
Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)
Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho

Adiro ! ( Diário de Notícias, 12/11/1950)
Todos nós temos os nossos heróis maiores, e os outros, os menores, uma galeria assim mais íntima, dos que não foram santos nem poetas, libertadores de escravos nem construtores de nações, nem fizeram arte que espante. Deles, desses heróis menores, a gente guarda apenas um gesto, um episódio, uma anedota, mas basta. Estou escrevendo isto, estou me lembrando de Rodolfo Lopes da Cruz, 1º tenente da Armada nacional, era assim que se assinava. Não sei mais nada dele, não sei nem quero saber, senão que aí por volta de 1892, nos tempos de Floriano, o país estava naquela agonia, os jornais cheios de explicações de solidariedade com o governo — ontem estava contra, pensei melhor, fiquei a favor — o tenente Rodolfo Lopes da Cruz dirigiu-se à Nação brasileira.
Ele assinara o manifesto da Armada, sobre a revolução de 2 de novembro. Mas logo se desiludiu. Vai daí, declarou à Nação: “Declaro, pois, que não me acho mais de acordo com tal manifesto e que o meu procedimento de ora avante será de simples adesista a tudo que se fizer, embora no espaço de vinte e quatro horas se resolvam coisas completamente opostas.” E esclarecia: “Procedendo desta forma visarei somente aos meus interesses particulares.” Era ainda mais preciso: “Não obstante, enquanto estiver na Armada, obedecerei a meus superiores hierárquicos, não dentro dos limites da lei, porque não a conheço; pois sei que hoje só existe traição ou adesão, e prefiro a segunda. Adiro!”
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Ó primeiro tenente Rodolfo Lopes da Cruz, de que mais preciso para te querer bem, para te seguir como um discípulo, para me deitar a seus pés como um escravo? Que mais sincero grito d’alma ouviu este país, em cinco séculos? Adiro! Adiro de público, com todas as letras, com ponto de exclamação, adiro para quem quiser saber, adiro para quem quiser meter o pau, adiro na frente de todos os que não aderem, e olho com desprezo para eles, adiro na face de todos os que aderiram e não tiveram coragem de confessá-lo. Adiro em horas, adiro em minutos, adiro em segundos. Não importa que entre o vermelho e o negro a duração seja de vinte e quatro horas, ontem era democracia sem Getúlio, agora é constituinte com Vargas, isto é, democracia com Getúlio. Adiro!
Vou ser milionário, terei uma guarda pessoal disposta a surrar quem se aproxime, provadores de comida, porque desconfiarei do gênero humano, o capanga de confiança para me carregar nos braços, bater em quem chegar perto, pentear os meus cabelos, me abanar com leque de sândalo. Rompe-Nuvens. Quebra-Ferro. Nega-Fulô. Aí todos me acharam bem inocente, os meus adversários serão desprezíveis símbolos das classes cultas. Falarei com desprezo das elites e dos juristas, serei o amigo predileto do povo…
Creio que depois do 1º tenente Rodolfo Lopes da Cruz sou o primeiro a falar com esta franqueza. Adiro!
De amanhã em diante não haverá marmelada que me passe ao alcance que não me afunde gostoso nela. Não haverá governo que não esteja junto dele. Cansei de ser oposição. Não serei o primeiro a quem isso acontece, mas serei o segundo a proclamá-lo na cara do mundo. Adiro, aderirei, aderiremos.
É pena não poder conjugar o verbo no passado. Mas tenho também a vantagem de não precisar conjugá-lo no condicional. Para mim, não haverá condições para aderir. Nem que não deixem: adiro da mesma maneira.
Talvez o leitor não me encontre o nome nos primeiros escândalos anunciados (primeiros e de certo os últimos, virá aí o DIP para acabar com esta história de denunciar escândalos; no governo de nosso pai Getúlio não haverá escândalos, égua não bebe leite nem Quitandinha chupa dinheiro de pai de família). Sim, talvez no começo meu nome não figure nas listas de importadores de automóveis. Estarei como meu padrinho Manuel Bandeira nas notícias da votação no Distrito Federal: figura, mas não nominalmente. Figura todo dia na rubrica: “e outros menos votados”. Sim, no começo não terei o nome no jornal ao se narrarem os grandes negócios e as belas festas extrapartidárias, com pretexto de quadros célebres, mas é natural que assim seja: sou apenas um principiante desajeitado, sem o menor treino. Mas garanto que tenho vocação. Vou me aplicar dia e noite, sonharei golpes nunca entrevistos, direi mesmo nunca entressonhados. E breve estarei estabelecido, e sólido. E se um dia ainda houver eleições (seja embora daqui a vinte anos, ou mesmo trinta), já serei bastante conhecido. Terei amantes, terei cavalos de corrida, jogarei na bolsa em Nova York, multiplicarei arroz e café que nunca possui por dinheiro que nunca tive. Então, poderei ser candidato e estarei eleito.
Reflito que falei em eleições como se ainda as pudesse ver. Não, não rasguei o meu título. Espero que também Vargas um dia tenha o seu fim natural, que é o destino de todos. E aí compareceremos às urnas, todo um grande povo, e farei discursos demonstrando que Lutero Vargas é o pai do povo, que deu ao povo pernas de pau e coletes de gesso, e sabe prometer mundos sem fundos, dar gargalhadas, tirar retratos. E então “o filho do homem”, o “getulinho”, será de novo “o baixinho”, “o pequenininho”, “o barrigudinho”, e teremos sorte de levá-lo ao poder, porque, sendo mais moço, durará muito mais. Daqui a trinta anos, já terei, feitos, sessenta e cinco, mas pretendo escrever ainda (mesmo depois de um curto repouso involuntário) e serão artigos inflamados sobre Lutero. Apenas, previno logo: se ele perder, adiro ao vitorioso. É a minha lei, não tenciono largá-la.
É certo que um grande escritor, que admiro muito, o sr. Pedro Dantas, me interrompia outro dia este idílio — eleições daqui a trinta anos para eleger o substituto de Getúlio — dando-me a ler um recorte de jornal: um sábio ( eu quase escrevia russo, em geral são sábios russos os que descobrem essas coisas de que nunca mais se ouve falar) descobrira um soro que eleva a média da vida a vinte e dois mil anos. Mas eu respondo que o soro nasce para todos, e também nós podemos tomá-lo, e daqui a vinte e um mil e novecentos e trinta anos lá estaremos, nas urnas, a votar em Lutero para substituir Getúlio.
Voltando, porém, a coisas mais imediatas e sensatas — bom senso é tudo, bom senso e moral é que nos mandam aderir, como bem ponderava o camaleão conversando com o tiú — espero que não imiteis o meu exemplo. A concorrência já é grande.
Ou então, pensando melhor, vinde todos. Vamos constituir um clube. Poderá ter a capa de um clube de golfe (o que será um golpe de inteligência, porque o doutor Getúlio gosta muito desse esporte tão popular e brasileiro, o golfe). Mas será um clube de sujeitos até agora indenes, aderindo, aderindo, aderindo sempre. Faremos diariamente autocrítica que será um gosto. Aprenderemos que tudo o que aprendemos estava errado. Para ter autoridade de falar em respeito à Constituição, ensaiaremos rasgá-la diariamente, em exemplares especiais, com assinaturas em veludo negro. E, sobretudo, treinaremos de manhã à noite para as leves incorporações, os hábeis câmbios, as liberações, exportações, importações, emissões, inflações, não humildes cavações, nomeações, promoções, excursões, mas geniais intervenções, encampações, situações, eleições…
Desculpem, foi a rima. Eleições, não! Nunca!
Odylo Costa, filho
