
PNBF: A Copa, a felicidade nacional e o voto (por Gaudêncio Torquato)
Há fatores visíveis que influenciam uma eleição

Há fatores visíveis que influenciam uma eleição: inflação, emprego, renda, segurança pública, saúde, corrupção e credibilidade das instituições. Mas existem também fatores invisíveis, emocionais e simbólicos, que ajudam a moldar o estado de espírito coletivo de uma nação. É nesse campo que proponho o conceito de PNBF – Produto Nacional Bruto da Felicidade, um indicador informal capaz de medir o humor social de um povo. Nesse momento histórico, de eleições presidenciais no Brasil, a hipótese ganha relevância.
Se o Brasil ganhar a Copa e conquistar seu hexacampeonato, é razoável imaginar uma elevação do PNBF. Se fracassar de forma traumática, o efeito poderá ser o inverso. A questão central é: pode o estado emocional produzido pelo futebol influenciar decisões eleitorais?
A resposta da psicologia política é que sim, pelo menos parcialmente.
Diversos estudos sobre comportamento eleitoral demonstram que os seres humanos não tomam decisões exclusivamente racionais. Emoções, percepções subjetivas e estados de humor interferem na avaliação que os cidadãos fazem dos governantes. Pesquisas conduzidas por cientistas políticos como Neil Malhotra (economista político americano e professor de economia política na Escola de Administração de Empresas na Universidade Stanford) mostraram que vitórias esportivas podem gerar sentimentos positivos que acabam sendo transferidos, ainda que inconscientemente, para autoridades e governos em exercício. Em outras palavras, quando as pessoas estão felizes, tendem a avaliar o ambiente político de forma mais benevolente; quando estão frustradas, tornam-se mais críticas.
A psicologia chama esse fenômeno de efeito de transferência emocional. O indivíduo experimenta uma emoção provocada por um evento e, sem perceber, projeta esse sentimento sobre outros aspectos da realidade. Uma vitória da seleção nacional produz orgulho, autoestima coletiva, sensação de pertencimento e confiança. Uma derrota dolorosa pode gerar sentimentos opostos: desapontamento, irritação e pessimismo.
O futebol possui ainda uma característica singular no Brasil: ele funciona como uma das mais poderosas expressões de identidade nacional. Durante uma Copa do Mundo, diferenças regionais, sociais e ideológicas costumam ser temporariamente suspensas em favor de um sentimento comum de pertencimento. O país passa a compartilhar emoções simultâneas, criando uma rara experiência coletiva em uma sociedade cada vez mais fragmentada.
A história brasileira oferece exemplos interessantes dessa conexão entre futebol e política. A conquista da Copa de 1970 foi amplamente utilizada pelo regime militar para fortalecer a narrativa de orgulho nacional. Décadas depois, a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, em 2014, provocou um choque emocional que coincidiu com um período de forte desgaste político e econômico. Embora não seja possível afirmar que o resultado esportivo tenha determinado escolhas eleitorais, ele certamente contribuiu para alterar o ambiente psicológico do país.
É importante observar que o PNBF não substitui os fatores concretos da política. Nenhum título mundial elimina a inflação nem resolve problemas de segurança pública. Da mesma forma, uma derrota não apaga realizações governamentais nem cria crises econômicas inexistentes. O que ocorre é algo mais sutil: o humor coletivo funciona como uma lente através da qual os cidadãos interpretam a realidade.
Quando o PNBF está elevado, a sociedade tende a enxergar o futuro com mais otimismo. O eleitor mostra maior disposição para valorizar conquistas, minimizar falhas e acreditar em promessas. Quando o PNBF cai, prevalecem a insatisfação, a cobrança e a predisposição para mudanças. O voto continua sendo uma decisão política, mas é tomado por seres humanos emocionalmente afetados pelo ambiente que os cerca.
A neurociência reforça essa interpretação. Estudos sobre tomada de decisão mostram que emoções positivas ampliam a sensação de confiança e reduzem a percepção de risco. Emoções negativas produzem o efeito contrário, aumentando a cautela e a crítica. O eleitor, portanto, não é apenas um avaliador racional de propostas; é também um intérprete emocional da realidade.
Por isso, a Copa do Mundo em curso poderá produzir efeitos indiretos sobre o processo eleitoral brasileiro. Se o Brasil conquistar o título, haverá uma explosão de orgulho nacional, confiança e entusiasmo. O PNBF crescerá. Se ocorrer uma eliminação traumática, especialmente nas fases decisivas, a atmosfera emocional poderá tornar-se mais pesada e pessimista.
Naturalmente, não se trata de afirmar que a seleção escolherá o próximo presidente. Seria um exagero. A economia continuará sendo o principal campo de julgamento dos eleitores. Mas ignorar a influência do estado de ânimo coletivo seria desconhecer uma das dimensões mais fascinantes da psicologia política.
A democracia é feita de números, mas também de sentimentos. O eleitor entra na cabine de votação carregando não apenas suas convicções ideológicas e seus interesses materiais, mas igualmente suas esperanças, frustrações, medos e entusiasmos. Em um país apaixonado por futebol, a Copa do Mundo pode funcionar como um poderoso termômetro emocional da sociedade.
Talvez seja exatamente isso que o PNBF procura medir: o grau de felicidade nacional que, sem decidir sozinho uma eleição, ajuda a moldar o ambiente psicológico no qual ela acontece.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, jornalista, escritor e consultor político
