Metrópoles leva campanha Elas por Elas para escolas públicas do DF

Iniciativa do portal para combater a violência de gênero foi apresentada para alunos do ensino médio. Escolas ganharam grafites sobre o tema

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 12/05/2019 16:27

Estamos na 20º semana do ano e a violência doméstica já fez 11 vítimas fatais no Distrito Federal. Em outros 42 casos, os agressores tentaram matar suas companheiras ou ex, mas, apesar de feridas no corpo e na alma, elas conseguiram escapar. Até a última sexta-feira (10/05/2019), outras 5.623 mulheres avisaram à polícia que estão correndo perigo: convivem com ameaças e agressões dentro da própria casa. Há consenso que o machismo alimenta a violência de gênero. E também há consenso que para promover uma mudança de comportamento na sociedade são necessárias educação e informação.

Nesta semana, o Metrópoles participou da Semana Educação Para a Vida em três escolas públicas do DF. A partir das apresentações de especialistas sobre o tema Feminicídio e Violência Contra a Mulher, estudantes do ensino médio discutiram assuntos como machismo tóxico, protagonismo feminino, legislação de proteção à mulher, rede de apoio às vítimas, responsabilização dos agressores e ciclo da violência.

A equipe do portal se uniu à iniciativa para detalhar para a comunidade escolar o projeto Elas por Elas, concebido para disseminar informações sobre o assunto a partir do acompanhamento sistemático de todos os casos de feminicídios registrados no DF em 2019. As escolas visitadas também receberam grafites alusivos ao tema, com mensagens sobre empoderamento feminino. “Um dos nossos objetivos era fazer com que o Elas por Elas extrapolasse o nosso site e estivesse nas ruas, para que sensibilizasse mais pessoas”, conta Priscilla Borges, editora-executiva do veículo.

Ao longo do ano, o Metrópoles fará diferentes intervenções artísticas pelas cidades do DF. Grafitar muros das escolas era uma das metas do projeto, visto que conscientizar os jovens sobre o problema pode mudar o futuro. O pedido de parceria feito pelo portal à Secretaria foi prontamente atendido, porque complementava as ações planejadas pela pasta.

A Semana Educação Para a Vida foi instituída por uma lei federal de 2009 e acontece nas escolas públicas do país inteiro. Em Brasília, o tema escolhido foi o protagonismo estudantil para contemplar a fala dos alunos — eles deveriam ser o centro do debate. “Como subtema escolhemos feminicídio e violência contra a mulher devido ao grande número de casos no DF. Os adolescentes produziram filmes, cartazes, distribuíram panfletos na comunidade e participaram das rodas de conversa”, conta Janaína Andréa Almeida, chefe da Assessoria Especial do Gabinete da Secretaria de Educação.

Ela explica que a Semana foi apenas o pontapé inicial para a discussão da violência contra a mulher com os alunos. O governo vai investir na formação de educadores dentro da temática, para criar uma maneira de atender os estudantes filhos ou parentes de vítimas de feminicídios. Também está previsto que as rodas de conversa aconteçam em outras escolas.

Símbolo
Pensando em dialogar com o público jovem e manter em pauta o tema da violência contra a mulher, o Metrópoles convidou três artistas para criar os grafites nas escolas que foram visitadas pela equipe do portal. Siren, Didi e Raquel Bralo produziram artes com a ajuda dos estudantes para lembrar, todos os dias, da importância do empoderamento feminino e da sororidade.

“É uma linguagem jovem, moderna, colorida, que vem de uma cultura de contestação. Queríamos criar símbolos para os jovens, para a cidade, e também dar visibilidade às grafiteiras. É um jeito de tratar de um tema pesado, triste, de uma maneira mais leve”, explica Priscilla Borges.

A grafiteira Raquel acredita que a participação dos alunos no processo (eles ajudaram a preencher os desenhos com cor) é essencial. “Os adolescentes acabam prestando mais atenção na mensagem por terem participado do projeto. Levar a rua para dentro da escola é um jeito de chamar atenção para o tema. Eles vão tirar foto do painel colorido, explicar para os amigos o significado e acabar passando o recado adiante”, conta Raquel. “As mensagens são lembretes para a gente também. Estamos todas juntas”, completa.

Confira, no timelapse, o processo de produção dos painéis:

“A violência doméstica sempre esteve presente na nossa sociedade, agora só está mais evidente porque estamos denunciando. Se as mulheres se ajudarem, dando força uma para a outra, nós juntas vamos sair dessa”, afirma a grafiteira Didi, responsável por pintar o mural da escola de Taguatinga. Para ela, a arte aproxima a sociedade de temas como este, principalmente o grafite. “Se uma frase no nosso caminho pode mudar o dia, imagine um desenho fixo naquela parede, o acesso diário àquela imagem”, completa.

Em Samambaia, enquanto os adolescentes pintavam a arte de Siren, a artista escutou alguns comentários interessantes, como: “Olha, ela me desenhou” ou “É uma mina que está fazendo, é um grafite feminista”. “Participar deste projeto me parece um combustível para fazer mais. Me sinto realizada por estar fazendo parte de algo maior do que eu. Retratar o Elas por Elas, essa visão mais humanizada da violência que as mulheres sofrem, é muito importante. A sensação é de estar no caminho certo. Estamos plantando a semente”, explica Siren.

Janaína, da Secretaria de Educação, conta que a parceria com o Metrópoles é decisiva para o projeto, não só com a presença de representantes do portal nos debates, mas também pelos grafites executados. “Foi fundamental que ficasse registrado, como uma marca, que aquele local está debatendo o tema. E o feedback vem na hora. Quinta-feira (09/05/2019) passamos meia hora tirando fotos com os alunos em frente ao painel. Uma das alunas resumiu: ‘Estávamos precisando muito deste presente'”, conta.

Para Alice Macera, diretora do CEF 619, em Samambaia, o grafite é um jeito de manter o assunto em pauta. “Nossa escola é localizada em uma região que tem muita violência. Com esse grafite, os estudantes se sentem importantes, reconhecidos. Muitos desses alunos presenciam esse tipo de violência em casa”, afirma.

Discussões e palestras
Divididos em três encontros ao longo da semana, o Metrópoles esteve no CEF 619, em Samambaia, no Teatro da Praça, em Taguatinga, e no CED 1 do Itapoã. A ideia era não só apresentar o projeto Elas por Elas, mas discutir com os jovens sobre o ciclo da violência, alertar para comportamentos machistas, incentivar a denúncia e mostrar como o governo pode ajudar a vítima.

Na escola de Samambaia, que recebe esporadicamente ações para conscientizar os estudantes sobre a violência doméstica, participaram da roda de conversa Priscilla Borges, editora-executiva do portal, a juíza Fabriziane Zapata, do Núcleo Judiciário da Mulher, e a advogada Lucia Bessa, diretora de Gênero do Fórum de Mulheres do Mercosul.

Priscilla lembrou que o Metrópoles é comandado por mulheres — e isso muda a perspectiva sobre a notícia. “Não é que tenhamos mais mulheres trabalhando, mas elas estão em posições de chefia, o que faz diferença. Naturalmente, nossa perspectiva para essas questões é outra. Só nós, mulheres, sabemos o que passamos”, explica. Noticiar apenas o crime, segundo ela, é insuficiente para criar empatia com os leitores. “Essas vítimas poderiam ser nossas mães, avós, irmãs, filhas e tias. Perceber isso pode nos ajudar a enxergar como vivemos em uma sociedade machista e como precisamos romper esses ciclos de violência.”

Em Taguatinga, o secretário de Educação, Rafael Parente, perguntou à plateia quem já tinha visto uma mulher apanhar. Cerca de 80% dos alunos respondeu que sim. “Não podemos aceitar essa realidade. Nós vamos diminuir os casos de violência contra a mulher a partir da educação, dentro da sala de aula”, afirmou. Participaram também da conversa o juiz Ben-Hur Viza, do juizado de violência doméstica e familiar contra a mulher do Núcleo Bandeirante, a secretária da mulher Éricka Filipelli e Olívia Meireles, editora de Projetos Especiais do Metrópoles e coordenadora do Elas por Elas.

O juiz explicou aos alunos o trâmite legal da lei Maria da Penha e destacou condutas cotidianas machistas dos adolescentes, como olhar as mensagens do celular da namorada ou pedir para ela trocar de roupa. Viza destacou ainda a importância de acabar com essa cultura opressora para diminuir as tristes estatísticas.

No Itapoã, o Metrópoles foi representado por Érica Montenegro, editora do projeto Elas por Elas, que participou do debate com a delegada Jane Klébia, responsável pelo programa de rádio Patrulha da Mulher, Juciara Rodrigues, subsecretária de Apoio a Vítimas de Violência (SEJUS) e Francisco Lurandir Moura de Oliveira, subsecretário de Segurança Institucional (SEJUS).

“Conter a violência doméstica é uma tarefa de todos nós. Mas, como isso pode ser feito? O primeiro passo é estender a mão, oferecer o ombro para quem está sofrendo”, afirma a delegada Jane Klébia. “Tem gente que diz: ela apanha e não sai do relacionamento, então é porque gosta. Não é assim. A vida não é redonda, a vida é quadrada. Enquanto delegada, eu prendo quem bate. Mas, sair de uma relação abusiva, em que a violência está presente, envolve muito mais do que prender o agressor”, completou.

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.