Dia dos Namorados: usar IA na declaração é criatividade ou frieza?
Especialista alerta que terceirizar sentimentos para a IA compromete a autenticidade e coloca em risco a conexão real entre os casais

O uso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), como o ChatGPT, para redigir declarações de amor acende um debate entre a busca por criatividade e a falta de interesse nas relações.
Embora a tecnologia prometa facilitar a comunicação, o ato de automatizar o afeto pode revelar dificuldades profundas em lidar com a vulnerabilidade e sinalizar um desinvestimento emocional que compromete a conexão real entre os parceiros.
De acordo com a sexóloga Alessandra Araújo, recorrer à IA pode até começar como uma tentativa de ser criativo, mas quase sempre esconde o medo da vulnerabilidade. O processo de expressar sentimentos genuínos dá trabalho e expõe o indivíduo ao risco de rejeição ou julgamento.
“A pessoa pensa: ‘A máquina escreve mais bonito do que eu, então vou usar’. O problema é que a beleza da declaração não está na gramática perfeita ou nas palavras rebuscadas, mas na nossa marca pessoal, inclusive nos nossos tropeços e na nossa simplicidade”, explica a sexóloga ao Metrópoles.

O risco da preguiça emocional
A terceirização do romantismo cobra o seu preço quando o parceiro descobre ou sente que a mensagem não possui a identidade de quem a enviou. Nesses casos, a atitude é interpretada como falta de investimento ou preguiça emocional.
Como o amor se alimenta do tempo e da energia gasta pensando no outro, transferir essa tarefa para o ChatGPT elimina o “suor” do relacionamento.
Para a sexóloga, receber um texto padrão da internet é comparável a ganhar um vale-presente de posto de gasolina no Dia dos Namorados: possui utilidade, mas zero carinho.
Existe, contudo, uma linha clara que separa o uso da tecnologia como inspiração da terceirização total:
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Inspiração: ocorre quando a pessoa possui o sentimento, mas enfrenta dificuldades para organizar a primeira frase. Utilizar a ferramenta para destravar a mente e, em seguida, escrever com as próprias palavras é considerado válido.
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Cópia integral: acontece quando o usuário apenas digita um comando genérico — como “faça um texto de amor para alguém que eu conheci há três meses” — e copia e cola o resultado.
A autenticidade, portanto, reside na imperfeição. O que torna uma declaração inesquecível não é a sua perfeição estética, mas o fato de ser verdadeira.

O romantismo exige a ineficiência
A psicologia aponta que, enquanto a inteligência artificial é ideal para otimizar tarefas práticas da vida, como pagar boletos, organizar planilhas e redigir e-mails profissionais, o romantismo caminha na direção oposta e exige a ineficiência.
As conexões humanas legítimas são feitas de tempo desperdiçado, pausas, gagueiras e olhares fixos, não tolerando atalhos ou automatizações que geram apenas relações de fachada.
Uma máquina é capaz de juntar palavras, mas é incapaz de simular o frio na barra de quem envia a mensagem. No fim, quem está em um relacionamento busca o parceiro com todas as suas letras, e não um texto impecável gerado por robôs.
Um simples “oi, hoje olhei para o céu e lembrei de você”, mesmo que repleto de erros de digitação, tem muito mais valor do que um soneto “shakespeariano” criado em apenas três segundos por uma IA.

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