobra seu preço em forma de esgotamento físico e emocional, ansiedade e depressão

Hoje escrevo especialmente para quem, como eu, pertence à chamada geração Y, ou geração Millennial, aquelas e aqueles nascidos entre 1980 e 1995, filhos da Internet, da sociedade em rede e da promessa de que tudo seria possível com esforço individual. Mas, ao que tudo indica, fracassamos.
Já faz um tempo que tenho pesquisado casas para comprar. Os 39 anos bateram aqui, e não ter casa própria é um marcador social de que alguma coisa falhou. Passo madrugadas e madrugadas imersa em sites de imobiliárias, tentando encontrar algo que caiba minimamente no meu modesto orçamento. Sem sucesso. Não encontro nada, nem no interior, nem nas aldeias.
Diante do meu suposto fracasso, de chegar aos 39 anos sem uma casa própria, deparei-me, numa madrugada qualquer, com uma sequência de stories no Instagram de uma conhecida, chorando muito. Ela relatava seu profundo desejo de morrer, pois já não havia dinheiro para pagar as contas do mês, não havia perspectivas de vida. Pedia para alguém lhe dar uma oportunidade no exterior, pois, aqui em Portugal, seu próprio país, já não via sentido em continuar a viver. Aquela sequência de stories mexeu profundamente comigo.
Vivemos num tempo em que as subjetividades são tomadas por um paradigma no qual o indivíduo é permanentemente convocado a superar-se, apresentar resultados e transformar-se em produto consumível. E o nome pomposo para isso, pelo menos na filosofia, é “Sociedade da Performance”, em que o valor de uma pessoa está diretamente ligado ao seu desempenho em múltiplas esferas da vida: alimentação, corpo, carreira, relacionamentos, viagens e até mesmo o lazer. Tudo se transforma em métricas de sucesso. E tem que postar, afinal, o que não é visto não existe!
Essa lógica tem raízes no neoliberalismo, que desloca responsabilidades coletivas para o indivíduo, convertendo a vida numa eterna prova de merecimento. Como destacam diversos filósofos e pensadores, a pós-modernidade vende uma ilusão de superpotência individual e que qualquer um pode alcançar qualquer coisa, desde que se esforce o suficiente. Acorde cedo e lute.
A performance passa a ser critério de existência. Somos aquilo que conseguimos mostrar, de preferência em formato compartilhável, geralmente, em até 15 segundos, o tempo de um stories. Sem profundidade, sem reflexão. E como uma norma, o fracasso deixa de ser uma falha coletiva ou sistêmica para se tornar um desvio pessoal, quase como uma falha moral.
As redes sociais amplificam essa lógica neoliberal de existir no mundo. Tornamo-nos gestores de marca da própria identidade, de um “eu” que precisa ser desejável, inspirador, produtivo. Likes, visualizações e engajamento tornam-se termômetros de validação. É feio demonstrar que fracassou, que está triste, que não tem dinheiro para pagar o aluguel ou comprar a comida necessária para o mês.
Os nossos fracassos, definitivamente, não são vendáveis. É preciso superar-se, ir à luta. E, quem sabe, você se torne uma mentora ou mentor, vendendo fórmulas de sucesso e felicidade que não existem, com fontes das vozes da sua própria cabeça. Há quem tenha chegado a ser candidato a cargo público com esse discurso e outros que faturam milhões…
Performar o tempo todo tem um custo alto e não suportamos mais. A exigência constante de performance cobra seu preço em forma de esgotamento físico e emocional, ansiedade, depressão e um sentimento crônico de inadequação. Quando a vida se reduz a um projeto a ser bem-sucedido, qualquer tropeço vira sinal de incompetência. O fracasso, outrora parte da experiência humana, hoje é vivido como vergonha privada. E o sofrimento, isolado da dimensão estrutural, torna-se mais uma culpa a carregar por aqueles e aquelas que não conseguiram cumprir as metas impostas pelo modelo neoliberal.
Diante disso, é urgente reimaginar outras formas de bem viver. Questionar os fundamentos dessa sociedade da performance não é negar o valor do esforço individual, mas recusar a falácia da meritocracia e da produtividade que insiste em culpar-nos pelos fracassos que não são nossos, mas de toda uma sociedade. Precisamos desmercantilizar os afetos, os corpos, as trajetórias e os saberes. Cultivar o descanso como resistência. E permitir que a felicidade deixe de ser um produto final para ser um processo coletivo, contraditório e profundamente humano.
Você, que chorava naquela madrugada, saiba que tudo o que disseste não é sobre si mesmo ou suas falhas. Mas sobre uma sociedade que está fracassando copiosamente.
(Transcrito do PÚBLICO-Brasil)
