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Blog do Noblat - 22 anos

Cheiro de recessão no ar (por Hubert Alquéres)

O “Brasil pronto para mais” será o Brasil pronto para pagar a conta

26/08/2026 11:00
Getty Images
Homem mostra várias notas de 100 reais - Metrópoles

O slogan de Lula, “Brasil, pronto para mais”, está descolado da vida real. Enquanto sua campanha tenta vender otimismo, anunciando um novo ciclo de prosperidade em um eventual quarto mandato, sinais de desaceleração indicam que 2027 pode ser bem menos favorável do que sugere a propaganda eleitoral.

A face mais visível e imediata do ambiente econômico turvo foi o pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, uma das maiores redes de lojas do setor varejista do país. A empresa tenta renegociar uma dívida de R$ 17,3 bilhões, em um cenário marcado por juros elevados, restrição de crédito e pressão sobre o consumo.

O caso de uma empresa, evidentemente, não permite diagnosticar o conjunto da economia. Mas ele se soma a outros sinais de enfraquecimento da atividade e de deterioração das expectativas. E, se é verdade que a economia se alimenta muito das expectativas, elas não são boas já para o próximo ano.

Recentemente, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga alertou que o cenário econômico atual é muito parecido com o da pré-crise do governo Dilma Rousseff. O pano de fundo para a deterioração das expectativas é o quadro fiscal do governo. Já se projeta uma dívida pública de 84% ao final do ano. Por onde se olhe, as notícias são desanimadoras. Nas duas últimas semanas, os investidores externos retiraram cerca de R$ 18 bilhões da Bolsa brasileira, a maior evasão de capital estrangeiro desde a pandemia de 2020.

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As incertezas sobre como os dois principais candidatos a presidente pretendem enfrentar o crescimento da dívida pública ajudam a aumentar a cautela dos investidores. Ao mesmo tempo, muitas empresas já trabalham com a perspectiva de baixo crescimento em 2027. Há também quem descreva o quadro atual como uma “pequena recessão”, como a definiu o CEO da Itaúsa, Alfredo Setubal.

A desaceleração da economia ocorre a despeito dos incentivos do governo para o aumento do consumo e para a renegociação das dívidas das famílias. Essa estratégia tem se mostrado insuficiente para deter a bola de neve do endividamento das pessoas.

Basta levar em consideração os dados de julho, quando o endividamento das famílias chegou a 82%. A inadimplência, embora tenha recuado ligeiramente, atingiu 29,8%, e 12,3% das famílias dizem não ter condições de pagar o que devem.

É nesse ponto que o problema deixa de ser apenas estatístico. Famílias endividadas consomem menos, empresas mais cautelosas investem menos e juros elevados tornam o crédito mais caro. A soma desses fatores ajuda a explicar por que o cenário para 2027 começa a despertar preocupação.

Pelo lado da dívida pública, o quadro também é assustador. Segundo a jornalista Míriam Leitão, o Tesouro Nacional mensalmente tem de rolar uma dívida de cerca de R$ 150 bilhões e só logra êxito se pagar juros reais de 8%. Isso cria uma conta que não fecha. A economia cresce a 2% ao ano, enquanto a dívida pública cresce 6,4%.

O problema fiscal importa aqui menos como tema isolado do que por suas consequências sobre o ambiente econômico. Quanto mais difícil se torna estabilizar a dívida, menor a margem do governo para reagir a uma desaceleração sem aumentar ainda mais a percepção de risco.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, pode até ser bem-intencionado, e é louvável a sua iniciativa de se reunir com economistas fora do círculo da heterodoxia, como já o fez com Samuel Pessoa e Marcos Lisboa. Também está previsto um encontro com Pedro Malan e Armínio Fraga, que foram da equipe de Fernando Henrique Cardoso e peças-chave do Plano Real.

Manda a prudência ser cético quanto à possibilidade de esses encontros redundarem em uma correção de rota na condução da política econômica. Não tanto pela parte do ministro, que sinaliza preocupações reais com o quadro de deterioração. Mas pela dificuldade política de adotar, em plena campanha eleitoral, medidas capazes de produzir custos no curto prazo.

O mais provável é que Lula conduza o barco da sua campanha com a velha promessa de um futuro grandioso, como seu slogan alardeia. Com as nuvens cinzentas pairando sobre o céu do Brasil, é impossível não traçar um paralelo com o quadro da reeleição de Dilma em 2014.

À época, o eufemismo presidencial serviu para jogar uma cortina de fumaça sobre a grave crise econômica que se formava. Como hoje, economistas e especialistas alertaram sobre o cenário que estava se formando. Os interesses eleitorais falaram mais alto, e a então presidente conduziu sua campanha prometendo mais quatro anos de prosperidade.

Mas havia uma diferença importante entre o discurso oficial e o que acontecia nos bastidores da economia. A deterioração já estava em marcha. O crescimento brasileiro praticamente havia parado em 2014. O PIB daquele ano cresceu apenas 0,1%. No ano seguinte, a economia entrou em recessão.

Não se trata de dizer que a história necessariamente se repetirá. As circunstâncias de hoje são diferentes das de 2014. Mas há uma semelhança que não pode ser ignorada: um governo em final de mandato, uma economia pressionada pelo endividamento e uma disputa eleitoral apertada criam a tentação de adiar decisões difíceis para depois das urnas.

É aí que mora o perigo. Se o otimismo eleitoral não resistir à realidade econômica de 2027, o slogan poderá adquirir um significado bastante diferente.

O “Brasil pronto para mais” será o Brasil pronto para pagar a conta.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação