
O mundo precisa pescar em Barcelos (por Roberto Caminha Filho)
Em Barcelos, é o Curupira que manda na natureza e em tudo que te cercará.

São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão, principalmente, pelo Brasil. O “Soneto do Corifeu” é um atentado ao nosso bom senso, nesse tempo de amor profundo pela nossa terrinha. Eita aula de Simancol nos deram pela televisão os homens escolhidos para zelar ou lezar a nossa Constituição. Juro que aprendi. Aprendi tanto, que vou falar e pedir que venham todos, atrás da beleza e da felicidade.
Quero lançar o anzol em águas limpinhas de ódio e escuras apenas pela produção invejável de ácido húmico feito pela natureza e ensinado desde o primário. Por isso, faço um convite ao Brasil e ao mundo: venham pescar em Barcelos, no Amazonas.
Barcelos está a 405 quilômetros de Manaus, na margem direita do rio Negro. Mas não se deve medir essa viagem apenas em quilômetros. Entre Manaus e Barcelos existe uma travessia para o outro lado da Disneyworld. Em Barcelos, é o Curupira que manda na natureza e em tudo que te cercará.
O grande artista, o Charlton Heston desse espetáculo, é o tucunaré-açu. Ele não pede licença para entrar em cena. Ataca a isca, explode na superfície, se contorce como a BÜNDCHEN nas passarelas e transforma o pescador mais experiente numa criança empolgada e feliz. Pode chegar perto dos 12 quilos, embora, depois da pescaria, os gigantes cheguem a inimagináveis 20 kg e 1,20m de tamanho. Recordes são sempre batidos pelas filmagens perdidas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesEm Barcelos, porém, o peixe não é apenas troféu. Na pesca esportiva responsável, ele é capturado, medido, fotografado e devolvido vivo à água. É o chamado “pesque e solte”. Ninguém quer levar a verdade para casa. Prefere o sonho.
Todos preferem soltar os gigantes. Ao redor dele existe uma cadeia inteira torcendo pelo show. Trabalham: o piloteiro, o guia de pesca, o cozinheiro, o arrumador, o mecânico, o vendedor de gelo, o artesão, o comerciante, a pousada, o barco-hotel e o pequeno fornecedor. O turista chega procurando um peixe e acaba sustentando dezenas de atividades.
O município também abriga boa parte do arquipélago de Mariuá, apresentado pelos órgãos de turismo como o maior arquipélago fluvial do mundo, com aproximadamente 700 ilhas. São lagos, furos, paranás e igarapés que formam um labirinto natural. Para quem chega de fora, tudo parece igual. Para o guia barcelense, cada curva tem nome, memória e segredo. Um tucunaré-açu ou um pirarucu são os troféus do campeão. O pirarucu é a loteria do pescador sortudo.
A temporada de pesca esportiva ocorre principalmente entre setembro e fevereiro, acompanhando a descida das águas. É quando lagos e praias aparecem, concentrando os peixes e facilitando o acesso às áreas de pesca. Mas Barcelos oferece muito mais que a briga com o tucunaré.
Há o amanhecer avermelhado, que o “das Neve” o baterista do Chico Buarque, cantava como Arrebol. O silêncio que parece impossível, as praias de areia branca, o banho no rio Negro e as noites em que o céu mostra mais estrelas do que muito visitante imaginava existir. Há ainda a comida preparada no barco, a conversa com os ribeirinhos e aquele momento em que todos param para ouvir a floresta em escandalosa orgia.
A região de Mariuá é tudo que o nosso mundo procura: lugares autênticos, natureza preservada e experiências que não cabem numa fotografia. Barcelos possui tudo. Precisa, entretanto, melhorar sempre sua divulgação, qualificar permanentemente os serviços, ampliar a conectividade, organizar os acessos e combater qualquer prática predatória. A vantagem é que as pessoas que chegam, já trazem a educação refinada.
Também é necessário garantir que as comunidades locais participem dos benefícios. Preservar não significa fechar a floresta dentro de uma penitenciária de pau e folhas. Significa fazer com que ela produza renda sem ser destruída. Quando o morador e o visitante percebem que o peixe vivo, o lago protegido e a mata em pé colocam comida na mesa, a conservação deixa de ser discurso e vira negócio inteligente.
Barcelos não deve disputar apenas o pescador brasileiro. Deve conversar diretamente com norte-americanos, canadenses, europeus, japoneses e todos os apaixonados pela pesca esportiva. O tucunaré-açu tem força suficiente para ser um grande embaixador do Amazonas.
Portanto, meu convite está feito: guarde o paletó, desligue o debate, prepare a mala e venha conhecer o rio Negro. Em Barcelos, ninguém pergunta em quem você votou. O tucunaré não conhece esquerda nem direita. Ele só quer saber se o pescador tem braço, paciência e humildade. O tucunaré não conta dedos nem cifrões, ele só exige a liberdade. Viva o tucunaré-açu!
O peixe pode até escapar — e frequentemente escapa.
Mas quem conhece Barcelos jamais volta para casa de mãos vazias.
Roberto Caminha Filho, economista, só come pato, cará-açu e jacundá. Voltará dia 2 de outubro para votar na liberdade.

