Brasil está cada vez mais distante da América Latina (por Juan Arias)

Bolsonaro só está interessado em manter boas relações com o ultradireitista Trump, na esperança de que ele volte ao poder

atualizado

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Alan Santos/PR
Bolsonaro cumprimenta Trump durante jantar
1 de 1 Bolsonaro cumprimenta Trump durante jantar - Foto: Alan Santos/PR

A rejeição do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro à oferta de ajuda do governo argentino ao Brasil devido às graves enchentes que atingiram o estado da Bahia, com dezenas de mortos e mais de meio milhão sem abrigo, em pleno Natal, é mais um sintoma de como o Bolsonaro está distanciando o seu país da América Latina e do mundo em geral. A desculpa dada pelo chefe do Estado é que o governo argentino “é de esquerda”.

Neste momento em que o Brasil parece estar mais centrado nas suas origens coloniais portuguesas, com as classes altas comprando uma segunda casa lá e realizando visitas mais frequentes ao local, o jornalista de 73 anos Carlos Fino, uma das figuras mais proeminentes do jornalismo português, acaba de lançar o livro Portugal Brasil: Raízes do Estranhamento, para mostrar que a chamada Russofobia está crescendo, ao contrário no Brasil, alimentada por uma visão negativa de Portugal presente na imprensa, em livros e até em filmes e novelas. “O Brasil tem vergonha da herança de Portugal” e isso “parte das elites mais iluminadas”.

Se a isso se somar o fato de que Bolsonaro nada fez, pelo contrário, para estreitar os laços do Brasil com o resto da América Latina, nem mesmo com a América do Sul, fica mais evidente o perigo de o país tornar-se cada vez mais isolado do mundo e trancado em si mesmo.

Quando cheguei ao Brasil, há 20 anos, o que mais me impressionou foi ver que, entre as pessoas comuns e os estudantes, pouco ou nada se sabia a respeito do resto do continente americano. E, quando perguntei aos intelectuais como se sentiam no mundo, eles me olharam de forma estranha e responderam: “Brasileiros”. Poucas elites falavam espanhol e, durante dez anos, houve uma batalha no Congresso para tornar o ensino da língua de Cervantes obrigatório nas escolas. Foi inútil. A lei foi esquecida, sob a desculpa de que não havia professores suficientes e que eles ganhavam menos do que em outras partes do mundo.

A isso se somam as pouquíssimas informações que os grandes meios de comunicação, com raras exceções, oferecem sobre a América Latina, o que explica por que os brasileiros se sentem apenas brasileiros, donos de um império próprio, cientes de sua grande riqueza, de ser o quinto maior território do planeta, que detém 16% da água potável do mundo. Isso junto à incrível diversidade da Amazônia, que este governo está fazendo tudo para destruir e dar lugar à pecuária e ao cultivo da soja, sacrificando, se necessário, os povos indígenas que sempre foram os donos desses territórios.

Neste ano, o Brasil vai celebrar os 200 anos da Independência de Portugal e, com este governo encerrado no seu culposo isolamento que empobrece cada vez mais o país, em vez de fazer da data um momento de reflexão para saber de onde veio e aonde quer chegar, vive angustiado com ameaças de falência de sua democracia, acossado por um governo golpista, cujo presidente, em seus três anos de mandato, não visitou a Europa ou a América Latina. Bolsonaro só está interessado em manter boas relações com o ultradireitista americano Trump, na esperança de que ele volte ao poder.

Segundo estudo do Instituto Cervantes, apenas 6,7% conhecem ou estudam espanhol no Brasil e 3%, até mesmo dos professores, não sabem quais países fazem parte da América Latina. Sem embargo, assim como o Prêmio Nobel de Literatura, o português José Saramago ironizou que os espanhóis continuavam a manter Portugal no mapa porque, se o retirassem, sentiriam um “complexo de castração” e o mapa ficaria muito feio, da mesma forma eu poderia falar do Brasil e do resto do continente. Se da América Latina isolássemos o Brasil, que faz fronteira com dez de seus países, o mapa ficaria muito feio dos dois lados.

O Brasil só será a potência geográfica e econômica que representa se enxertado no continente e só poderá ser visto como uma força mundial dentro do continente se as ideias mais abertas de alguns políticos brasileiros iluminados do passado que sonharam com um continente rico e unido forem resgatadas, com uma moeda única, uma espécie de Estados Unidos da América Latina.

Se a desunião dos povos só cria pobreza, violência e deserto, pelo contrário, a união dos povos acaba enriquecendo a todos. A experiência da União Europeia pode ser criticada, mas a verdade é que, enquanto antes da união, o continente sempre viveu em guerras; hoje, desde então, nunca houve um conflito violento entre os seus Estados, e eles têm uma moeda forte.

Bolsonaro chegou ao poder com o vírus da separação, ódio e isolamento do Brasil do resto do mundo. Hoje, a única possibilidade de se voltar a sonhar com um Brasil dentro do mundo, especialmente da América Latina, é que este, que será o segundo centenário de sua independência, seja também o da sua libertação do que já é considerado o “pior governo”, o mais empobrecedor e isolacionista de sua história.

 

(Transcrito do jornal El País)

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