
As caras e a sincronia da Internacional Fascista (Daniel Azevedo Muñoz
A extrema direita está, mais uma vez, internacional e organizada para derrubar o status quo, e com ele a institucionalidade

Elon Musk não inventou nenhuma tecnologia de redes sociais, ele comprou o antigo Twitter e criou o seu X das ruínas daquele modelo. O bilionário, especialista em adquirir boas ideias e bons contratos governamentais nos EUA, recentemente colocou em marcha sua refundada preocupação com a qualidade da liberdade de expressão no Brasil. Compartilhando (já que parece não ser mais de bom tom usar o verbo retweetar) um dito Twitter Files de alguns jornalistas já queridinhos do mundo conspiratório, o bilionário não somente buscou se posicionar na política, mas o fez quase como se fosse um Chefe de Estado.
Seria, então, Musk um representante político dos EUA? Ou da sua África do Sul, onde nasceu ainda no regime do apartheid? Na verdade, Musk deseja surfar na onda de algo que já está debilitado, e que foi inaugurado no passado pelo Facebook, atual Meta: a ideia de tentar colocar as redes sociais como uma superestrutura global, mais relevante que os governos soberanos dos países em que atua. O bilionário não se porta como quem quer ser presidente dos EUA, se parecendo mais com um pretendente Secretário-Geral da ONU, de preferência num período em que a governança global viveu seu auge, e não no triste momento atual de baixa.
Musk representa essa nova extrema direita que quer revolução, o que não é exatamente uma novidade, já aconteceu na primeira metade do século XX. Na época, também houve um intuito de internacionalização, já que as forças da Alemanha Nazista, por exemplo, lutavam contra resistentes dos países que invadiam, lado a lado com o seu grupo de colaboradores locais. Depois desse período, o mundo viveu a Guerra Fria e, ainda em rebote cultural dessa época, vivemos sob a constante possibilidade do mal internacional corromper por dentro as sociedades livres, pias e tão conservadoras. Só que nessa narrativa da Guerra Fria, os que poderiam fazer isso não eram os fascistas internacionais, senão as tais infiltrações comunistas. Esses espantalhos foram criados porque a esquerda, durante a maior parte do século XX, manteve vivas as chamas de um ideário internacionalista, que anda junto com boa parte do ideário marxista até hoje.
Contudo, essa esquerda revolucionária internacional que exporta subversão não existe mais – lembrando que, em muitos lugares onde se venderam paranoias sobre sua atuação, jamais existiu com toda essa relevância. A atual grande internacional volta a ser a internacional fascista Musk parece se interessar em ser o Secretário-Geral do Faschintern.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesApós revelar em entrevistas nos EUA que acredita em algumas teorias conspiratórias altamente influenciadas pela ideologia neofascista, como as da Grande Substituição ou as cooperações globalistas (que pouco diferem dos discursos nazistas do começo do século XX sobre o judeu internacional), o bilionário africâner-estadunidense agora atua como um protagonista internacional da desestabilização de governos que estão ativamente combatendo os avanços do ódio fascista em seus territórios. No caso, a bola mais preciosa da vez é o Brasil.
Para um homem que antes já havia sido sincero demais nas redes sociais ao dizer que os EUA “golpeiam quem quiserem”, e que os espectadores deveriam “lidar com essa realidade”, referindo-se à situação criada na Bolívia (e suas reservas de lítio) em 2019/2020, é natural que Musk faça pressão pelos seus interesses econômicos no Brasil. No entanto, talvez o interesse em manter abertas as vias da extrema direita no país seja até mais importante.
Com a até agora muito provável vitória de Donald Trump neste ano, o cenário internacional que favoreceu o Brasil na vitória contra o golpe extremista no ano passado muda drasticamente. Com a Casa Branca ocupada por Trump, uma política de desestabilização das instituições brasileiras ganharia outra cara. É justo dizer que nem tudo acontece devido a influências externas, mas é mais difícil defender que, no Golpe Civil-Militar de 1964, o fato de haver um porta-aviões chegando às águas do Nordeste, com autorização do então presidente americano Lyndon B. Johnson, não tenha sido um dos fatores que mais pesou no apoio de alguns generais brasileiros à subversão.
A extrema direita se mostra (novamente) internacionalista, e assiste ansiosa à possibilidade de um importante líder original dessa nova onda, Trump, voltar à presidência de seu país. Enquanto isso, o outro lado desse rio parece acéfalo ao reagir a esse movimento, possivelmente por se recusar a aceitar um papel que não lhe agrada.
(Transcrito do Le Monde Diplomatique Brasil)

