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Quando o Presidente argentino aparece a Machado de Assis (Odylo Costa)

Diário de Notícias , Encontro Matinal

09/08/2026 11:00
Reprodução
Quando o Presidente argentino aparece a Machado de Assis (Odylo Costa)

Calma, leitor, não se trata de espiritismo, não é Machado de Assis aparecendo ao Presidente, mas o Presidente a Machado de Assis; e não se chamava, evidentemente, Lanusse.

Chamava-se Domingo Faustino Sarmiento.

Machado de Assis o viu numa noite de 1868, quando, apesar da guerra com o Paraguai, houve eleições na Argentina, e o homem que tantas neves do exílio caminhara e fizera da “educação para todos” uma arma de igualdade e civilização foi eleito para suceder ao Presidente Bartolomeu Mitre.

Tem a palavra o Sr. Machado de Assis:

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“Foi em 1818. Estávamos alguns amigos no Clube Fluminense, Praça da Constituição, casa onde é hoje a Secretaria do Império. Eram nove horas da noite. Vimos entrar na sala de chá um homem que ali se hospedara na véspera. Não era moço; olhos grandes e inteligentes, barba raspada, um tanto cheio. Demorou-se pouco tempo; de quando em quando, olhava para nós, que o examinávamos também, sem saber quem era. Era justamente o Dr. Sarmiento, vinha dos Estados Unidos, onde representava a Confederação Argentina, e donde saíra porque acabava de ser eleito Presidente da República. Tinha estado com o Imperador, e vinha de uma sessão científica. Dois ou três dias depois, seguiu para Buenos Aires.

A impressão que nos deixara esse homem, foi, em verdade, profunda. Naquela visão rápida do presidente eleito pode-se dizer que nos aparecia o futuro da Nação argentina.

Com efeito, uma nação abafada pelo despotismo, sangrada pelas revoluções, na qual o poder não decorria mais que da força vencedora e da vontade pessoal, apresentava este espetáculo interessante·: um general patriota, que, alguns· anos antes, após uma revolução e uma batalha decisiva, fora elevado ao poder e fundara a liberdade constitucional, ia entregar tranquilamente as rédeas do Estado, não a outro general triunfante, depois de nova revolução, mas a um simples legista, ausente da Pátria, eleito livremente por seus concidadãos. Era evidente que esse povo, apesar da escola em que aprendera, tinha a aptidão da liberdade; era claro também que os seus homens públicos, em meio das competências que separavam, e porventura ainda os separam, sabiam unir-se para um fim comum e superior.

Sarmiento chegou a Buenos Aires; o General Mitre entregou-lhe o poder, tal qual o constituíra e preservara da violência e do desânimo.”

Creio que bastaria ficar aqui, com Machado de Assis.

Mas não fico. Acrescento duas palavras, não duas palavras de discurso que se estiram, mas duas palavras mesmo.

Tive a sorte (não digo para me gabar, mas porque é notório) de nascer em São Luís do Maranhão e de me criar na beira do Parnaíba. Mas me considero um pouco argentino — argentino daquela misteriosa e persistente tradição que nos une e se inicia antes de Sarmiento, mas que ele definiu corno a da “civilização” contra a “barbárie”. Esta se chamou a certa altura no passado Rosas, em nosso tempo Perón; e nunca foi amiga do Brasil. Com uma ou outra exceção retribuímos a malquerença, os brasileiros; e até, no caso de Rosas, andamos participando da briga com o nosso sangue. Entre os que deixaram um pouco desse sangue no chão de Caseros estava — por sinal — Manuel Luís Osório, a quem Sarmiento ofereceu a única coisa dada, disse ele, à sua República, que não tinha naqueles tempos títulos e distinções: a cidadania da República argentina.

No fundo, a América Latina é mesmo uma só. Eis porque não deixamos de ter um pouco de argentinos, todos nós. E eles de brasileiros. Isso nos dá direito a ler Jorge Luís Borges como se tivesse nascido na Rua do Rosário e a desejar para a Argentina presidentes como Mitre e Sarmiento e não ditadores como Rosas e Perón.

Odylo Costa