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Blog do Noblat - 22 anos

Escórcios, Lito e o clima que mudou a forma de voar (Mariana Caminha)

O calor extremo está mudando a forma como os aviões voam

06/08/2026 13:12
Michael Melo/Metrópoles
Imagem colorida de avião

Antes de escrever esta coluna, fui fisgada por uma lembrança de família. Entre os Escórcios, grupo do qual faço parte, existe uma espécie de obsessão quase genética pela aviação. Meu avô, Arnaldo, era fascinado por aviões de guerra. Cresci ouvindo histórias, vendo fotografias e percebendo que aquele fascínio era compartilhado por outros membros da família. Tenho tios pilotos – um deles fez carreira na Vasp – e primos que também escolheram os céus como profissão ou hobby.

Eu segui outro caminho. Em vez do manche, preferi as palavras. Meu interesse pela aviação passa pela literatura – sou fã dos livros de Ivan Sant’Anna – e pelas aulas informais de um dos maiores divulgadores do tema no Brasil: Lito Souza. Ex-mecânico de aeronaves, hoje piloto, Lito conseguiu transformar um assunto altamente técnico em conteúdo acessível, sem abrir mão do rigor. Um craque em aviação e, convenhamos, também em comunicação.

É justamente por isso que adoraria ouvi-lo falar mais sobre um tema que ainda recebe pouca atenção: o impacto das mudanças climáticas sobre a aviação.

Quando pensamos em atrasos de voos, logo imaginamos tempestades, nevascas ou ventos fortes. Pouca gente associa um céu completamente azul a problemas para decolar. Mas a física não se impressiona com o tempo bonito.

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O calor extremo está mudando a forma como os aviões voam.

Quanto mais quente o ar, menos denso ele fica. E é justamente a densidade do ar que permite às asas gerar sustentação e aos motores produzir o empuxo necessário para levantar voo. Em dias muito quentes, especialmente em aeroportos localizados em áreas elevadas ou com pistas mais curtas, um avião pode simplesmente não conseguir decolar com segurança levando toda a carga prevista.

A solução? Reduzir peso.

Isso pode significar embarcar menos carga, abastecer menos combustível – obrigando uma escala para reabastecimento – ou até pedir que alguns passageiros aceitem viajar em outro voo. Não é excesso de cautela. É engenharia aeronáutica.

Las Vegas deu um exemplo recente. Em um dia em que os termômetros chegaram a 47°C, uma companhia aérea precisou oferecer compensação financeira para passageiros que aceitassem desembarcar antes da decolagem. O objetivo era simples: deixar a aeronave leve o suficiente para voar com segurança.

Mas esse cenário tende a deixar de ser exceção. Um estudo conduzido por pesquisadores da Columbia University, em parceria com o Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, projeta que o aumento das temperaturas poderá provocar atrasos significativos tanto na aviação comercial quanto na de cargas. Segundo os pesquisadores, as temperaturas máximas nos aeroportos podem subir entre 7°C e 14°C até 2080. Nas horas mais quentes do dia, entre 10% e 30% dos aviões totalmente carregados poderão precisar reduzir combustível, carga ou passageiros – ou simplesmente esperar o cair da temperatura para decolar.

Mantido o ritmo atual do aquecimento global, as aeronaves poderão ter de reduzir até 4% do peso nos dias mais quentes. Em um avião com cerca de 160 assentos, isso equivale a deixar de embarcar de 12 a 13 passageiros. Aeroportos com pistas curtas, localizados em regiões quentes ou em grandes altitudes serão os mais vulneráveis. E ampliar pistas nem sempre é uma solução viável, especialmente em grandes centros urbanos.

Como observa Ethan Coffel, pesquisador do Observatório Lamont-Doherty da Columbia e principal autor do estudo, “quanto mais cedo o clima for incorporado ao planejamento de médio e longo prazo, mais eficazes serão os esforços de adaptação”.

Há uma ironia inevitável nessa história. A aviação não é apenas vítima das mudanças climáticas; ela também faz parte do problema. Segundo a David Suzuki Foundation, se a aviação fosse um país, estaria entre os dez maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta. O setor responde por cerca de 12% das emissões do transporte e continua crescendo em um ritmo próximo de 5% ao ano, enquanto os ganhos de eficiência das aeronaves avançam apenas entre 1% e 2% anuais.

As projeções são ainda mais preocupantes. Sem uma redução consistente nas emissões, a aviação poderá consumir, sozinha, um quarto de todo o orçamento global de carbono disponível para limitar o aquecimento da Terra a 1,5°C até 2050. Em outras palavras: um setor responsável por conectar o mundo pode acabar comprometendo uma parcela desproporcional da margem que ainda temos para estabilizar o clima.

É uma consequência das mudanças climáticas que dificilmente aparece nas campanhas ambientais. Falamos, corretamente, sobre secas, enchentes, incêndios, ondas de calor e elevação do nível do mar. Mas raramente lembramos que até um dos maiores símbolos da tecnologia humana pode perder eficiência porque o planeta está ficando mais quente.

As mudanças climáticas não afetam apenas o destino das nossas viagens. Estão começando a mudar a própria forma como voamos. É um dos grandes paradoxos do século XXI: usamos a atmosfera para conectar o mundo, mas também a transformamos a ponto de ela própria limitar essa capacidade. No fim, talvez a maior lição venha da própria física: podemos desafiar a gravidade, mas não as leis da natureza.