LGBTs de direita (por Giovanna Tavares)
Essa contradição nos obriga a refletir. O que leva alguém a apoiar políticas que limitam a própria existência?
atualizado
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Ser LGBTQIA+ não significa que todos temos de pensar da mesma forma ou seguir a mesma ideologia política. O mundo é diverso, e dentro da nossa comunidade também existem pessoas que se identificam com a direita, seja por valores ligados à família, pátria, ordem e disciplina, seja por questões econômicas, como a defesa de menos impostos e maior incentivo ao setor privado. Até aí, nada de errado: identidade de gênero ou orientação sexual não deveriam definir, por si só, a ideologia de ninguém.
O simples fato de existirem LGBTs de direita já mostra que vivemos em um mundo plural. Mas precisamos olhar para essa realidade com atenção. E aqui está o ponto delicado — para não dizer contraditório: muitas vezes, a narrativa política da direita entra em choque direto com as lutas fundamentais da própria comunidade LGBT.
Como conciliar a defesa de partidos e movimentos que, historicamente, se opuseram à igualdade no casamento, à proteção contra discriminação, ao acesso à saúde e educação, ou mesmo ao direito básico de existir de uma pessoa trans? Como apoiar um grupo que, em tantos momentos, nega a nossa dignidade?
O que vemos é que, em muitos casos, essas pessoas não lutam pela comunidade. Algumas chegam a adotar uma postura dura, fria e até superior, como se não fizessem parte da mesma luta que garantiu cada pequena conquista que hoje todos usufruem. Quando o casamento igualitário foi aprovado, por exemplo, até aqueles que criticam os movimentos LGBT se beneficiaram do direito de casar. Mas é impossível negar: se dependesse da direita, talvez nem o mínimo tivéssemos conquistado.
Essa contradição nos obriga a refletir. O que leva alguém a apoiar políticas que limitam a própria existência? Seriam os oprimidos tentando se tornar opressores? Seria uma tentativa desesperada de ser aceito por uma sociedade hipócrita, que tolera desde que você se encaixe em suas regras?
Não há problema algum em ser de direita ou de esquerda. O problema surge quando você se coloca ao lado de uma ideologia ou partido que invalida sua própria vida, sua história e sua dignidade. Isso exige coragem para repensar quem somos, o que queremos e a quem realmente servimos.
Porque, no fim, a luta da comunidade LGBT sempre foi pela existência. E se nós mesmos não a defendermos, quem o fará?
(Transcrito do PÚBLICO-Brasil)


