DF: família acredita que ex premeditou feminicídio de Fátima

Acusado de ter assassinado Fátima Lisboa, Atevaldo Sobral mudou o status de relacionamento para "viúvo" dias antes do crime

atualizado 22/01/2020 7:27

Facebook/Reprodução

A família de Fátima Lisboa (foto em destaque), 31 anos, acredita que o assassinato da vendedora de joias foi premeditado. Em entrevista ao Metrópoles, a irmã da vítima, Maria José, afirmou que o principal suspeito do crime, Atevaldo Sobral dos Santos, 51, teria planejado matá-la por não aceitar o término do relacionamento entre os dois. Este é o quarto caso de feminicídio registrado este ano no DF e investigado pela Polícia Civil.

Segundo Maria José, um dos motivos que levam os parentes a crer na premeditação teria sido um gesto de Santos nas redes sociais. Em seu Facebook, o suspeito alterou, dias antes do crime, o seu status de relacionamento de “casado” para “viúvo”. A irmã afirma ter sido a última pessoa a se comunicar com Fátima nos seus últimos minutos de vida.

“A gente realmente acredita que tenha sido algo planejado. Nunca soubemos de nada, de nenhuma agressão ou violência”, explicou.

O motivo da separação do casal nunca foi revelado à família pela vítima. “A gente não sabe por que se separaram, apenas que ela queria se mudar para voltar a morar só com os filhos. Não tínhamos desconfiança de nada, viviam bem. Estamos muito abalados, pois nunca esperávamos que isso fosse acontecer”, acrescentou a parente.

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Redes sociais

Fátima e Atevaldo se relacionaram por dois anos, segundo familiares. Em seu perfil no Facebook, Santos fazia questão de comentar as fotos tiradas ao lado da ex-mulher.

“Obrigado por fazer parte da minha vida. Suplico a Deus que nos acrescente sempre o amor, o respeito, o carinho. Que haja harmonia, paz”, respondeu em uma das publicações. “O verdadeiro amor existe, pois se chama Fátima Lisboa. Amo muito”, declarou-se em outra.

Uma postagem de Fátima, contudo, chamou atenção da família. No dia do seu aniversário, em 31 de outubro de 2019, a vendedora desabafou: “O ano está acabando e não foi fácil, tantas perdas, desencontros e decepções. Em 31 anos, esse foi um dos mais difíceis. Agradeço a Deus pela vida, por ter saúde, mas, infelizmente não tenho tantos motivos para comemorar”.

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Fátima teria sido assassinada com um martelo de amaciar carne. O suspeito, por sua vez, foi encontrado morto no Riacho Fundo nessa segunda-feira (20/01/2020), ele teria se enforcado.

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O crime

O feminicídio ocorreu no terceiro andar do prédio localizado na Avenida Contorno do Núcleo Bandeirante. Uma mulher que mora logo abaixo da unidade onde aconteceu a tragédia estava em casa no momento do crime e diz que ouviu gritos vindo do imóvel onde a vítima residia. A moradora preferiu não se identificar. “Por volta de meio-dia [de segunda-feira], teve um barulho de furadeira e depois ouvi um grito bem alto”, relata.

No momento, a mulher imaginou que pudesse ser um choque em decorrência do manuseio de uma furadeira ouvida anteriormente. Como Fátima estava de mudança, algo também poderia ter caído. “Não fui até a casa dela, pois não ouvi discussão. Foi apenas o grito. Se soubesse, teria ido ajudar”, lamenta.

Nova movimentação a moradora só ouviu na manhã desta terça (21/01/2020), quando a família foi até a casa e abriu a porta. “Ouvi vários ‘Ai meu Deus’. Dessa vez, subi lá e vi que ela tinha sido morta”, conta.

A vítima tinha três filhos. Desses, duas meninas, de 14 e 10 anos, do casamento com o empresário Anderson da Silva Santos, 40. “Ficamos juntos por uns quatro anos”, disse o homem, que foi ao local onde ocorreu o crime. Os dois se revezavam no cuidado das garotas, mas agora ele precisará criá-las sozinho. “Educar sem a mãe vai ser difícil. Elas já sabem do que aconteceu. Estão muito arrasadas”, lamentou o homem.

A 11ª Delegacia de Polícia (Núcleo Bandeirante) investiga a morte. De acordo com o chefe da unidade, está confirmada a morte violenta. Ele não deu detalhes sobre o feminicídio. “Vamos seguir o mesmo protocolo d0 caso da Candangolândia. Estamos apurando tudo para saber as circunstâncias do crime”, frisa.

Segundo o investigador, o assassinato ocorreu entre 11h e 13h de segunda-feira (20/01/2020). “Os moradores estão prestando os esclarecimentos. Ainda é muito cedo para dizermos algo”, explica.

Outros casos

Outro caso de feminicídio registrado este ano é o de Rute Paulina da Silva, 42 anos, assassinada em Samambaia, no dia 14 de janeiro. A mulher, descrita por vizinhos como tranquila e religiosa, foi morta pelo companheiro, que está preso.

O corpo de Rute foi encontrado na Quadra 321 de Samambaia Sul, com a marca de uma facada no pescoço. Ela deixou dois filhos – de 7 e 2 anos. Uma das crianças chegou a dizer que viu o pai esfaqueando a mãe deles.

primeiro feminicídio de 2020 é o de Larissa Francisco Maciel, 21, na Candangolândia. O suspeito é um jovem de 20 anos, que é casado e mantinha um relacionamento extraconjugal com a vítima.

A diarista foi morta na madrugada de 6 de janeiro, após uma festa em um posto de gasolina. O corpo dela foi achado nu, no altar da Igreja Evangélica Tenda da Libertação. O assassino foi preso no dia 15 de janeiro.

O outro caso é o de Gabrielly Miranda, 18, morta pelo namorado, Leonardo Pereira, também no dia 14 em Samambaia. Ele assassinou a parceira com um tiro na cabeça.

Em 2019, o Metrópoles iniciou um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal são contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país. Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

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