Como podemos ajudar as mães? (Por Miguel Esteves Cardoso)
As mães precisam do que não têm: de tempo, dinheiro e aquela mistura de liberdade, autonomia e reconhecimento a que chamamos dignidade
atualizado
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Não se pode esperar que sejam os beneficiários da maternidade – os homens – a resolver um problema que só prejudica as mulheres.
O fato de termos nascido e de sermos filhinhos das nossas mamãs torna-nos beneficiários.
Para as meninas, os benefícios não só são temporários – porque a maternidade espreita – como são exemplares, já que constituem um curso de formação.
Se calhar, é por isso que as filhas tendem a tratar pior as mães do que os filhos. Já sabem o que as espera. Já perceberam que aquilo é só um treino.
Por isso é que essas filhas parecem ingratas: porque já sabem que vão pagar. Os filhos, em contrapartida, percebem logo que lhes saiu a sorte grande. Como resposta, só lhes resta a gratidão – a gratidão profunda de quem recebe sem retribuir, a gratidão alegre do ladrão.
E não me venham dizer que os pais fazem tanto como as mães: para fazerem tanto como as mães teriam de ter úteros e mamas e naves cerebrais facilmente manipuladas por pequenos passageiros clandestinos.
Há cada vez menos mulheres dispostas a ser mãe por uma razão muito simples: é mau negócio.
Como nós, os homens – mais o número crescente de mulheres que escolhem não ter filhos –, somos os beneficiários desse mau negócio, a melhor coisa que temos a fazer é tentar melhorá-lo, para que convença mais aderentes.
As mães precisam do que não têm: de tempo, dinheiro e aquela mistura de liberdade, autonomia e reconhecimento a que chamamos dignidade.
Deveriam ser todas pagas e tratadas nas palminhas como se fossem barrigas de aluguer.
Deveriam ser elas a escolher quanto tempo é que querem passar com os filhos. Para isso, os filhos têm de estar muito bem, em creches e escolas boas e gratuitas, e com amas e amos profissionais que adoram crianças.
Ser mãe tem de ser bom negócio, porque o produto é bom: o ser humano.
(Transcrito do PÚBLICO)


