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Para onde vamos? (por Antônio Carlos de Medeiros)

O brasileiro quer rumo, quer voltar a acreditar no Brasil: como projeto de Nação e como lugar para viver

09/10/2026 09:39
Arte/Metrópoles
Para onde vamos? (por Antônio Carlos de Medeiros)

A onda azul do primeiro turno das eleições nacionais de 2026 já elegeu maioria no Congresso Nacional – Câmara Federal e Senado da República. Agora chega ao segundo turno das eleições presidenciais com Flavio Bolsonaro na frente de Lula.

Flavio em ascensão nas pesquisas e favorito. Lula pintado para guerra para reagir e reverter o quadro. Vinte dias de tensão máxima até 25 de outubro. Guerra de rejeições. Eleições sui generis.

Para onde vamos em 2027? O cenário é de incertezas. Não é apenas a questão fiscal. A crise não é só de governo. É de poder.

Vamos outra vez às urnas no domingo 25 de outubro em cenário de derretimento dos Três Poderes da República – Judiciário, Legislativo e Executivo. No limiar de uma Crise de Estado.

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São os estertores, agora mais fortes, do colapso do Contrato Social da Constituição de 1988, 38 anos depois. Cansados, os brasileiros foram e vão às urnas em clima de profunda desesperança.

Ao mesmo tempo, enxergam as previsões factuais de que 2027 será um ano muito difícil na economia, na política e nas condições sociais. Menos PIB, mais carestia, menos oportunidades de trabalho e renda. Mais desesperança.

No limite da desesperança, mais do que nunca anseiam por renovação, já às portas do risco de anomia social e do caminho da desobediência civil.

Este é o grito contido que foi e que vai às urnas outra vez. Precisamos compreender que o país chegou ao limite e que a República está sob ameaça. O regime precisa buscar forças para se regenerar, ouvindo o ruído (ainda) contido das ruas.

A regeneração tem nome. É a inauguração de uma nova agenda de restauração do Estado brasileiro. Com um novo Contrato Social. Na busca de conexão entre o poder político e a sociedade e o espírito da época no Brasil. Uma ordem de mudanças constitucionais, infraconstitucionais e microeconômicas. O espírito da época é o espírito das mudanças e das reformas políticas, institucionais e econômicas.

O próximo presidente do Brasil poderá perder força e poder muito cedo se não anunciar os termos de uma Agenda de mudanças a partir da sua diplomação ainda em 2026. É fundamental um choque de confiança à sociedade e ao mercado político e econômico.

Tão importante quanto as eleições presidenciais ainda em curso foram as eleições dos novos senadores da República. Houve renovação e nova configuração. São eles que já se articulam para eleger o novo presidente do Senado. Que é também o presidente do Congresso Nacional. E o terceiro na linha sucessória da Presidência da República, atrás apenas do vice-presidente e do presidente da Câmara dos deputados.

Nesta próxima legislatura de 2027-2031 o Senado da República deverá ter ainda mais força política. Seja com Flavio Bolsonaro eleito, ou com Lula eleito, o cenário é de coabitação política entre o governo e o Congresso Nacional (presidido pelo presidente do Senado).

Será o novo senado, com a renovação de 54 dos seus 81 membros, que vai dar início à reforma mais urgente já no limiar de 2027: a reforma do judiciário. A primeira das reformas políticas essenciais.

Sem o ímpeto de uma Agenda de mudanças e reformas, respaldado pelas urnas e articulado com o Congresso Nacional, com noção acurada de “timing político”, o novo presidente poderá perder condições de governar o país.

Eleito em contexto de rejeições e de país dividido ao meio, com alto peso do “não voto” (abstenções, brancos e nulos), o presidente poderá iniciar o mandato com baixa legitimidade eleitoral. Sua força terá que advir da conquista do capital político e simbólico de uma Agenda de mudanças e reformas.

Sem tais iniciativas de agendas, o Brasil poderá exacerbar ainda mais um quadro já quase estrutural de crise política, crise econômica e anomia social. Vale dizer, em última instância, de crise de Estado. Para além de figuras de retórica, todos nós sabemos que é disso que se trata.

É preciso sair dessa armadilha. É preciso pensar fora da caixa. É preciso, já em janeiro e na inauguração do novo Congresso no início de fevereiro, apontar um rumo para o Brasil. O brasileiro quer rumo, quer voltar a acreditar no Brasil: como projeto de Nação e como lugar para viver.

É preciso amalgamar uma forte atitude política que venha a forjar a possibilidade de um ambiente de mudanças. Esta atitude política será tão mais forte quanto mais seja respaldada pela articulação de um novo bloco de poder. A crise é de poder.

Uma nova coalizão politicamente dominante respaldada pelas urnas em conexão com a sociedade civil organizada.  Uma conexão que venha a resultar em novo pacto de poder. É o que o Brasil das ruas procura: o funcionamento dos três poderes.

Com a onda azul em movimento, Flavio Bolsonaro já dá sinais de articular uma Frente Ampla e agregar uma nova correlação de forças politicamente dominante.

Lula despertou para os sinais das ruas e das urnas e busca alianças ao centro do espectro político.

Ainda há volatilidade e indecisão. Sabendo-se que o “não voto” chegou ao recorde de 25%.

Um novo pacto de poder requer a premissa da construção do amálgama com a sociedade civil.

Sem esta conexão com a sociedade (o poder da maioria), o país não sai da crise recorrente.

Atualmente, a oligarquia dos poderes (o poder da minoria) em cenário de derretimento é a origem e a resultante das crises.

No meio do cansaço e da desesperança, a democracia resiste.

Antônio Carlos Medeiros é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.