Para onde o homem caminha (por Ricardo Guedes)

Chamar de “Sapiens” o devaneio atual é atribuir a ideia de “racionalidade” àquilo que não se tem

atualizado

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Reprodução/SoCientífica
Bonecos de cera com representações do homo sapiens e neandertal - Metrópoles - neandertais e humanos
1 de 1 Bonecos de cera com representações do homo sapiens e neandertal - Metrópoles - neandertais e humanos - Foto: Reprodução/SoCientífica

Acho que Noah Harari é hoje, se não o mais importante, um dos mais significativos pensadores da atualidade. Em seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, Noah diz que o homem é um “acidente biológico”, e que deve desaparecer, devido a sua irracionalidade, possivelmente em “um século ou mais”, dado os problemas e riscos que gera para si mesmo.

Nós nos auto denominamos como “Homo Sapiens”, em contraposição à todos os seres vivos do planeta.

Lutamos contra os “Neandertais”. O “Homem de Neandertal” era alto, forte, olhos verdes, e acordava cedo. O “Homo Sapiens” era mais baixo, mais fraco, olhos castanhos e negros, e acordava mais tarde. Um pouco preguiçoso. O “primeiro inglês”, há 10.000 anos atrás, como na mostra do “Museu de História Natural” de Londres, tinha pele negra, começando a clarear, cabelos enrolados, olhos azulados, na transformação do negro para o branco pela despigmentação da pele por mudanças alimentares da carne para o peixe e menor incidência do sol. Desbotou-se.

Miscigenamos com os “Neandertais” há 50 mil anos atrás, e os eliminamos 2 mil anos depois. Éramos mais inteligentes e mais ágeis, nossas lanças eram mais leves e perfurantes. Nossa primeira guerra territorial e geopolítica de proporções. Tomamos o planeta para nós.

Segundo o livro “What every person should know about war”, de Chris Hedges, dos últimos 3.400 anos da história tivemos somente 268 anos de paz, 8% do tempo total dos tempos da eterna guerra.

Por sinal, a ideia de racionalidade e progresso surge com Francis Bacon na Inglaterra na virada do século XVI e se acentua durante a Revolução Industrial, conforme descrito nos artigos de Paulo Paiva. O Iluminismo Francês pressupõe uma racionalidade que não temos, e coloca-nos em situação de amargo diante do infortúnio das limitações ecológicas com as quais nos deparamos, inexoravelmente, rumo à nossa autodestruição.

Somos um belo planeta, com terra, água e ar, estes dois últimos cada vez mais rarefeitos. A ecologia não é uma preocupação para o homem, posto que o lucro imediato supera a expectativa do encurtamento futuro da sobrevivência dos nossos descendentes, ou decadentes.

O “Relógio do Juízo Final”, ou o “Doomsday Clock”, originalmente criado em 1947 por Cientistas da Universidade de Chicago que participaram do “Projeto Manhattan”, aponta hoje que estamos a 85 segundos da “Meia Noite”, a marca mais próxima até hoje do marco hipotético para a destruição do mundo, devido às armas nucleares e crise climática, nesta ordem. O desespero puxa o gatilho.

Talvez fiquemos no futuro como os hominídeos do filme “A Máquina do Tempo”, de 1960, de George Pal baseado no livro de H.G. Wells, onde o homem fica reduzido a um estado monstruoso ou letárgico, como bem caracterizado no filme.

Chamar de “Sapiens” o devaneio atual é atribuir a ideia de “racionalidade” àquilo que não se tem. “O homem é o lobo do homem”, nas palavras de Hobbes, no rumo da auto destruição, onde o homem mata o homem, e cria as próprias condições que finalmente o eliminem

Só nos resta, para aqueles que conseguem ainda rir, somente cantar.

Como na música de Gilberto Gil,

“Poetas, seresteiros, namorados, correi,
É chegada a hora de escrever e cantar,
Talvez as derradeiras noites de luar”

Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e Autor do livro “Economia, Guerra e Pandemia: a era da desesperança”  

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