
Sigilo pró-Flávio (por Mary Zaidan)
Decisão de Mendonça de impor segredo ao fato de o senador ser investigado favoreceu o candidato e prejudicou a análise do eleitor

A quebra parcial de sigilo dos inquéritos sobre o Master quase não trouxe novidades. A maioria das diligências e dos envolvidos já era conhecida em vazamentos, tão corriqueiros que, na prática, inutilizam o segredo de investigações – não raro estabelecido e mantido em benefício dos suspeitos. Flávio Bolsonaro é prova disso.
Só na sexta-feira, 11, três semanas antes das eleições, o Brasil tomou conhecimento de que o candidato é formalmente investigado pela Polícia Federal. Uma das pouquíssimas informações do processo envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o filme Dark Horse que, curiosamente, não tinha vindo à tona. Sobre Flávio e seu irmão Eduardo, ex-deputado cassado e autoexilado no Texas, pesam suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva e ativa.
Flávio se tornou investigado em 23 de julho. André Mendonça, ministro relator do caso Master no STF, autorizou a ação da PF a partir de um pedido da Procuradoria-Geral da República feito no dia anterior. À celeridade do despacho, Mendonça acrescentou a determinação de que o inquérito corresse em segredo de Justiça, impedindo que o país soubesse que o senador estava, oficialmente, na mira da PF. Pela gravidade dos acontecimentos, com envolvimento direto de um candidato à Presidência da República, as apurações deveriam ter começado há tempos.
Em 13 de maio, coube ao site The Intercept revelar os primeiros áudios entre Flávio e Daniel Vorcaro, nos quais o senador cobrava do ex-banqueiro parcelas dos R$ 134 milhões prometidos para suposto financiamento da cinebiografia do ex Jair Bolsonaro. Abordado antes da publicação, Flávio reagiu com agressividade e ironia: “É mentira, de onde você tirou isso?”, acusando a jornalista de ser militante. Nem foi a primeira mentira sobre o caso. Ao seu partido ele também já havia negado repetidas vezes qualquer relação com o ex-banqueiro. Dizia que a tentativa de associá-lo ao “caso Master” era uma “narrativa falsa criada pelo governo Lula”.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesFlagrado pelos áudios, mudou a tática e, mais uma vez, mentiu. Em um vídeo, admitiu os contatos, mas se defendeu dizendo que se tratava de captação privada e legítima, sem uso de dinheiro público. Ao PL, que à época chegou até a cogitar mudança de candidato, Flávio garantiu que nada mais havia. Mentiu de novo. Dias depois, confirmaram-se pelo menos dois encontros presenciais, incluindo uma visita à casa de Vorcaro, quando o ex-banqueiro já havia sido preso e carregava uma tornozeleira eletrônica. Em seguida, outra mentira: prometeu apresentar todos os documentos financeiros sobre o filme, contrato e planilhas, que nunca apareceram.
Tudo não passaria de um filho dedicado que busca recursos para um filme sobre o pai heroi, acrescido da ladainha de dinheiro privado. Balela que as investigações desmontaram, visto que Vorcaro sobrevivia de fraudes regadas a dinheiro de fundos públicos e de aposentados.
A campanha sofreu um baque que parecia definitivo. O Centrão se afastou do candidato, as reiteradas mentiras bateram forte no público evangélico, as intenções de voto caíram e a rejeição subiu.
No mesmo mês de julho vieram as primeiras denúncias de tráfico de influência do filho de Lula, o Lulinha, investigado no inquérito sobre fraudes no INSS, também sob a relatoria de Mendonça. Embora fosse o filho do candidato e não o candidato, Lula virou o centro da berlinda, deixando o Dark Horse quase no esquecimento. Flávio começou a tratar o caso como página virada.
Até a sexta-feira, 11 de setembro.
O mais provável é que Flávio e os seus imaginassem que o segredo de Justiça pudesse ser mantido até depois das eleições. Daí as afirmações tão peremptórias feitas em uma live do senador no mesmo 23 de julho em que Mendonça autorizou as investigações e decretou o sigilo. “Gente, eu não tenho uma investigação contra mim. Eu não sou investigado em absolutamente nada, nada. Não tem uma investigação formal contra mim. Não tem nada, absolutamente nada contra mim.” Difícil crer em coincidência.
Flávio é investigado por crimes graves desde julho. A possibilidade de que ele, seus advogados e a cúpula do PL desconhecessem o fato é abaixo de zero, o que agudiza – e muito – o impacto eleitoral do sigilo estratégico.
O segredo de Justiça existe para preservar as investigações, não os suspeitos. Não poderia, em hipótese alguma, ser utilizado em favor de um candidato. Desrespeita o eleitor e atenta contra a equidade entre os concorrentes e a lisura do processo eleitoral.
Mary Zaidan é jornalista

