DF: mulheres tentam recomeçar a vida após serem vítimas de maníacos

Elas sobreviveram à violência cometida por Marinésio Olinto e João Marcos Vassalo e lutam para darem um novo rumo às suas vidas

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 08/09/2019 10:51

Dor, angústia, medo e pânico são sentimentos constantes no cotidiano de mulheres vítimas de Marinésio dos Santos Olinto, 41 anos, e João Marcos Vassalo da Silva Pereira, 20. Presos, eles são acusados de crimes bárbaros, como homicídio, estupro e abuso sexual. Atacavam as vítimas em paradas de ônibus. Pelo menos três perderam a vida nas mãos dos dois criminosos. As que sobreviveram tentam recomeçar em meio ao trauma.

Os casos envolvendo os dois assassinos confessos chocaram o Distrito Federal. O modo de agir era semelhante, mas eles tinham rotinas distintas. Marinésio trabalhava como funcionário terceirizado em um supermercado do Lago Norte. Não possuía antecedentes criminais. Casado e pai de uma adolescente de 16 anos, morava no Vale do Amanhecer, localidade próxima ao local da morte da advogada Letícia Curado, 26, que desencadeou uma onda de novas denúncias.

João Marcos era desempregado. Residia no Paranoá Parque e já tinha passagens por tráfico e roubo. Apesar de as abordagens dos dois criminosos terem sido feitas em paradas de ônibus, o modo com o qual cada um chegava a suas respectivas vítimas era distinto. Enquanto o cozinheiro utilizava um carro para se passar por loteiro e fazer com que mulheres entrassem no veículo sem desconfiar do que se passava na cabeça dele, Vassalo atacava as mulheres e já anunciava a intenção de cometer o estupro.

“Pela impessoalidade que Marinésio apresenta ao falar das vítimas e pelo tempo que ele faz isso, para mim, é um psicopata. A outra pessoa não parece ser nada para ele, característica típica de quem possui o transtorno”, diz a psicóloga Maria Christina Borges.

Uma das vítimas de João Marcos Vassalo é a auxiliar de serviços gerias Pedrolina Silva, 50. Moradora do Paranoá Parque, ela foi atacada em uma parada de ônibus da L4 Sul na manhã do dia 1º de setembro, após desembarcar do ônibus. O caso ocorreu seis dias após o caso de Marinésio ganhar repercussão. “Isso me chamou atenção, pois parece que é um crime por imitação. Esse outro rapaz pode ter visto a ação de outra pessoa e se sentiu estimulado a agir igual”, ressalta a psicóloga.

Quando o foco sai dos maníacos e se volta para as mulheres violentadas, a psicóloga Fernanda Falcomer, da Secretaria de Saúde do DF, diz que o trauma é muito grande e difícil de ser superado. “Quando acontece entre a família já é muito complicado, pois são pessoas bastante próximas. Em casos como o de Marinésio e João, ainda há o agravante do fato inesperado”, afirma.

Segundo Fernanda, o impacto é tão grande que pode ocorrer o chamado estresse pós-traumático. “Isso acontece em menor proporção com quem é assaltado, por exemplo. Sintomas como pesadelos, lembranças reiteradas da cena e sensação de que aquilo irá acontecer de novo são frequentes”, exemplifica.

A psicóloga diz que, em episódios como esses, a família das vítimas e a sociedade como um todo passam a sentir medo. “O que acontece com parentes é a vitimização secundária, em que o sofrimento é muito grande. Quanto à população, ver que pessoas estão começando a repetir os atos criminosos gera uma insegurança muito grande”, completa.

Recomeço

Apesar da dificuldade em esquecer o terror vivido, as vítimas de Marinésio e de João Vassalo lutam para escrever um novo capítulo em suas vidas. “Eu poderia estar junto às mulheres que se foram, mas graças a Deus estou aqui”, disse uma mulher de 39 anos, que diz ter sido atacada pelo cozinheiro há oito anos, em Sobradinho.

Auxiliar de serviços gerais de uma padaria, ela conta que o homem tentou estuprá-la. A mulher conseguiu se esquivar do maníaco e, depois, se mudou do Distrito Federal por medo. Agora, ocupar a mente é a sua saída para um recomeço. “Não está nada fácil. Eu tenho medo de tudo. Fui depor morrendo de medo mesmo. Mas estou procurando ir à igreja, fazendo artesanato para distrair minha mente”, contou ao Metrópoles.

Após a prisão de Marinésio, a mulher voltou a tomar remédios controlados para depressão. Apesar disso, ela considera que teve uma nova chance ao permanecer viva. “Deus sabe de todas as coisas. Tudo que passei estou superando aos poucos, porque não é nada fácil. Meu filho depende de mim, nós moramos de aluguel. Então, estou tentando ser forte para passar por isso”, ressaltou.

Outra denunciante do maníaco, uma estudante de 21 anos que relata ter sido assediada em 2017, ainda sofre diariamente ao lembrar do pânico que sentiu à época. “É algo que não sai da cabeça da gente nunca. Quando começo a ver a gravidade da situação é que percebo o quanto que eu corria risco naquele dia, naquela hora, naquele carro”, comentou.

Conforme a mãe da estudante, ela não usa mais aplicativos de transporte nem pega carona com desconhecidos. Agora, é com ajuda dela que a jovem tenta uma nova vida, distante do passado.

Confira o momento em que João Marcos ataca Pedrolina na L4 Sul:

“O que ela pede eu tento fazer, tento estar muito presente na vida dela. Já abri mão de dois empregos para ficar com a minha filha. Faço tudo para mostrar que estou sempre presente. Quero mostrar que já passou, que é um novo começo”, disse a mulher de 47 anos.

Na última quinta-feira (05/09/2019), duas possíveis vítimas de Marinésio fizeram o reconhecimento do cozinheiro no Departamento de Polícia Especializada (DPE). Denunciando terem sido estupradas pelo homem, uma adolescente de 17 anos e uma dona de casa, de 43, confirmaram a identidade do maníaco após ficarem frente a frente com ele.

Segundo a moradora do Paranoá de 43 anos, ela chegou a tentar o suicídio duas vezes devido ao trauma causado pela violência sofrida: a mulher foi estuprada e espancada em 2017. A vítima parou de trabalhar e fez acompanhamento psiquiátrico. Hoje, tem depressão e síndrome do pânico.

A adolescente, vítima do maníaco em abril deste ano, também faz uso de medicamentos. Após o reconhecimento, porém, o desejo da jovem é de se “reerguer”. “Quero conseguir os 15 quilos que eu perdi e vou conseguir, se Deus quiser. Agora, que a justiça já foi feita estou mais tranquila”, disse.

Estudante do terceiro ano do ensino médico, ela ficou quatro meses sem frequentar a escola após ser estuprada. Nesta segunda-feira (09/09/2019), a jovem terá seu primeiro dia de aula e já pensa no futuro. “Eu quero fazer faculdade de direito. Pretendo ser advogada para poder ajudar e defender as pessoas que foram vítimas de violência”, sonha a adolescente.

Marinésio confessou ter matado Letícia Curado e Genir Pereira de Sousa, 47. Até agora, pelo menos 17 mulheres procuraram a PCDF para denunciar o homem. Entre as supostas vítimas de João Vassalo, está uma enfermeira de 32 anos que teria sido abordada em uma parada de ônibus no Lago Sul, no início da tarde de terça-feira (03/09/2019), dia em que o homem acabou preso. A mulher contou que foi agarrada por trás e o agressor só não conseguiu arrastá-la porque um ônibus passou e ela conseguiu embarcar e fugir.

Uma adolescente de 16 anos o reconheceu por tentativa de estupro. Ela contou que a abordagem teria ocorrido também no dia 3 de setembro, horas antes de João Marcos tentar cometer violência sexual contra outra vítima, de 18 anos, na QI 29 do Lago Sul.

 

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