
O refúgio do canalha (por Gaudêncio Torquato)
O falso patriotismo alimenta-se da polarização. Precisa dividir a sociedade entre patriotas e traidores, pessoas de bem e agentes do mal

“O patriotismo é o último refúgio do canalha.” A frase, pronunciada pelo escritor inglês Samuel Johnson em 7 de abril de 1775, atravessou dois séculos e meio sem perder a atualidade. Ao contrário do que uma leitura apressada poderia sugerir, Johnson não condenava o amor verdadeiro à pátria. Seu alvo era o falso patriotismo, transformado em disfarce por pessoas que invocam o interesse nacional para esconder ambições particulares, escapar de críticas ou conquistar a confiança da sociedade.
O autêntico patriotismo não precisa de trombetas. Manifesta-se no respeito às instituições, na defesa da democracia, no cuidado com o patrimônio público e na disposição de servir à coletividade. O falso patriota, ao contrário, cobre-se com a bandeira, proclama-se intérprete exclusivo da vontade nacional e apresenta os adversários como inimigos do país. Confunde a pátria com seu partido, seu grupo ou sua própria pessoa.
Samuel Johnson percebeu que a causa nacional poderia funcionar como esconderijo moral. Quando faltam argumentos, sobram símbolos. Quando a biografia provoca dúvidas, exibe-se a bandeira. Quando os resultados do governo são insuficientes, recorre-se à grandiloquência. O patriotismo de fachada transforma-se, assim, em instrumento de absolvição: quem se apresenta como salvador da pátria espera que seus erros sejam esquecidos em nome de uma missão superior.
Pois bem, a advertência de 1775 cai como uma luva no ambiente político brasileiro. À medida que avança a campanha presidencial, os principais candidatos procuram vestir mantos simbólicos capazes de emocionar e mobilizar o eleitorado. Cada qual apresenta sua própria versão do país e tenta convencer a população de que somente seu projeto poderá salvá-lo.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesLula recorre à memória de seus governos e proclama ter realizado a melhor administração da história brasileira. Procura ocupar um lugar no panteão dos grandes presidentes, aproximando sua imagem da herança trabalhista de Getúlio Vargas e do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek. O passado é restaurado, polido e exibido como certificado de competência. As realizações são ampliadas; os fracassos, minimizados; as contradições, empurradas para os bastidores.
O presidente tenta encarnar a imagem de pai dos pobres, defensor da soberania e protetor dos que vivem nos andares inferiores da pirâmide social. Seu patriotismo apoia-se na ideia de inclusão: amar o Brasil seria cuidar dos pobres, aumentar a renda, gerar empregos e defender as riquezas nacionais. Trata-se de uma narrativa poderosa, porque combina lembrança, gratidão e esperança. Mas o discurso torna-se oportunista quando transforma políticas de Estado em favores pessoais e apresenta o governante como proprietário das conquistas sociais.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, procura ocupar o território da moral, dos bons costumes e da família. Apresenta-se como herdeiro de uma corrente conservadora e guerreiro contra tudo aquilo que descreve como ameaça aos valores nacionais. Em sua retórica, a pátria aparece associada à religião, à autoridade, à ordem, à segurança e à preservação da família. O candidato tenta converter o sobrenome em patrimônio eleitoral e transformar a lealdade ao pai em compromisso com o Brasil.
Também aí existe uma operação de apropriação simbólica. Ninguém possui o monopólio da família, da fé ou da moralidade. São valores pertencentes à sociedade, não a um partido ou clã político. Quando utilizados como armas de campanha, deixam de unir e passam a separar. O adversário já não é apenas alguém com ideias diferentes: torna-se inimigo da família, da religião e da pátria. A política abandona o terreno do debate e invade o espaço da condenação moral.
De um lado, portanto, o patriotismo social de Lula; de outro, o patriotismo moral de Flávio Bolsonaro. Um promete proteger os pobres; o outro, defender as famílias. Um convoca a memória dos programas sociais; o outro mobiliza a tradição conservadora. Ambos procuram pescar votos nos mares da emoção coletiva. As iscas mudam, mas a técnica é semelhante: envolver interesses eleitorais em causas que ninguém ousaria rejeitar.
O problema não está nas causas, todas legítimas. Combater a pobreza é dever do Estado. Defender a família, em suas diversas configurações, também constitui compromisso social. Preservar a soberania, assegurar a ordem pública e promover o desenvolvimento são responsabilidades de qualquer governo. A deformação começa quando essas bandeiras são sequestradas por candidatos que se apresentam como seus únicos representantes.
O falso patriotismo alimenta-se da polarização. Precisa dividir a sociedade entre patriotas e traidores, pessoas de bem e agentes do mal, defensores do povo e inimigos dos pobres. Essa linguagem simplifica a realidade, elimina as nuances e dispensa a prestação de contas. Se o líder representa a pátria, criticá-lo passa a ser interpretado como agressão ao próprio país. Se encarna o povo, investigar seus atos torna-se perseguição. Está formado o refúgio descrito por Samuel Johnson.
A campanha de 2026 começa a ser marcada por esse duelo de símbolos. De um lado, a promessa de reconstrução social; de outro, a cruzada pela restauração moral. O debate sobre educação, saúde, segurança, produtividade, equilíbrio fiscal, desigualdade e eficiência administrativa corre o risco de desaparecer sob o peso dos slogans. A pátria converte-se em cenário, a bandeira em adereço e o eleitor em plateia de uma representação cuidadosamente ensaiada.
O verdadeiro patriota não pede imunidade. Aceita a fiscalização, respeita a divergência e submete seus atos ao julgamento público. Não trata os recursos do Estado como propriedade pessoal, não transforma programas sociais em moeda de gratidão e não utiliza a religião ou a família como escudos eleitorais. Seu amor ao país mede-se menos pelas palavras que pronuncia do que pelas responsabilidades que assume.
Depois de 251 anos, a sentença de Samuel Johnson conserva sua força porque identifica uma tentação permanente do poder: transformar valores coletivos em esconderijos particulares. Cabe ao eleitor abrir as portas desses refúgios, examinar quem está atrás das bandeiras e separar o compromisso verdadeiro da encenação. A pátria pertence a todos. Quando um político tenta tomá-la para si, é prudente verificar o que pretende esconder sob seu manto.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político

