Parintins: dois bois valem mais que mil Broadways(por Roberto Caminha)
É como se Shakespeare, da Vinci, Mozart, Spielberg e a Mãe Natureza tivessem feito um pacto para montar o maior espetáculo do planeta
atualizado
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Imagine uma cidade com cem mil habitantes. Agora imagine que, por três dias, essa cidade resolve crescer igual massa de pão com fermento demais e, num passe de mágica amazônica, passa a abrigar 120 mil visitantes extras, com sorrisos no rosto e celular na mão. Parece delírio? Parece exagero de pescador? Pois bem-vindo a Parintins, a ilha do meio do Amazonas onde o impossível vira espetáculo e onde dois bois brigam pelo título de melhor da galáxia – e o mundo aplaude de pé!
Parintins não é só uma cidade. É um estado de espírito, uma usina de criatividade tropical. Enquanto tem cidade grande por aí que não consegue organizar um show de rock sem engarrafar até as nuvens, Parintins realiza o Festival dos Bois Garantido e Caprichoso como se fosse uma Olimpíada da floresta. E com um detalhe: cada boi é uma verdadeira escola de samba com turbocompressor, só que com temática amazônica e alma cabocla.
A arena onde tudo acontece, chamada Bumbódromo, a saída genial de um sonho maluco entre um visionário e um pajé. Ali, Garantido (o boi vermelho) e Caprichoso (o azul) desfilam suas óperas em forma de boi-bumbá, misturando música, dança, teatro, alegoria, luz, fumaça, LED e suor. É como se Shakespeare, da Vinci, Mozart, Spielberg e a Mãe Natureza, dirigidos pelo Filho, tivessem feito um pacto pra montar o maior espetáculo do planeta – e decidiram que seria em Parintins.
E a cidade, veja bem, se desdobra. Ou melhor: ela dobra de tamanho. Com direito a puxadinho, colchonetes, rede na varanda e coração aberto. Durante o festival, quem tem casa vira anfitrião, quem tem barco vira hotel flutuante, quem tem uma panela grande vira chef internacional da galinhada. E todo mundo ganha com isso: a economia gira, a autoestima salta e até o mosquito da malária se emociona e vira aliado. Na casa da imortal Roseani Novo, as árvores do pomar, serviam como armadores de redes, para que as pessoas pudessem passar os três dias, repousando nas suas “baladeiras”, sem pagar nada. Todos queriam pagar e ela não recebia.
Mas não pense que é bagunça, não. Parintins é organizada como coração de mãe: cabe todo mundo, mas cada um no seu quadrado. Tem gente que vai pelo Caprichoso, outros pelo Garantido. E tem aqueles que vão só pela cerveja gelada e pelo churrasquinho de rua – mas saem apaixonados por algum dos bois, porque resistir é impossível. Os bodós, peixe da região, no Brasil conhecido como cascudo, ficam por cima dos fogareiros, parecendo sapatinhos. Então, chegam a pimenta murupi, a farinha do Uariní, o tucupi e aquecem os corações.
A genialidade da festa não tá só no tamanho do público, mas no tamanho do talento. Tem costureira que vira estilista de ópera, tem eletricista que vira engenheiro de efeitos especiais, tem estudante de teatro que encarna pajé com a convicção de um ator premiado. A cidade inteira vira estúdio, oficina, camarim e palco. É a Broadway da Amazônia com tambaquis, bodós na brasa e um forte sotaque regional. Eu duvido que você faça um compromisso com a Broadway como fará com Parintins sobre o seu retorno.
E o melhor: não tem briga. Tem rivalidade, claro – daquelas boas, que alimentam a criatividade. Mas se um Caprichoso vê um Garantido passando mal, no meio do calorão, oferece colo, água e sombra. Porque antes de boi, vem o respeito. E antes de qualquer nota do jurado, vem o amor pelo clima cidadão de Parintins. É coisa para mostrar, o valor da vida, aos que vivem na Faixa de Gaza.
No fim, quando as luzes se apagam e a última toada ecoa sobre o rio, tem sempre aquele suspiro coletivo: “ano que vem a gente volta”. E volta mesmo. Porque quem já viu um boi-bumbá dançando sobre uma alegoria de 15 metros, com asas de LED e som de orquestra sabe que Parintins não é só uma cidade. É uma invenção genial do Brasil profundo. É ópera da selva, com coração no compasso e magia no olhar. Foi exatamente em Parintins que nasceu a frase: Eu tenho certeza que Deus existe!
Pense bem, se algum dia alguém duvidar da capacidade criativa do interior do país, mande essa pessoa passar três dias em Parintins e você terá a absoluta certeza de que o nosso Brasil tem jeito. Ela vai voltar sem voz, com glitter até na alma e com argumentos para divulgar, para o mundo, de que, na ilha encantada do Amazonas, dois bois valem mais que mil Broadways.
Roberto Caminha Filho, economista, é Garantido desde pequenininho.


