*
 

Um homem possessivo, violento e que não se conformava com o fim do relacionamento. Familiares da operadora de caixa Tauane Morais dos Santos, 23 anos, descrevem assim Vinícius Rodrigues de Sousa, 24, que esfaqueou a ex-namorada até a morte, um dia após ser solto por determinação da Justiça. O homem tentou suicídio logo depois do crime.

Segundo um irmão da vítima, Tauane não podia falar com ninguém ao telefone. “Ele a agredia muito. Chegou a quebrar tudo dentro de casa”, afirmou o rapaz, que prefere não se identificar. Foram cinco anos de relacionamento. Após a agressão, a moça foi à polícia e denunciou o seu algoz. Vinícius havia sido preso no último domingo (3/6).

Nessa terça (5), durante audiência de custódia, o juiz Aragonê Nunes Fernandes, do Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Samambaia, mandou soltar o acusado. Conforme o magistrado assinalou no termo do procedimento, “[…] a fixação de medidas protetivas são suficientes para acautelar o processo e manter o suspeito a ele vinculado, protegendo também, por consequência, a integridade da ofendida. Diante de todo o exposto, restituo, sem fiança, a liberdade de Vinícius Rodrigues de Sousa”.

Na quarta-feira (6), a jovem foi assassinada em casa, na QR 206 de Samambaia Norte. A família não se conforma. “Se fosse uma filha ou uma irmã dele [juiz], tinha feito alguma coisa. Tinha prendido. Mas não era, né?”, lamentou o irmão. Para ele, o magistrado errou ao soltar Vinícius. “E ele libera caras como esse quase todo o dia”, completou.

“Não temos bola de cristal”
Aragonê Nunes Fernandes se manifestou sobre o caso: “Por não termos bola de cristal, não temos como prever aqueles que realmente concretizarão as ameaças que fazem”. A declaração foi feita em nova audiência de custódia, nessa quinta-feira (7), um dia após o feminicídio de Tauane.

Para o magistrado, “prender a todos, indistintamente, não parece ser o melhor caminho a seguir”. Na nova audiência, na qual converteu a prisão em flagrante de Vinícius em preventiva, Aragonê explicou que o acusado esteve no órgão há dois dias e foi colocado em liberdade provisória, pelo próprio juiz, com medidas cautelares e protetivas à vítima.

As garantias dadas pela Justiça, porém, não salvaram Tauane. “Elas, no entanto, não se mostraram suficientes. Ao contrário. Mesmo ciente da impossibilidade de procurar a vítima, ele retornou à residência e retirou a vida dela, tentando ainda suicídio”, comentou.

O crime aconteceu após o término do namoro, ocorrido no último fim de semana. Segundo Tauane, o jovem começou a se comportar de maneira violenta e descontrolada no interior do apartamento onde eles moravam. O acusado teria chamado a moça de “vagabunda”, pegado um punhal e a ameaçado de morte.

O agressor passou a quebrar tudo que era de propriedade da mulher – como televisão, geladeira, guarda-roupas – e ainda rasgou as cortinas do imóvel com o objeto cortante. Depois de matar Tauane e tentar tirar a própria vida, Vinícius foi socorrido ao Hospital Regional de Taguatinga, em estado grave, e permanece hospitalizado, segundo a última informação passada pela Polícia Civil do Distrito Federal. Agentes fazem a escolta do preso na porta da unidade de terapia intensiva.

O acusado foi autuado em flagrante pelo feminicídio e pelo descumprimento de decisão judicial de medidas protetivas de urgência. O filho de 2 anos de Tauane e Vinícius não sabe o que aconteceu. Será levado para o Piauí pelo tio e vai morar na terra natal da mãe – o corpo dela seguiu para lá nesta sexta (8/6) e será enterrado no sábado (9).

Além da revolta, fica a saudade. Segundo o irmão da vítima, a última conversa que teve com Tauane foi após ele ter saído para trabalhar nessa quarta-feira (6). “Ela disse: ‘Vai com Deus e cuidado’. Isso porque sabia que eu voltava tarde e a pé”, contou o rapaz.