Brasilienses aderem à campanha pelo fim da violência de gênero

No mês de mobilização mundial contra assassinatos e agressões às mulheres, total de feminicídios registrados no DF é maior que em 2018

atualizado 23/11/2019 12:38

“Tudo começou quando passei a ter independência. Xingamentos, violência psicológica, sexual e física. Sofri tudo isso”. A sequência de brutalidades que acometem cada vez mais mulheres no Distrito Federal, no Brasil e no mundo é conhecida por grande parte das vítimas de violência. Dentre as milhares de mulheres agredidas no DF está Paula*. Seu caso é um dos exemplos que reflete a alarmante necessidade de denúncia para que mulheres em situação de vulnerabilidade não estejam sujeitas à evolução das agressões para a última etapa da violência: o feminicídio.

Nesta segunda-feira (25/11/2019), é celebrado o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Neste novembro, mês de início da campanha mundial contra todas as formas de violência de gênero que segue até 10 de dezembro, o DF já ultrapassa o total de feminicídios registrados durante o ano de 2018.

Levantamento com base em dados da Polícia Civil do DF (PCDF) produzido pelo (M)Dados, o núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles, indicou que, até o dia 21 de novembro deste ano, foram registrados 29 feminicídios, 80 tentativas de feminicídio e 14.935 casos de violência contra mulheres na capital.

Os dados quanto aos dois primeiros crimes já superam os do ano passado, quando foram registrados 28 feminicídios, 66 tentativas de feminicídio e 14.985 casos de violências, segundo a Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF). Apesar do número de casos de violências gerais contra brasilienses ainda ser menor que o de 2018, a quantidade pode ultrapassar o total de registros do ano passado, se a média mensal de 2019 for mantida.

 

 

Uma exceção nos casos de violência de gênero, de acordo com a pasta, são os crimes de estupro, que apresentam queda de 2018 para cá (veja abaixo).

 

Brutalidade

Casada durante 15 anos, a micro empreendedora Paula, 38 anos, começou a sofrer com a brutalidade do marido nos dois últimos anos de relação, entre 2015 e 2017. Hoje separada, ela ainda tenta reconquistar sua autonomia após conseguir refúgio na Casa Abrigo, instituição do Governo do Distrito Federal (GDF) que acolhe mulheres sob grave risco de vida.

“Desde o início percebi que ele era muito ciumento. Implicava com algumas coisas, mas eu levava como se fosse algo normal, porque não tinha muito conhecimento. Os primeiros anos foram tranquilos, mas quando eu comecei a ter mais independência, fazer faculdade, abrir minha micro empresa, tudo piorou”, narra.

Durante a faculdade, Paula fez um trabalho sobre violência doméstica e começou a identificar situações semelhantes às que estava passando. “As agressões começaram a aumentar. Começava com um empurrão, machucadinhos, até que comecei a sofrer violência sexual três vezes por semana”, detalha.

Mãe de quatro filhos, sendo três com o ex-marido, ela buscou ajuda de autoridades para abrigar-se com as crianças. “Ele começou a ligar, mandar mensagem, ameaçar. Então procurei a Delegacia da Mulher e lá me deram a oportunidade de ir para a Casa Abrigo, em 2017”, diz.

Após dois meses no local, Paula conseguiu voltar a trabalhar, mas ainda sofre de depressão e precisa fazer acompanhamento médico devido aos traumas sofridos. “Tive muito apoio lá, fui muito bem recebida. Mas, dois anos depois de tudo, eu ainda preciso ser acompanhada por um psiquiatra e tomar remédios para tentar superar isso”, lamenta.

Xingamentos na rua

Também moradora do Distrito Federal, Marisa*, 40 anos, passou por situação parecida. Vítima de um homem com quem esteve casada por 15 anos, a faxineira encontrou acolhimento na Casa Abrigo após denunciar o agressor. Atualmente, ela atribui sua chance de recomeço à ajuda que obteve quando procurou a polícia.

“Em 2014, meu marido começou a usar crack. Ele já fumava maconha, mas não esperava que fosse evoluir para algo pior. E ele passou a ficar muito agressivo”, lembra.

Assim como Paula, a violência sofrida por Marisa teve início após 13 anos de relacionamento. “No começo, eram agressões verbais, psicológicas e não só dentro de casa. Xingava na rua, falava que eu não prestava. Ele só não chegou a me machucar porque estava tão debilitado pelas drogas que eu tinha mais força que ele. Mas já chegamos a entrar em luta corporal porque ele tentou me agredir”, revela.

Ainda naquela época, o homem foi internado pela família devido à dependência química. Esta foi a chance que Marisa encontrou para sair de casa com seus três filhos. “Fui para a Casa Abrigo pela primeira vez e fiquei alguns dias. Depois de cinco meses, ele saiu da internação e eu pensei que teria acabado o ciclo do vício. Mas, menos de 1 ano depois, ele voltou para as drogas. Então eu voltei para o abrigo e tive bastante ajuda lá”, afirma Marisa.

“Ele não sabe onde moramos hoje e não temos contato, Graças a Deus. Procurar ajuda foi um escape para mim, principalmente para dar uma vida mais digna para meus filhos”, considera.

Mais denúncias

Para representantes do Governo do Distrito Federal, os dados que indicam aumento no total de violência contra as brasilienses são resultado do crescimento das denúncias desse tipo de crime.

“A gente acredita que mais mulheres estão tendo mais coragem de denunciar. Hoje, damos uma maior visibilidade aos casos de feminicídio também. Políticas públicas estão sendo implantadas, mas o resultado não é imediato. Estamos trabalhando justamente para que isso mude”, pontua a secretária da Mulher do DF, Ericka Filippelli.

Lembre algumas das mulheres que morreram vítimas de feminicídio no DF neste ano:

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Segundo a secreetária, o governo tem promovido cada vez mais políticas públicas para combater a violência, porém, o desafio é levar informação à população para que mulheres conheçam os meios através dos quais podem obter ajuda.

“Tem muitas coisas acontecendo, mas a gente ainda paga o preço dos muitos anos sem ações institucionalizadas. São vários anos de negligência, de falta de campanhas. Agora, com essas políticas, esperamos ter mais centros especializados de atendimento à mulher em 2020”, destacou.

“Meta a Colher”

Como um convite à sociedade a repensar a frase: “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) lançou, em 28 de maio, a campanha #MetaaColher. O projeto busca expor o papel de responsabilidade de cada cidadão como engrenagem importante na cruzada contra o feminicídio.

Para o secretário de Segurança, Anderson Torres, crimes de gênero são difíceis de prevenir devido a uma cultura machista que ainda existe no Brasil e no mundo. “Por isso precisamos da participação de pessoas que tem conhecimento das agressões e não denunciam em razão de preconceitos, de ditados como esses que ‘em briga de marido e mulher ninguém mete a colher'”, afirma.

Para Torres, há um encorajamento cada vez maior por parte das mulheres para denunciar seus agressores, mas ele considera que ainda faltam ações por parte de parentes, amigos e conhecidos de vítimas. “Se aumentaram as denúncias, significa que estamos conseguido alcançar o que queríamos. Mas sempre tem gente que sabe [de um caso de violência], não denuncia e depois pode receber a notícia pior [da morte da vítima]. Então, incentivamos para que haja essa busca pela denúncia, a procura por delegacias e pelo 180”, ressalta.

Fenômeno mundial

A representante interina da ONU Mulheres Brasil, Ana Carolina Querino, lembra que o fenômeno da violência contra a mulher não ocorre apenas no Brasil, mas no mundo. “Sabemos que todas as mulheres, independente de grau de instrução, de situação financeira, podem ser possíveis vítimas, porque é um fenômeno que pode afetar a todas”, avalia.

“Começa na violência psicológica, moral até chegar nos níveis de agressão mesmo. Não há exatamente um passo a passo, pode estar tudo junto, mas também pode haver uma evolução [para tentativas e feminicídios]”, completa.

Para combater essa cultura de violência de gênero, a organização busca promover campanhas pelo país levando reflexões também aos homens sobre padrões de masculinidade e comportamentos que estimulem a violência.

Engajamos parceiros para promover discussões em seus espaços para que o tema sempre esteja na agenda e nas rodas de conversas das pessoas, contribuindo para questionarmos essa cultura que a gente normaliza, para que deixe de ser algo natural e passe a ser algo inaceitável

Ana Carolina Querino, representante da ONU Mulheres Brasil
A data

O Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres faz parte da campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. A ação começou  em 1991, quando mulheres de diferentes países, reunidas pelo Centro de Liderança Global de Mulheres (CWGL), iniciaram uma campanha com o objetivo de promover o debate e denunciar as várias formas de violência contra as mulheres no mundo.

No Brasil, a Campanha ocorre desde 2003 e é chamada 16+5 Dias de Ativismo, pois incorporou o Dia da Consciência Negra (20 de novembro). A mobilização termina em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. Cerca de 150 países participam da campanha.

Neste ano a temática da mobilização é “Geração Igualdade” e pede pelo fim da cultura do estupro. Veja abaixo algumas das datas que fazem parte do calendário da campanha:

  • 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra e início da Campanha 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, no Brasil
  • 25 de novembro – Dia Internacional da Não-Violência contra a Mulher
  • 6 de dezembro – Dia do Laço Branco, quando homens são convocados a se envolver no combate à violência contra as mulheres
  • 1º de dezembro – Dia Mundial de Luta contra a Aids
  • 10 de dezembro – Dia Internacional dos Direitos Humanos e Encerramento da Campanha dos Dezesseis Dias de Ativismo
Onde denunciar

Canais de denúncia: 180 – Central de Atendimento à Mulher; 197 – Polícia Civil; Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), na 204/205 Sul.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das vítimas

 

Neste 2019, o Metrópoles iniciou um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

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