
O que a esquerda ainda precisa entender (por Eliane Brum)
Para confrontar a lógica bélica da extrema-direita, é necessário redescobrir o caminho para voltar a sonhar com a vida, e não com consumo

“Você consegue imaginar se o Flávio ganhar e a gente ganhar a Copa do Mundo também?” Sentada em um dos bancos do restaurante do mercado, comendo um prato misto, os olhos da mulher brilhavam enquanto ela mostrava as imagens da visita do candidato presidencial de extrema direita à sua cidade . Duas mulheres pobres, uma de cada lado do balcão, dois olhares esperançosos. “Flávio” é o filho mais velho de Jair Bolsonaro, atualmente preso por tentativa de golpe. Ele também é hoje a principal oposição à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT).
Essa pequena cena resume o dilema de quem sabe que a extrema direita tem uma chance real de voltar ao poder no Brasil, assim como vem ganhando terreno na maioria dos países da América Latina, como evidenciado pelas recentes eleições na Colômbia e no Peru. Uma das perguntas é: se as condições de vida melhoraram durante os governos do PT, por que isso não se traduziu em ampla aprovação ? Ou ainda: por que algumas das pessoas mais pobres se juntam às forças responsáveis por perpetuar a desigualdade?
Lula venceu as eleições prometendo que todo trabalhador teria um carro na garagem e um bife com cerveja para o almoço de domingo. Essa aspiração não mobiliza as pessoas há vários anos, mas Lula e alguns dos candidatos tradicionais de esquerda não perceberam essa mudança . Para aqueles que têm os meios, por mais mínimos que sejam, para se sustentar, a subjetividade pesa mais na hora de votar. O apoio não se baseia mais (apenas) em garantir o básico para a existência ou mesmo bens utilitários como fogão e geladeira, mas sim em vender sonhos, especialmente aqueles relacionados ao consumo e ao retorno a um passado que nunca existiu. Com o capitalismo enraizado dia após dia, muitos dos mais pobres estão menos interessados em uma distribuição de riqueza mais equitativa e muito mais interessados em enriquecer, em se colocar no topo da pirâmide; suas aspirações são mais individuais do que coletivas. Essa é uma das características do século XXI, cujas origens remontam às últimas décadas do século anterior.
Mas os sonhos por si só não bastam; a lealdade só é eficaz e tem uma probabilidade muito maior de se tornar permanente quando acompanhada por um inimigo. A criação e a disseminação da figura do inimigo são centrais para a estratégia da extrema-direita. A partir daí, a lógica é a da guerra, e a história mostra que as democracias tendem a morrer em guerras, mesmo que nominalmente sobrevivam.
Considere o caso de Jair Bolsonaro, pai do atual candidato. Durante sua presidência, o Brasil voltou ao Mapa Mundial da Fome, e ficou demonstrado que seu atraso deliberado na vacinação e sua rejeição a medidas preventivas foram responsáveis por grande parte das mais de 700 mil mortes por COVID-19 no Brasil. Mesmo assim, Lula venceu as eleições de 2022 por uma margem apertada, com menos de 2% de diferença para Bolsonaro. Por quê? Por causa da lógica da guerra.
Se existe um inimigo, o que o governante faz ou deixa de fazer importa muito menos. Todas as desgraças e frustrações já têm um culpado. No Brasil, o culpado é o Partido dos Trabalhadores (PT). Se as promessas e os sonhos não se realizam, a culpa é de Lula, culpa do PT, culpa do PT. Nos Estados Unidos e em alguns países europeus, pode ser o imigrante, o refugiado, e assim por diante. Uma vez estabelecido esse mecanismo, o governante só precisa governar para o seu próprio povo: no caso da extrema-direita, as elites locais — especialmente aquelas ligadas à monocultura —, as grandes corporações transnacionais e o mercado financeiro. Tudo o que piora a vida dos mais pobres é ignorado, já que não é responsabilidade de suas ações no governo, mas sim culpa da existência do inimigo. A solução, mais uma vez, não é a política pública, mas a destruição do inimigo.
Nesse caminho, existem duas forças cruciais. Uma delas são as igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais , que começaram a se expandir nas últimas décadas do século XX e, mais recentemente, se tornaram centros de influência, com a maioria de seus líderes ligados à extrema direita. Elas desempenham um papel fundamental na preparação das mentes para a lógica da guerra bíblica, do bem contra o mal. Algumas dessas igrejas chegam a incorporar a lógica militar em seus programas de treinamento para jovens. O fortalecimento da extrema direita exige a adesão à política pela fé, em vez de fatos, o que torna essa aliança muito valiosa.
A outra é a combinação da internet, da inteligência artificial e dos algoritmos, essenciais para manter a guerra viva e criar uma realidade paralela. Como o Brasil e outros países já governados pela extrema-direita sabem muito bem, essa força governa gerando crises que são então disseminadas e manipuladas pelas redes sociais. Viver sob o jugo da extrema-direita significa acordar (se é que se consegue dormir) todos os dias sobressaltado. Para aqueles que mantêm o pensamento crítico e apreço pelos fatos, o desafio reside em resistir a essa insanidade. Para aqueles que têm um inimigo identificado e declarado, isso apenas reforça sua adesão à lógica da guerra.
A extrema-direita parece ter encontrado a fórmula para tomar o poder. Mas há um problema. Ela está destruindo o planeta, comprometendo as condições necessárias à vida . Em breve, devido ao colapso climático acelerado, a realidade prevalecerá, e com o pior impacto possível: aumento do medo e do desespero. E então será tarde demais. Portanto, o desafio imediato, não apenas para os políticos que se opõem à extrema-direita, mas para todos que resistem à destruição da vida, é encontrar uma maneira de as pessoas começarem a sonhar sonhos diferentes. Para Lula e para o Brasil, a começar pelas eleições deste ano.
(Transcrito do El País)
