“Batia nela sempre”, dizem vizinhos sobre assassino de Maria de Jesus

Mulher, de 29 anos, foi morta pelo companheiro, Henrique Farley. Corpo foi encontrado na tubulação em local conhecido como Favela do Cano

JP Rodrigues/MetrópolesJP Rodrigues/Metrópoles

atualizado 16/05/2019 11:22

“Ele era muito violento e batia nela sempre.” Vizinhos de Maria de Jesus do Nascimento Lima relatam as agressões constantes sofridas pela mulher, assassinada aos 29 anos de idade dentro de casa pelo companheiro, Henrique Farley Carneiro de Almeida, 36. O suspeito foi preso na terça-feira (14/05/2019) acusado de esfaquear a vítima na residência do casal e esconder o corpo na rede de esgoto.

O crime ocorreu na chácara Santa Luzia, em Taguatinga, mais conhecida como Favela do Cano. Moradores do local contaram ter acionado a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) após perceber que havia muita água saindo da manilha que dá acesso ao sistema de esgotamento. Funcionários da empresa encontraram o corpo de Maria de Jesus dentro de uma tubulação e comunicaram o fato à polícia.

Na tarde desta quarta-feira (15/05/2019), toda a cena do crime já havia sido limpa. Os móveis foram retirados e colocados na varanda. Apenas o cachorro de estimação permanecia no local. A residência de ambos era um barraco simples, construído com madeira.

Segundo vizinhos, que pediram para não serem identificados, Henrique Farley sempre xingava a companheira. Ele chegou, inclusive, a agredi-la na frente de outras pessoas com um tapa no rosto. “A mulher nunca fez nada com ninguém. Por isso, estamos tão chocados”, relatou uma conhecida. A irmã da vítima, que também residia no lote, teria conseguido interromper as agressões em uma determinada ocasião, conta a moradora. Ela teria defendido Maria de Jesus utilizando uma pá.

Ainda assim, o casal foi descrito como reservado. De acordo com a vizinhança, os dois costumavam vender produtos variados pela região de Taguatinga. “Uma tarde eu o ouvi gritando em casa, mas isso acontecia sempre. Aí, ele aumentou o volume da caixa de som, como se fosse para impedir que outros escutassem o que estava ocorrendo. Eu saí um pouco e, quando retornei, não voltei a vê-la outra vez”, contou uma jovem que mora no mesmo lote.

Culpado
Depois de encontrarem o corpo de Maria de Jesus, agentes da 21ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul) foram até a residência do casal e viram escrito na parede, de caneta esferográfica azul, a frase: “Culpado. Foi ele quem me matou”. O delegado Luiz Alexandre Gratão afirma que Carneiro de Almeida utilizou um carrinho de compras para levar o corpo até a manilha.

Após ser confrontado com as provas, Henrique teria confessado o crime. A faca utilizada foi apreendida. O envolvido foi autuado em flagrante por ocultação de cadáver e será indiciado por feminicídio.

A vítima já havia registrado três ocorrências de violência doméstica (Lei Maria da Penha). A última foi feita em 27 de abril. Segundo relatos da mulher, nesse dia, o companheiro disse que o próximo feminicídio no DF seria o dela. Na ocasião, ela contou que gostava de Henrique e, por isso, sempre voltava para ele, mas admitiu ser vítima de agressões. “Ele me xingou de vagabunda e demônio”, contou.

Segundo a PCDF, a mulher recusava pedir medidas protetivas contra o companheiro. Entretanto, na última vez, teria solicitado ir para uma casa abrigo. O pedido foi negado uma vez que a mulher já tinha passado pelo local e não cumprido as regras para permanecer.

Feminicídios
Apenas neste ano, 12 mulheres foram vítimas de feminicídio no DF. Em outros 42 casos, os agressores tentaram matar suas companheiras ou ex.

O penúltimo caso foi registrado no dia 9 de maio. Após 14 dias internada no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), Cácia Regina Pereira da Silva, 47, perdeu a batalha pela vida. Em 25 de abril, ela foi vítima de um crime brutal. O ex-marido invadiu a casa dela, em Sobradinho, e jogou ácido no rosto e no corpo da mulher.

Câmeras de segurança registraram o momento em que o ex-vigilante Júlio César dos Santos Villa Nova, 55, entra no local onde cometeu o crime. Após jogar ácido sulfúrico nos olhos de Cácia, ele sacou um revólver, mas a arma falhou.

Nas imagens, Cácia sai correndo na rua, em busca de ajuda, após o ataque. Júlio tirou a própria vida após agredir a ex-esposa e usou a mesma arma, que não falhou, quando ele apertou o gatilho no ouvido.

 

Neste 2019, o Metrópoles iniciou um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.