História de Amor e Saudade (por José Sarney)

Minha mãe, se estivesse viva hoje, dia do seu aniversário, 4 de julho de 2025, faria 114 anos.

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José Sarney
1 de 1 José Sarney - Foto: Estadão Conteúdo/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

Este espaço é dos leitores. Não deve expressar sentimentos que sejam pessoais, por mais justificáveis que sejam. Mas o meu tema de hoje, embora pessoal, é daqueles que merecem uma meditação universal: a relação entre pais e filhos, os valores da família, o amor e a morte.

Minha mãe, se estivesse viva hoje, dia do seu aniversário, 4 de julho de 2025, faria 114 anos. Por ela vou orar em missa que mandei celebrar em sua memória na Rede Vida e na igreja que ela pediu para construir, com a invocação de Nossa Senhora, hoje Igreja de São Luís Rei de França, que inspirou o nome da capital do Maranhão.

A visibilidade pública cria um estereótipo do político como sendo uma alma de gelo, com a vaidade de parecer forte e invulnerável, de ser um fingidor da “dor que deveras sente”. Felizmente, tenho todos os defeitos das mais frágeis e indefesas criaturas, as fraquezas do amar e do sentir.

Minha relação com minha mãe sempre foi muito forte. Era devoção e segurança. Meu pai morreu cedo, mas recebi a graça de ver minha mãe chegar aos 92 anos. Mas não há tempo nem idade para aceitar a morte. Evitava essa ideia. Hoje sinto como é difícil o meu mundo sem a sua presença. Os vínculos com meus antepassados acabaram-se com minha mãe. Todos estão mortos. Meus ombros pesam nas incertezas das raízes que agora sou e que amanhã também morrerão para crescerem outras, que um dia também se renovarão no mistério da vida.

Tenho outras confissões. Junto à minha mãe, não conseguia envelhecer. Julgava-me sempre o menino do seu carinho, um velho de 74 anos no tempo de filho, sem idade. É esse mundo que acabou.

Fui testemunha da sua vida e do seu exemplo. Menina, aos 14 anos, num desses dramas que separam as famílias, com seu forte caráter, ficou ao lado do pai, meu avô, e com ele saiu de Correntes, em Pernambuco, fugindo das secas em busca dos vales úmidos do Maranhão. Fugia da seca e do destino. De saúde frágil, viveu a pobreza mais dura. Nunca ninguém ouviu de seus lábios um lamento, nunca alterou a voz, nunca discutiu com ninguém. Ensinava pelo exemplo. Nas crises falava pelo silêncio.

Sei que existe fé porque vi minha mãe professar a fé com a força de todas as crenças. Sei o que é ser cristão porque ela era cristã: amava a todos, oferecia a outra face do rosto, sabia o que era o próximo no exercício da oculta caridade. Sei o que é a força da oração porque vi minha mãe orar a vida inteira e tudo conseguir orando, dias e noites agarrada às contas do terço e com os olhos “nos olhos do crucificado”.

Sua casa sempre foi cheia dos filhos, netos, bisnetos, tataranetos e dos filhos que adotou e criou e de todos que dela recebiam carinho e abrigo. Nunca deixou que o poder entrasse em sua casa, nunca lhe ofereceu cadeira larga na varanda. Ninguém conhece um gesto seu de interferência, uma atitude de ressentimento ou de censura. Mas não faltou nunca a predicação dos valores morais, da ponderação, do equilíbrio, do respeito às pessoas. Era pobre porque nunca quis ter nada. Sua casa era um exemplo de simplicidade e despojamento. As luzes que a enfeitavam eram suas velas e candeias.

Era uma mulher forte-frágil. Deus deu-lhe a graça de chegar ao fim da vida sem o menor sinal de senilidade. Sua cabeça era límpida e clara. Escreveu carta aos filhos. Era uma canção de gratidão pela vida, de agradecimento a Deus. Seu pedido: que fosse enterrada no mais simples caixão, com sandálias e num pobre vestido branco, que, às escondidas, com a cumplicidade de uma filha, mandara fazer. Que os filhos continuassem a manter os pobres que ajudava. Seu pedido será sempre atendido. Ela está no Céu. Para mim é Santa de Altar.

Ela bem merecia aquilo que Bandeira escreveu em Irene no Céu: “Pode entrar, você não precisa pedir licença”.

Esta é uma história de amor de um menino de 95 anos que não tem mais seu tesouro, e uma saudade que não passa permanece em seu coração, em sua alma, em sua vida.

 

José Sarney, ex-presidente

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