
O racismo adoece adolescentes
Jovens negros têm mais um obstáculo: construir sua identidade enquanto aprendem a sobreviver ao racismo

“O racismo afeta a gente de um modo que os outros não podem entender. Eles não pensam que uma hora a gente não aguenta mais e se isola, tem problemas psicológicos, que tem gente que já se suicidou justamente por causa do preconceito”. O depoimento é de uma estudante gaúcha, mas ecoa por todo país. Em casa ou na escola, a discriminação racial interfere na construção da identidade e ameaça a saúde mental de adolescentes negros.
Dois estudos ajudam a compreender essa realidade com olhares complementares. O primeiro, “Racismos: Implicações na saúde mental de adolescentes”, foi publicado na Physis: Revista de Saúde Coletiva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e examina as diferentes dimensões do racismo e seus efeitos sobre a saúde mental. O segundo, “Adolescência negra: uma etnografia sobre os efeitos do racismo na saúde mental infantojuvenil”, publicado na Revista Desidades, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), parte de uma pesquisa qualitativa realizada com adolescentes em uma escola pública do Rio Grande do Sul.
O primeiro estudo afirma que é na adolescência que o jovem negro passa a perceber a discriminação de maneira mais nítida. Trata-se de uma fase de “exposição ao estigma da raça e às iniquidades causadas e sentidas literalmente na pele” e a produção de “sentimento de inadequação e de não pertencimento”. Cabelo, pele, nariz passam a ser avaliados segundo os padrões da branquitude. A violência agride o íntimo e a forma que o adolescente enxerga a si mesmo.
O racismo é um “estressor crônico que compromete as defesas emocionais do sujeito”, e está associado a depressão, ansiedade, síndrome do pânico, autodepreciação, isolamento e problemas relacionados ao sono. Uma das participantes gaúchas relatou que chegava a ficar “de cama, com febre e tudo”por causa das dores provocadas pelo racismo. O corpo expressa o que a sociedade não vê como sofrimento.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO preconceito que mata
Segundo os dados apresentados pela pesquisa com estudantes gaúchos. Em 2016, seis em cada dez suicídios de adolescentes e jovens foram de pessoas negras. A pesquisa apresenta depoimentos de comportamento suicida. Uma das estudantes relatou ter tentado suicídio cinco vezes.
Dados do Ministério da Saúde de 2019 indicam que, na faixa etária de 10 a 29 anos, o índice de suicídios é 45% maior entre negros em comparação aos jovens brancos. Uma pesquisa publicada no ano passado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) revela que 82,7% das mortes por suicídio registradas no Nordeste entre 2019 e 2022 ocorreram entre pessoas negras. Os números não permitem reduzir o suicídio apenas ao racismo, já que o fenômeno é complexo e envolve múltiplos fatores. Mas experiências persistentes de racismo participam de processos de sofrimento psicológico.
Há ainda um aspecto menos evidente identificado pela pesquisa: o adolescente negro não precisa ser diretamente vítima de uma agressão para sofrer seus efeitos. As participantes relataram crises de ansiedade e queda no rendimento escolar ao se colocarem no lugar de outras pessoas negras vítimas de racismo. O sofrimento do outro passa a ser experimentado como uma ameaça que também poderia atingi-las.
Quando a família e a escola são becos sem saída
O lar costuma ser imaginado como um refúgio. Entretanto, o estudo gaúcho mostra que famílias inter-raciais também podem reproduzir preconceitos por meio do racismo recreativo. Uma das adolescentes entrevistadas relata que o padrasto fazia comentários preconceituosos que a mãe classificava como brincadeiras.
É a dificuldade enfrentada pelas adolescentes para serem levadas a sério. Uma participante relatou ter tentado conversar com a mãe sobre seu sofrimento, mas ouviu que queria “chamar atenção”, “destruir a família” ou que a “depressão era “frescura”.
Os dois estudos atribuem à escola um papel central. Ela pode reproduzir o racismo por meio da segregação, do isolamento, da invisibilização de conflitos e da ausência de referências capazes de valorizar a identidade negra. Por isso a promoção da saúde mental da população negra depende também de uma educação antirracista.
O papel do sistema de saúde
Nesse cenário, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) é um instrumento para enfrentar as desigualdades raciais. Entretanto, o estudo da UFRJ aponta a falta de preparo de profissionais e a tendência de tornar o racismo “invisível nas práticas de cuidado”. Um jovem que chega a um serviço de saúde apresentando ansiedade, depressão e insônia pode receber um diagnóstico exclusivamente individual, sem que se investigue o contexto social que produz ou agrava seu sofrimento. O tratamento clínico continua sendo necessário, mas os estudos sugerem que ele é insuficiente quando ignora a experiência racial.
A adolescência, fase atribulada de transformações, oferece aos negros brasileiros mais um obstáculo: construir sua identidade enquanto aprende a sobreviver ao racismo.

