
No limite da paciência (por Mirian Guaraciaba)
Pesquisa Ipsos-Ipec junto a 20 instituições mostra que perdemos algum grau de confiança de 2024 para cá

Não é só o “bullying” de Trump contra o Brasil, supertaxando nossos produtos (lembrando que vendemos menos aos EUA do que compramos) que está dando nos nervos. Os brasileiros andam desconfiados da sombra. Pesquisa Ipsos-Ipec junto a 20 instituições mostra que perdemos algum grau de confiança de 2024 para cá. Divulgado pelo UOL, o levantamento diz que estamos menos confiantes até na família.
A desconfiança que antes se restringia aos políticos e à imprensa, hoje vai do Corpo de Bombeiros, antes “heróis nacionais”, aos compatriotas e vizinhos, à delegacia de polícia, ao banco e aos serviços de saúde. Da rua ao domicilio. Os homens públicos continuam ganhando destaque na questão descrença no Índice de Confiança Social (ICS).
No geral, o ICS caiu 4 pontos. A última vez que registrou essa queda foi em 2018, ano de má lembrança, eleição de Bolsonaro. A preocupação é quando o índice cai abaixo de 50, mais desconfiança do que confiança da população. Até 2024, quatro instituições pesquisadas ultrapassaram essa linha, o presidente da República, sindicatos, Congresso Nacional e partidos políticos. Em 2025, o Poder Judiciário e o governo federal somaram-se aos chamados sub-50. Aí mora o perigo.
Merece um estudo socio-antropológico a diferença de opinião entre as classes A e B e C, e D e E. Entre os menos privilegiados, houve aumento da confiança no seu grupo social, família inclusive.
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Vale registrar que nos últimos 15 anos, a confiança em pessoas da família caiu de 91 para 79 (menos 12 pontos). Nos meios de comunicação, a perda foi ainda maior, de 71 para 54 pontos (menos 17 pontos). Por que será?
Ficou claro – surpreende ninguém – que os menos privilegiados se preocupam mais com o próximo. Pesquisa realizada pelo World Giving Report, da britânica Charities Aid Foundation, anunciada nessa terça, 22, mostra que a população de países de menor renda é mais generosa que a de nações mais ricas. Foram ouvidas 50 mil pessoas de 101 países.
A população de países mais pobres doou a diversas instituições ou causas 1,45% de sua renda, mais que o dobro registrado em nações mais ricas – 0,7%. Na África, o percentual chega a 1,54%, enquanto na Europa é de 0,64%. Nigéria lidera. Enquanto Japão, Alemanha e França estão entre os menos solidários. Brasil ficou em 48ª. posição. Em agosto, saberemos detalhes da bondade dos brasileiros, quanto e para quem.
Ubuntu – Sou porque somos. A filosofia de vida dos africanos é os que leva a serem mais solidários que os europeus, por exemplo. É a interconexão entre as pessoas, laços comunitários e solidariedade.
Na contramão, está Trump. “Faço porque posso”, declarou o que se acha imperador do mundo, ao anunciar a sobretaxa de 50% nas nossas exportações.
Preta, guerreira valente.
Gil, a vida ao inverso.
A morte da cantora e empresária Preta Gil, no ultimo domingo, 20, arrancou na unha mais um pedaço do coração de Gilberto Gil. Poeta de raríssima sensibilidade, Gil perdeu o segundo filho. “O pai nunca se conforma. É a inversão dos fatores”, disse ele sobre a morte do filho Pedro, aos 19 anos, em 1990. À Preta, Gil dedicou todos os momentos possíveis durante o penoso tratamento contra o câncer que a abateu. Gil dividiu com a filha o quarto do hospital. Na cama ao lado da filha, passou o último Reveillon, “Você é meu tempo e meu rei. Você me cura e me emociona, meu pai”, declarava Preta. Quando viveu o que lhe parecia o pior momento, um choque séptico, ainda em 2023, Preta ouviu do pai, extremamente generoso, profundamente sofrido: “se estiver muito pesado, minha filha, se deixe ir”. Preta resistia. Em abril, dividiram o palco, em turnê de Gil, para uma única música, Drão, feita em homenagem a mãe de Preta. Gil chorou. Preta não deixou-se ir. Queria viver. Lutou como uma fera contra a doença. Com recaídas, dores, coragem e transparência. Como raros. Apelou a um último recurso nos EUA, tratamento experimental. Morreu cercada de amor, contaram amigos que estavam com ela na noite de domingo.
Mirian Guaraciaba é jornalista

