
Dia da Marmota (por Tânia Fusco)
Desde 2019, o 7 de setembro é nosso Dia da Marmota. Estamos em vésperas do quarto ano ameaçados por “mobilização de peso” dos minions

Os mais velhos devem ter lembrança do filme Feitiço do Tempo (Groundhog Day). Comédia romântica do cinema americano, de 1993, conta a história de Phil, arrogante jornalista/homem-do-tempo de uma emissora de TV que, sob protestos, vai cobrir o Dia da Marmota numa cidadezinha de interior e fica preso no tempo – condenado a reviver indefinidamente o mesmo dia até que harmonizasse seu viver.
Dia da Marmota virou sinônimo de coisa repetitiva.
Desde 2019, o 7 de setembro é nosso Dia da Marmota. Estamos em vésperas do quarto ano ameaçados por “mobilização de peso” dos minions pelas ruas do Brasil. Convocados, claro, pelo atual presidente da República.
E dá-lhe semanas de mais tensão porque, de novo, o capitão Jair ameaça golpe de Estado pra manter o traseiro grudado na cadeira de comandante-em-chefe da Nação.
Nosso Dia da Marmota não muda foco nem estilo. De novo, o maior alvo de criticas e desaforos é o STF que, em mínima variação, ganhou agora alcunha de “poucos surdos da capa preta”.
No mundo paralelo e repetitivo do Jair os da capa e o resto do mundo têm que entender “a voz do povo”.
Povo? Conjunto de múltiplos seres?
Nas pesquisas de intenções de voto, parece, o povo do Jair anda mais pro afônico. Talvez padecendo de efeitos colaterais da Covid. Não consegue passar dos 30% de fieis.
Jair, sempre doidaço, vê neles turba que, a cada 7 de setembro, encare sol e guerra, pra dar-lhe, na marra, coroa e trono permanentes. O próximo dia 7, dia da pátria, será a última chance de Jair realizar seu desejo nada oculto.
Nos três anos anteriores, o leão miou. Era só mais uma marmotagem do Jair, o parvo – galo cego, dando pernadas a esmo, que se vê gigante nas atitudes, nas razões e em claque.
Não é que a claque minion seja nanica. 30% não é pouca coisa. A maioria desses continuará defendendo e achando o Jair bacana pra continuar na cadeira de PR. Nem todos, no entanto e graças a Deus, estão no barco da rebelião armada. Ainda.
Cria cuervos y te sacarán los ojos.
A eleição de 2018, precedida de golpe e longo processo de demonização de políticos, da política e do PT, deu visibilidade aos cuervos brasileiros. Deu-lhes chefe, voz e espaço para exposição de seu reacionarismo, seus preconceitos, sua violência.
Faltava batizar e criar apelidos.
Hoje, a parte armada dos cuervos, acuada com os índices das pesquisas de intenções de voto, sonha botar fogo no palheiro. Ameaçam hoje, ameaçarão no futuro.
Na eleição de 2018, 57.797.847 votos deram vitória a Jair. Assim, 55,13% do eleitorado brasileiro deu consentimento à barbárie – exposta no pensar, falar e agir do Jair. 25% desses, os não bolsonaristas, hoje cobram autocrítica do PT.
Só do PT, cara pálida?
Eleito, Jair depenou avanços sociais, desfez todo controle de gastos públicos, banalizou todo tipo de violência, mandou pro lixo a compostura e o discernimento obrigatórios aos chefes de Estado. Esconde corrupção com sigilos de 100 anos.
Até 2018, Jair e os seus compunham aquele espécie de primo desagradável do amigo, dono da festa. Eram os desmancha roda. Os que, por educação, ouvíamos meio minuto e saíamos de fininho, tão banal e rasa era a conversa.
Pois então. Juntos e somando recalques, o primo desagradável do dono da festa, o mala, o bobão, o tiozão inconveniente dos churrascos, o vizinho violento e o aproveitador de ocasião formaram uma seita – o bolsonarismo. Era o batismo.
Uma parte tem moeda – nem sempre legal ou minimamente legalizada. Não há roupa de grife, mansão ou carrão que faça deles algo mais do que ouro de tolo – ferozes ou não.
À parte sem-moeda da seita cabe o destino vida de gado – devidamente pastoreados na boiada, sem dispersão. Ao som do berrante, avançam ou recuam.
Banda rica e banda pobre, agora apelidados de bolsominions, sabem odiar, podem matar.
Assim, os dias da marmota ainda assustam.
Por longo tempo vamos conviver com isso, com eles, cuja existência foi promovida e consentida. Também com o receio de até onde podem chegar.
Jair e os seus, mesmo fora do governo, serão procurados pelas mídias, a cada acontecimento, para comentários, opiniões e renovação de ameaças.
Nas ruas, abusados, vão infernizar um novo governo – qualquer que seja,
Se reeleitos – Deus nos livre! -, seguirão barbarizando, entocados no Planalto.
Perdendo ou ganhando, fincaram sua bandeira.
Cria cuervos y te sacarán los ojos, ensina proverbio espanhol. Os nossos estão criados. Melhor seguir defendendo os olhos.
Feitiço do Tempo
Dirigido por Harold Ronis, o filme, disponível na Neteflix, tem como mocinha Andie MacDowell. O ator Bill Murray interpreta Phil Connors, o jornalista-mala de Pittsburgh. O que se acha.
Na história, o plano de Phil seria, ao fim da festa na provinciana Punxsutawney, voltar a Pittsburgh o mais rápido possível. Mas uma nevasca fecha rodovias e espaço aéreo, entocando o galã antipático.
Ao acordar no dia seguinte, Phill descobre que não é o dia seguinte. De novo, é ontem – Dia da Marmota. Ele está preso ao 2 de fevereiro, forçado a reviver o mesmo dia indefinidamente.
Lição do filme: melhor não apostar todas as fichas no amanhã. Vai que neva e o rolar do tempo emperra?
O Dia da Marmota é comemorado em 2 de fevereiro, nos Estados Unidos e no Canadá. Segundo a tradição, nesse dia as pessoas devem observar a toca da Marmota, que é um roedor até simpático. Se o animal sair da toca, o inverno terminará mais cedo. Se o animal continuar entocado, segue o frio.
Tânia Fusco é jornalista
