Como tornar as aulas on-line mais inclusivas a crianças surdas

Lak Lobato ensina mães e pais de crianças surdas a melhorarem a experiência de aprendizado nas aulas a distância

criança celular aula on-linePollyana Ventura/Getty Images

atualizado 27/04/2020 12:10

Para muitos pais, o isolamento social causado pela pandemia de coronavírus carrega, entre os pontos mais sensíveis, o homeschooling, ou ensino em casa. As aulas on-line, no entanto, podem ser ainda mais complicadas a crianças surdas ou com alguma deficiência auditiva, que têm tido dificuldade de aprendizado desde que o método de ensino passou a ser obrigatório após o fechamento das escolas em todo o país.

“Comecei a ver amigas que são mães de crianças usuárias de tecnologias auditivas, principalmente aparelhos auditivos comuns e implante coclear, reclamando das dificuldades que os pequenos enfrentavam com essa modalidade de aulas.Nas aulas on-line, eles não têm a mesma capacidade de acompanhar, sentem-se perdidas e se dispersam facilmente”, explica a escritora e palestrante surda Lak Lobato, referência em todo o país.

Devido à visibilidade que tem, a autora de Escute como um surdo: (Re)descobrindo a audição através da escuta ativa passou a receber diversos relatos semelhantes. E começou a se preocupar com essa questão.

“Os usuários de Libras (língua de sinais) precisam de aulas ministradas nessa língua ou, pelo menos, de um intérprete que traduza o conteúdo que está sendo passado. Os usuários de tecnologias auditivas, de áudio de boa qualidade e, dependendo da idade, legenda nos vídeos, para que compreendam o conteúdo. Nada disso está sendo ofertado pelas escolas”, emenda.

“Sabemos que é emergencial, ninguém se preparou para mudar das aulas presenciais às aulas on-line de um minuto para o outro. Porém, percebemos que há escolas e universidades que não tiveram nenhum cuidado especial para auxiliar os estudantes que já demandavam alguma atenção”, complementa Lak.

Dificuldades e adaptações

Como essa situação não estava prevista em lei, a especialista complementa que não há nenhuma obrigação legal por parte das instituições de ensino em adaptar os conteúdos digitais a essa parcela da população. É uma questão que exige bom senso, diálogo e consciência.

“[Os alunos surdos] Se sentem irritados. E os pais, impotentes, porque não sabem como resolver a situação. É um momento difícil para todos. Mas trabalhando com a criança em casa, estimulando de forma lúdica, talvez esse período seja menos penoso que parece”, pondera.

“Adaptar-se a este novo ambiente não tem sido fácil, principalmente quando somamos a tenra idade à deficiência auditiva”, relata a bacharel em direito Simone Rodrigues Silva.

Mãe de Daniel Rodrigues, de 7 anos, a carioca afirma que, assim como orienta Lak Lobato, tem acompanhado as mudanças ao lado do filho e, com jogo de cintura, tentado fazer as mudanças serem menos traumáticas. Atualmente, Daniel está no segundo ano do ensino fundamental.

Simone Rodrigues Silva e família
Simone Rodrigues Silva com os filhos, Daniel e Rebeca, e o marido, Antonio Carlos. União e suporte da família é fundamental para ajudar na aprendizagem do garoto

“Acredito ser imprescindível a participação da família da criança para ultrapassar essas dificuldades. A mediação de um familiar durante as aulas ajuda bastante, assim como o uso de acessórios que possibilitam captar o áudio diretamente no aparelho auditivo ou implante por meio de bluetooth”, conta.

Conselhos úteis

Ao Metrópoles, Lak Lobato enumera algumas formas de melhorar a experiência de aprendizado de crianças surdas e com alguma deficiência auditiva.

  1. Sistema de legenda do Powerpoint. Dependendo da plataforma utilizada, essa tecnologia permite uma legenda automática do que está sendo falado. Ainda é pouco divulgado e utilizado, mas é um recurso disponível, ainda que com suas limitações.
  2. Estude antes das aulas. Peça um PDF com o que será ensinado e deixe seu filho preparado ao que será ministrado. E, quando possível, acompanhe as aulas com ele.
  3. Pequenos ajustes. Sugira aos outros alunos que desliguem os microfones em casa e que falem cada um por vez. Tirar dúvidas pelos chats também é uma opção. “Sejam criativos, porque cada criança pode se adaptar de uma forma. Cada família tem sua dinâmica”, ensina.
  4. Converse com a escola. Há diversos profissionais que se voluntariam para traduzir os vídeos em Libras. Os próprios pais podem ajudar, no momento da gravações, se tiverem tempo disponível e acharem prudente. Não tenha medo de sugerir e de pedir suporte à instituição de ensino.

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