
Nem George Washington escapou de Trump (por Felipe Sampaio)
Patrocinando o primeiro caso de ‘morte póstuma’ da história, Donald Trump resolveu matar novamente o primeiro presidente estadunidense

Steven Levitsky lançou seu provocativo “Como as Democracias Morrem” em 2018, deixando os mais atentos de cabelos em pé. Cinco anos depois, para alívio da torcida, escreveu “Como Salvar a Democracia”. Mas, do jeito que a banda toca hoje em dia no Salão Oval, não será surpresa se o autor publicar em breve “Como Ressuscitar a Democracia”.
Acontece que os Estados Unidos têm uma tradição esquisita de assassinar seus presidentes durante o mandato, sem falar de um punhado de outros que escaparam por pouco de atentados mal sucedidos. A novidade é que dessa vez não estão tentando dar fim ao atual presidente, mas sim a um presidente que já morreu! Patrocinando o primeiro caso de ‘morte póstuma’ da história, Donald Trump resolveu matar novamente o primeiro presidente estadunidense – George Washington – mais de dois séculos após ele ter morrido pela primeira vez.
No entanto, George Washington não foi apenas o primeiro presidente dos EUA. Devido ao seu papel determinante para a inauguração do Estado Democrático neste planeta, ficou conhecido como o Pai da República, Pai da Democracia, Pai da Pátria e como Fundador dos Estados Unidos da América. Ao que parece, é justamente toda essa herança que Trump tem dado demonstrações de desconhecer, desvalorizar e querer desmantelar, não apenas na terra do Tio Sam, mas também mundo afora.
O estravagante histórico americano de se livrar de seus presidentes começou com Abraham Lincoln, abatido a tiros por um ator de teatro simpatizante do sistema escravista rural que Lincoln abolira no melhor estilo do nosso general Figueiredo (quem não quis democracia, ele prendeu e arrebentou). O segundo assassinato de um presidente ianque foi o de James Garfield, alvejado por um indivíduo com diagnóstico de problemas psiquiátricos. A terceira vítima, ainda no mesmo século XIX, foi William Mckinley, fuzilado por um militante anarquista. Jonh Kennedy foi o quarto inquilino da Casa Branca que morreu de morte matada em pleno exercício da presidência, em circunstâncias mal explicadas ainda hoje. Pouco tempo depois seu irmão Bob Kennedy – então candidato a presidente – também seria morto antes mesmo de ser eleito.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesContudo, até hoje o mais curioso desses atentados da América havia sido aquele cometido contra o presidente Ronald Reagan. O atirador era um fã da atriz Jodie Foster que, numa estranha prova de seu amor pela bela musa de Hollywood, mandou bala em Reagan, que também foi ator de faroestes. Foster nem sequer sabia quem era o tal apaixonado. Cabe lembrar que, nas últimas eleições, o próprio Trump levou um tiro na orelha durante um comício.
Agora, o finado George Washington corre o risco de sofrer uma execução ideológica por parte de Trump, que trabalha para enterrar na mesma sepultura todo aquele pacote de legados democráticos (pátria, república, constituição, liberdade, igualdade, fraternidade…). Portador de algum grau de narcisismo caótico, agravado por uma espécie de compulsão anarcocapitalista libertina, Trump troca a inspiradora história americana por qualquer centavo de dólar. Comporta-se como um Nero da era digital, que joga golfe enquanto toca fogo no que resta do futuro.
No meio de todo esse tiroteio aleatório que o compositor pernambucano Oto chamaria de “Ciranda de Maluco”, a direita europeia de Marine Le Pen tenta escapar de balas perdidas, jurando de pés juntos que não é farinha do mesmo saco que Trump e seus franqueados Bolsonaro e Milei. Um roteiro digno de L’armata Brancaleone.
Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; atuou em grandes empresas e no terceiro setor; dirigiu o sistema de dados e estatísticas do Ministério da Justiça; ex-diretor do Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife.

