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Campanha não é apenas TV (por Gaudêncio Torquato)

Candidato que entra no gosto do povo não pode ser considerado mero sabonete a ser vendido

Repórter de Artigos14/06/2026 11:00, atualizado 14/06/2026 01:11
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Arte/Metrópoles
imagem colorida de campanha eleitoral

Daqui a dois meses, em 15 de agosto, começará a programação eleitoral na televisão, no rádio e na Internet, oportunidade em que os candidatos apresentam seus programas a um eleitorado cada vez mais descrente das propostas e compromissos dos políticos. Muitos acham que sua visibilidade pública, por meio do uso de rádio e TV, será suficiente para garantir urnas cheias de votos, capazes de torná-los vitoriosos. Será que os programas eleitorais poderão mudar as atuais posições no ranking eleitoral dos dois principais candidatos à presidente da República e dos candidatos aos governos dos Estados?

Essa questão, que preocupa os chamados “marqueteiros” acende as conversas em todos os espaços nacionais, carece de uma análise que contemple não apenas as características do meio indutor de imagem, mas de uma leitura acurada a respeito do momento social, político e econômico vivido pela sociedade.

A maioria das pessoas tende a acreditar que as posições serão alteradas, a partir da programação eleitoral. É provável que as coisas se mantenham como está. Vamos a algumas razões.

Em primeiro lugar, cabe dizer que uma campanha eleitoral não é apenas fruto da visibilidade de um candidato, via TV ou rádio, principalmente nesta era das redes sociais. A internet foi incluída como ferramenta de comunicação, o que pode mudar as regras do jogo. A campanha é um conjunto de elementos, fatores e ações, que abarcam o discurso, a leitura dos anseios e expectativas dos eleitores, a mobilização e todo o potencial de eventos, a ação dos candidatos proporcionais e o trabalho dos cabos eleitorais, a força dos prefeitos e a grande energia dispensada por ações não governamentais, que formam um imenso sistema de pressão e influência.  Em primeiro lugar, é bom lembrar que cada campanha possui um clima próprio, diferente da temperatura da campanha anterior, mesmo que apresente nomes bastante conhecidos. Significa dizer que cada campanha tem o seu horizonte definido, a sua cor básica. Neste ano, por exemplo, teremos a campanha mais polarizada da história política contemporânea.

De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sustentado o discurso da soberania. Sua posição tem sido a de defender a autonomia das instituições nacionais, a independência da política externa brasileira e a rejeição a iniciativas que possam ser interpretadas como interferência estrangeira em assuntos internos do país.

Do outro lado, setores da oposição liderados politicamente pelo candidato Flávio Bolsonaro defendem uma abordagem mais alinhada à visão de segurança adotada pelos Estados Unidos. Nessa perspectiva, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram classificadas pelo governo Trump como organizações terroristas. Tal decisão abre uma porta para uma eventual intervenção norte-americana no território brasileiro, sob a alegação de que o combate aos dois grupos é uma decisão do presidente “para proteger” os EUA. Para complicar, o novo tarifaço do governo Trump contra o Brasil está caindo no colo do senador.  Segundo o Instituto Quaest, 47% concordam que Flávio pediu a Trump novo tarifaço contra o Brasil. Ademais, o clã Bolsonaro, pela voz do filho 02, Eduardo, propõe mudar o PIX, unanimidade nacional, pelo “PIX norte-americano”, Zelle, um sistema privado mantido por um consórcio de grandes bancos americanos.

Na verdade, o candidato que mais se aproximar dos anseios das comunidades deverá abrir espaços maiores e o induzindo o sistema de decisão do eleitor. Nesse sentido, vale o ditado: água de morro abaixo, fogo de morro acima, quando o vento corre para um lado, ninguém é capaz de detê-lo. Os dois candidatos que estão na liderança da corrida se assemelham aos ventos do tempo.

Há de se considerar, ainda, o nível de satisfação das classes sociais. Como pensa a classe média sobre o terceiro governo de Lula? Porque as margens sociais, mesmo beneficiadas por um vigoroso programa de distribuição de renda, têm diminuído seu apoio ao presidente Lula, conforme atestam as pesquisas.

Cada classe dispõe de uma percepção diferenciada dos problemas; as classes C, D e E, decidem com sentimentos mais ligados ao dia a dia, outras com expectativas voltadas para médio e longo prazos, ou seja, vive-se tanto a pressão do momento quanto o medo do futuro. Não se trata, apenas, de prometer. Nesse ponto, o eleitor volta sua atenção para o patrimônio de credibilidade de cada um. A promessa deverá ser embalada pelo efeito-demonstração, ou seja, como será cumprida a promessa e com que recursos. Alguns candidatos podem prometer muita coisa, mas os sinais emitidos, quando contrastados com a descrença passada pelo candidato, cairão por terra.

Se essas ferramentas forem colocadas numa balança, há de se concluir que o tempo de TV não pode ser considerado fator determinante de sucesso ou fracasso. E essa é a questão central. Alguns candidatos, principalmente na área proporcional, apostam sua eventual vitória à programação eleitoral na TV e no rádio, como se a exposição e a visibilidade pública fossem elementos de poder definitivo e arrebatador.  O programa eleitoral é apenas força auxiliar. Diz-se que, quando um cego guia outro cego, ambos caem no buraco. Esta é a ameaça que paira sobre profissionais de marketing e certos candidatos. É claro que o tempo de TV tem importância, principalmente quando se trata de comparar um candidato que dispõe de bom espaço e de outro, que conta com escassos minutos. Um largo tempo, usado de maneira inadequada, com formatos antiquados, elogios adjetivados, chavões batidos, será um bumerangue, voltando-se contra o próprio candidato.

Mais do que nunca, está provado que candidato que entra no gosto do povo não pode ser considerado mero sabonete a ser vendido pela TV nos monótonos programas eleitorais. Se a TV fizesse milagre, muitos candidatos no passado, que dispuseram de grandes tempos de mídia eleitoral, entre eles Ulysses Guimarães, que, em 1989, teve míseros 4,7% dos votos para presidente.

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, jornalista, escritor e consultor político.