
Longe da disputa entre grandes potências (por Marcos Magalhães)
Ao abrir espaço à cooperação com os EUA e a China, o governo emitiu um sinal de que não pretende escolher um lado nessa disputa de poder

As eleições brasileiras, dentro de um mês, começam a entrar no radar da imprensa internacional. E o que os sensores estrangeiros procuram identificar é um outro tipo de resultado: quem sairia vitorioso nas urnas, os Estados Unidos ou a China?
Em um mundo marcado pela rivalidade cada vez maior entre as duas grandes potências, a escolha brasileira soa como mais um passo na disputa por influência global.
A América do Sul já está tomada por governos de direita – ou mesmo de extrema-direita. Com duas exceções: Uruguai e Brasil. O governo progressista do vizinho ao Sul está apenas começando. O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva está próximo do fim.
Segundo a ótica internacional, uma possível vitória de Flávio Bolsonaro consolidaria a guinada sul-americana à direita. E o presidente americano Donald Trump consolidaria a sua influência naquilo que a direita estadunidense gosta de chamar de quintal dos Estados Unidos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSe Lula vence, ao contrário, os analistas mais preocupados com uma guerra por influência acreditam que o Brasil não apenas se afastaria da órbita americana, como também passaria a se consolidar como grande aliado da China na América do Sul.
Segundo a ótica realista das relações internacionais, o que está em jogo nas eleições de outubro não é tanto o futuro do Brasil, mas, principalmente, o desdobrar de uma disputa cada vez mais acirrada entre duas grandes potências.
Escapam dessa visão temas como a manutenção da democracia brasileira, a redução da pobreza e das desigualdades e a busca por um modelo de desenvolvimento compatível com a preservação do meio ambiente. Nenhum desses temas tem papel relevante em uma visão de mundo mais preocupada com a disputa entre grandes potências.
Se Flávio Bolsonaro sai vitorioso nas urnas, apontam analistas internacionais, o Brasil entra diretamente na órbita dos Estados Unidos. Nesse ponto estão corretos, como admite o próprio filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Se Lula ganha, prosseguem, o Brasil permaneceria em sua rota de oposição a Trump e aproximação com a China. Ou seja, seria uma vitória de Pequim. Mesmo?
Um episódio recente coloca em questão essa visão simplista. O governo brasileiro começou a colocar em marcha seu projeto de investimento em inteligência artificial. Havia duas questões a resolver: a localização de um novo supercomputador e a origem do equipamento.
No âmbito regional, a disputa se desenhava entre o Sudeste e o Nordeste. No internacional, a dúvida estava na busca do fornecedor: o novo supercomputador viria dos Estados Unidos ou da China?
A solução foi inovadora e equilibrada. Em vez de apenas um supercomputador, o governo optou por comprar dois. Um deles, de produção americana, ficará no Rio Grande do Norte. Outro, em projeto conjunto com a China, será instalado no Rio de Janeiro.
O que eles têm em comum? Ambos estarão ligados a um amplo projeto brasileiro de inteligência artificial, que abrirá espaço para pesquisas acadêmicas, produção de novas tecnologias e criação de um banco nacional de dados, isento de influências estrangeiras.
Ao abrir espaço para a cooperação com os Estados Unidos e a China, o governo brasileiro emitiu um sinal de que não pretende escolher um lado nessa disputa de poder. E de que existe espaço para boas relações com as duas grandes potências.
E assim deve ser. Para os brasileiros, o que importa é a busca de um projeto próprio de desenvolvimento, que permita pouco a pouco oferecer melhores condições de vida para a população.
Tomar um lado na disputa entre duas grandes potências não nos levará a lugar nenhum. O Brasil é grande demais para isso.

