
Guerras tecnológicas e valor do dinheiro (Antônio Carlos de Medeiros)
O avanço tecnológico dos complexos industriais militares tornam as guerras escolhas mais estúpidas e prolongadas

Ampliam as incertezas no processo de desenvolvimento dos países e afetam as operações dos bancos centrais pelo mundo afora. Ambiente de instabilidade, desaceleração do crescimento, aumento das dívidas públicas e cenários turvos.
Em sua boa edição de 30 de maio deste ano, a prestigiosa revista The Economist tratou dos dois temas, que acabam tendo interligação. Guerras e política monetária. Guerra e valor do dinheiro.
Primeiro, a natureza e os efeitos das guerras tecnológicas na geopolítica dos novos imperadores – Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin.
Segundo, as guerras prolongadas causam instabilidade econômica e afetam as operações da política monetária nos bancos centrais.
Em Editorial, a revista mostra que a guerra da invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra de Trump contra o Irã acabaram virando reveses e equívocos para Putin e Trump. Nos Estados Unidos a desaprovação de Trump é da ordem de 59%, segundo a Economist. Foram guerras de escolha que resultaram na exposição de “duas novas verdades no campo de batalha”.
Primeiro, a tecnologia tornou muito mais difícil o avanço de qualquer exército em terra, como eram nas guerras tradicionais. Segundo, e mais importante, “tornou mais fácil para as potências mais fracas, quando atacadas pelas mais fortes, causarem devastação”.
É o novo perfil tecnológico das guerras na última década. Sensores e satélites identificam e expõem os soldados. Drones pequenos e baratos podem matá-los. Na linha de frente da Ucrânia, por exemplo, soldados atuam com robôs terrestres para evacuar feridos e entregar suprimentos.
O Editorial mostra que a tecnologia se espalha rapidamente. Drones e mísseis são mais precisos. “Se a China tentasse invadir Taiwan, suas forças de desembarque seriam recebidas por uma avalanche de drones. A superioridade aérea agora é mais difícil de alcançar e oferece menos proteção aos soldados do que antes, graças à nova camada de espaço aéreo saturada de drones”.
Assim, a guerra de manobra – atacar os pontos fracos do inimigo com choques e movimentos rápidos – “já não é mais possível”. A guerra da Ucrânia mostra que “os exércitos terão de treinar e equipar-se adequadamente para chegar, desestabilizar e escapar das câmeras, sensores e munições acima e ao seu redor”.
Os exércitos ocidentais, diz a revista, estão atrasados neste aspecto. Vem daí o prolongamento das guerras.
Outra mudança é que a nova tecnologia mudou a forma de direcionar alvos. “Softwares com inteligência artificial permitem que os exércitos encontrem e ataquem alvos em uma velocidade e escala antes inimagináveis. O ataque relâmpago americano ao Irã oferece uma amostra disso”. Mas o Irã não cedeu e continuou lançando drones e mísseis todos os dias.
Agora, ao contrário das guerras anteriores, o lado mais fraco também pode arcar com armamentos guiados e precisão. Mudou tudo.
A guerra está se tornando mais difícil e cara. Mas a guerra de dissuasão perdeu força. Assim, a tendência ainda é surgir novos conflitos nos próximos anos. Embora a guerra seja mais difícil e cara. Os estados mais fracos agora resistem mais e desgastam os mais fortes. Paradoxo: “é mais fácil começar guerras do que terminá-las”.
Tudo somado, conclui o editorial, à medida em que a tecnologia militar se torna mais sofisticada, “as guerras de escolha parecem cada vez mais insensatas”. Mesmo assim devem continuar. A geopolítica dos imperadores.
Este ambiente de incertezas coloca novos desafios para os bancos centrais.
Na mesma edição da Economist, François Villeroy de Galhau, que dirigiu o Banco da França desde 2015 até agora em junho, publicou artigo relevante listando as lições obtidas a partir de uma “década fragmentada”, desde 2015.
Em cenário complexo, sombrio e caótico, segundo ele, é possível extrair quatro lições
Primeiro, que a política monetária funcionou, “embora não exatamente como esperada”. Para ele, “a inflação foi reduzida sem a recessão que muitos temiam – uma aterrissagem suave, em qualquer definição”. A política monetária após a crise de 2007-2009 ampliou o arsenal de ferramentas não convencionais. Foco na estabilidade dos preços.
A segunda lição, é a importância de preservar a independência dos bancos centrais, um pré-requisito para a eficácia. “Atacar a independência dos bancos centrais enquanto se alega necessário combater a inflação é esquizofrênico”.
A terceira lição, se refere à construção de um “pluralismo pragmático”. Formas de cooperação. Países trabalhando juntos em questões concretas e especificas com interesses convergentes. Compartilhamento de melhores práticas. Por exemplo, ”regras comuns para bancos (Basileia III). E temas como a inteligência artificial”.
Por último, a lição final para ele é o exemplo da consolidação do euro na Europa. Utilizar esta experiência de cooperação e integração para melhorar a mentalidade de governança.
“Mudar a mentalidade significa conciliar o modelo social de John Maynard Keynes com a destruição criativa de Joseph Schumpeter. Isso não é um paradoxo: Suécia, Dinamarca e Holanda estão entre os países mais inovadores da Europa, ao mesmo tempo que apresentam alguns dos níveis mais baixos de desigualdade”.
Pragmatismo e mentalidade inovadora, para além dos dogmas, na política monetária contemporânea.
Para contornar as incertezas de um mundo em frequentes guerras estúpidas em ambiente de geopolítica de novos imperadores – em pleno Século XXI. A hegemonia americana perdeu tração.
Há poucos dias, o Conselho de Estado da China divulgou, na quarta-feira o livro branco intitulado “Construção de um Sistema de Governança Global Mais Justo e Razoável: Conceitos, Iniciativas e Ações da China”. Apresenta iniciativas para “construir um sistema de governança global mais justo e equitativo”.
Bom debate. Tentativa de reconstrução do sistema de governança global. Sugere, por exemplo, a retomada do multilateralismo. Será possível?
Martin Wolf enfatiza que o papel dos EUA como “hegemon estabilizador” desapareceu. “As mudanças que vêm transformando ordem em desordem e vitória em derrota são simultaneamente econômicas, tecnológicas e políticas”. Com “a ascensão da China, a revolução digital e o triunfo do populismo de direita”, diz ele.
E vem a dúvida socrática, para concluir: “há novamente a questão de se o despotismo arbitrário se tornará a norma global ou se a liberdade e a democracia ainda prosperarão”.
*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.
