O deserto de ideias e o mar de macaúba (por Marcos Magalhães)

O potencial da macaúba, aliado às novas políticas públicas de apoio à descarbonização, atraiu grandes investidores privados

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1 de 1 sustentabilidade - Foto: Andreswd/Getty Images

Em meio ao deserto de ideias que parece tomar conta da pré-campanha eleitoral, é bom prestar atenção a um mar de palmeiras de macaúba que vai ocupar 200 mil hectares em terras degradadas da Bahia e do norte de Minas Gerais. Pode ser um sinal de que a bioeconomia encontra seu caminho na agenda do país.

Assim como a política externa, o meio ambiente nunca encontrou muito espaço nos debates entre candidatos à Presidência da República. No campo externo, isso começa a mudar. Direita e esquerda exibem agendas bem diferentes sobre as relações com os Estados Unidos e a chamada multipolaridade.

O tema ambiental ainda não movimenta as paixões políticas, como a economia e, mais recentemente, temas ligados à moral e aos costumes. Mas, aqui também, há uma distância cada vez maior entre posições conservadoras e progressistas.

Basta lembrar do que foi a (não) política de meio ambiente no governo de Jair Bolsonaro. Os desmatadores da Amazônia se sentiram motivados como nunca para destruir seus nacos da floresta. E os garimpeiros ficaram satisfeitos com a proteção que recebiam para manter suas dragas nos rios da região.

A postura do governo anterior em relação ao tema contribuiu de forma decisiva para que o Brasil se tornasse o pária das relações internacionais – título do qual veio a se orgulhar o primeiro-ministro de Relações Exteriores daquela gestão.

As mudanças começam a aparecer. Em um país tropical do tamanho do Brasil problemas ambientais são difíceis de resolver. Mas já existem resultados à vista. O desmatamento na Mata Atlântica, por exemplo, caiu 28% em 2025 – de 53 mil para 38 mil hectares.

Mas é na união entre meio ambiente e economia que parecem residir algumas das melhores promessas para o país. Usinas solares e eólicas já se espalham pelo país, ajudando a tornar a matriz energética uma das mais limpas do mundo.

Por sua vez, o aumento do preço do petróleo – em consequência da guerra no Irã e do fechamento do estreito de Ormuz – abre espaço para produtos alternativos, quando o planeta também busca reduzir a sua produção de gases do efeito estufa.

Aqui entra em campo a macaúba. É uma palmeira nativa do Brasil, muito comum em áreas de transição entre a Caatinga e a Mata Atlântica. E tem sido apontada como alternativa para ampliação da produção de biocombustíveis, sem competir com a plantação de alimentos.

A partir da macaúba, pode ser produzido, por exemplo, o Combustível Sustentável de Aviação (SAF) – uma das alternativas mais viáveis para descarbonizar o setor aéreo. E talvez um seguro contra grandes oscilações nos preços do querosene que atualmente move os aviões. Além disso, a palmeira produz muito mais óleo por hectare do que a soja.

O potencial dessa planta, aliado às novas políticas públicas de apoio à descarbonização da economia brasileira, atraiu grandes investidores privados.

A Acelen Renováveis, empresa da Mubadala Capital – fundo soberano dos Emirados Árabes – vai investir US$ 1,5 bilhão em sua primeira biorefinaria no Brasil. A planta será capaz de produzir 1 bilhão de litros anuais de SAF e de diesel renovável.

É a primeira parte de um investimento de US$ 3 bilhões, que contará também com a participação de entidades como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Mundial.

As terras degradadas da Bahia e de Minas Gerais poderão se transformar em exemplo do que podem fazer capitais privados e boas políticas públicas.

A produção de biocombustíveis como o SAF tem enorme potencial em áreas atualmente degradadas e poderá trazer ao Brasil bilhões de dólares em investimentos e, mais tarde, outros bilhões em exportações.

O país precisa de mais soluções dessa natureza. E os principais candidatos à Presidência da República fariam muito bem se apresentassem aos eleitores novos caminhos para o crescimento econômico, com respeito ao meio ambiente e maior inclusão social. O debate também ficaria mais rico.

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