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Réquiem por Karl Marx (por Felipe Sampaio)

Discutir desigualdade social anda meio fora de moda, apesar de ela não parar de crescer

06/08/2026 10:03
Réquiem por Karl Marx (por Felipe Sampaio)
Montagem colorida de duas cidades de um mesmo estado - Metrópoles

O economista Pedro Noblat acerta na mosca ao comentar o anacronismo que acomete o debate econômico. “A relação capital trabalho sofreu transformações profundas nas últimas décadas, mas os condicionantes da teoria econômica do século XIX seguem equivocadamente fundamentando os analistas em pleno antropoceno digital”. A essa altura, não seria exagero, inclusive, afirmar que discutir desigualdade social anda meio fora de moda, apesar de ela não parar de crescer. O assunto ganhou altitude na esteira do debate mundial pós-guerra sobre a independência das últimas colônias europeias do ‘terceiro mundo’. Ao mesmo tempo, na América Latina, o tema era abafado durante o surto de ditaduras que durou três décadas.  Nos anos 1980, com a redemocratização da maior parte dos governos da região, as desigualdades voltaram ao radar das políticas públicas. No Brasil não foi diferente. Nessa época, pensadores progressistas deram destaque ao agravamento persistente da concentração de riqueza e renda, alavancado pela globalização financeira e produtiva, e turbinado por um consumismo insaciável.

Pior ainda com a escalada caótica das mudanças climáticas. Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social fora debatido desde o final do século XVIII, associado às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Saudades de Marx, Engels e, por que não, de Adam Smith. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini apresentara seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos. As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Mesmo assim, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.

O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, atraindo pensadores como Noam Chomsky, Lula, Boaventura, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer. Outro mundo seria possível. Manifestações como a ‘batalha de Seattle’ davam o tom de um Comércio Justo e uma Economia Solidária. Ninguém esperava que o atendado de 11 de setembro desencadeasse uma espécie de macarthismo (quem não estiver com o capitalismo está contra ele). O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, nos ativistas e organizações que cutucavam a ferida aberta das diferenças socioeconômicas.

Desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos e específicos, enfoques importantes para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, mas é preciso retomar o foco primordial – a questão política central – de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social. A polarização (com tempero de costumes) nas eleições brasileiras de 2026 reedita os extremos Lula x Bolsonaro, varrendo para baixo do tapete as causas e os propósitos que explicam porque tantas pessoas sofrem privações enquanto o andar superior do PIB e da Política detém o maior pedaço do poder e dos ganhos. Fala-se em nova esquerda pós-Lula 2030. Pura falácia. Novos políticos praticando a velha política. O caminho para o futuro é revitalizar a sociedade civil. Reacender a luz e reabrir as janelas do diálogo social. Deixar as convergências e as divergências aflorarem. A política e os políticos são produtos da sociedade.

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Felipe Sampaio: sócio da Terra Consultoria e Inovação; cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi diretor de programa no Ministério do Empreendedorismo; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; chefiou a assessoria do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça.