Dia dos Namorados: é amor ou dependência emocional? Psicóloga explica
No Dia dos Namorados, psicóloga analisa comportamentos de risco e explica a importância de manter a autonomia nas relações

O Dia dos Namorados (12/6) movimenta o cotidiano com trocas de presentes, homenagens e declarações apaixonadas. No entanto, para além das celebrações românticas, a data funciona como um momento estratégico para avaliar a saúde dos vínculos afetivos e acender o alerta para atitudes que, sob a justificativa do amor, mascaram dinâmicas prejudiciais.
A urgência desse debate ganha sustentação em dados clínicos. Experts apontam que a dependência emocional — caracterizada pela submissão desproporcional do bem-estar, da felicidade e da autoestima à validação de terceiros — é uma das principais barreiras que impedem o rompimento de ciclos destrutivos e abusivos.
A gravidade desse cenário é ilustrada por um levantamento realizado com mulheres em atendimento no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM) em Queimados, no Rio de Janeiro. A pesquisa apontou que a dependência emocional opera como um nó que dificulta a quebra da violência doméstica.
O estudo mapeou que a combinação de baixa autoestima, vulnerabilidade ao medo da solidão e a busca incessante pela aprovação do companheiro atua diretamente na engrenagem que perpetua laços desequilibrados, marcados por sofrimento agudo, controle e agressões.
De acordo com Mariana Ramos, professora de Psicologia na Afya Centro Universitário Itaperuna, manifestações como o apego desmedido, o receio permanente da rejeição e a urgência por aval do outro não encontram respaldo no conceito de afeto real.
“Quando isso acontece, o relacionamento deixa de ser uma escolha baseada no afeto e passa a ocupar um papel central na vida emocional do indivíduo”, esclarece a docente.
A especialista adverte que esse processo anula gradativamente a soberania pessoal e a identidade do indivíduo. A felicidade da pessoa passa a ser terceirizada, transformando a convivência em uma necessidade psicológica desesperada, em vez de uma parceria espontânea.
“Existe uma diferença importante entre compartilhar a vida com alguém e acreditar que só é possível ser feliz na presença dessa pessoa”, diferencia a psicóloga.

Mapeando os sintomas da dependência
Embora camuflada por justificativas sentimentais, a dependência emocional emite sinais comportamentais claros na rotina do casal. Estão entre os principais sintomas:
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Pavor obsessivo do abandono e da rejeição;
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Necessidade crônica de receber o aval do parceiro para validação;
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Incapacidade ou extrema dificuldade para gerenciar decisões solitárias;
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Insegurança persistente e ciúme em níveis exagerados;
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Sensação profunda de vazio interno em períodos de distanciamento físico;
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Anulação total de hobbies, amizades e projetos particulares;
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Consentimento e tolerância ativa com episódios de desrespeito para evitar o término.
Mariana Ramos enfatiza que o aprisionamento se consolida quando o indivíduo passa a enxergar a relação como a única fonte possível de alegria em sua existência.
“Em muitos casos, a pessoa percebe que está sofrendo, mas sente enorme dificuldade para estabelecer limites ou se afastar de uma dinâmica que faz mal”, constata.

Autoestima e a desconstrução dos mitos românticos
A origem dessas amarras costuma estar ligada ao histórico individual de amor-próprio.
Vivências marcadas por inadequação, rejeições anteriores ou inseguranças profundas moldam a busca por parceiros que funcionem como muletas emocionais, operando como fontes exclusivas de segurança. Contudo, a psicóloga alerta que essa transferência de responsabilidade compromete a saúde mental: “A responsabilidade pela nossa identidade não pode ser transferida para outra pessoa”.
Diferente do formato propagado por visões idealizadas do romance, uma convivência saudável dispensa a lógica de “duas metades que se completam”. O equilíbrio se dá pela união de duas trajetórias inteiras que decidem caminhar lado a lado sem abrir mão de suas respectivas independências. Preservar amizades antigas, manter ambições profissionais paralelas e zelar pela individualidade são pilares de sustentação de um namoro ou casamento estável.
“Quando há respeito à individualidade, o vínculo tende a ser sustentado pela admiração, pelo afeto e pela confiança, e não pelo medo da perda”, assegura a professora.

Superar esse padrão exige esforço, mas há caminhos de reabilitação. O ponto de partida reside na identificação honesta dos sinais de alerta e no entendimento de que o amor verdadeiro exige autonomia mútua. O suporte por meio de psicoterapia desempenha papel essencial no resgate da autoestima, no desenho de limites protetivos e no aprendizado de novas formas de se conectar ao outro sem se anular.
Para a especialista, o saldo de um relacionamento deve ser sempre o crescimento mútuo e a promoção do bem-estar.
“O amor saudável não aprisiona. Ele acolhe, respeita, incentiva e permite que cada pessoa floresça sem perder a própria identidade”, finaliza a psicóloga.

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