Cirurgias plásticas em adolescentes crescem 141% em 10 anos

Cresce o número de jovens brasileiros que se submetem a procedimentos estéticos. Entre as razões, estão bullying e melhora na autoestima

Jacqueline Lisboa/Esp. Metrópoles

atualizado 24/11/2019 17:07

Fase de transformações, a adolescência é marcada por inúmeras mudanças físicas e psicológicas. Na busca pelo corpo (ou rosto) ideal, jovens estão recorrendo às cirurgias plásticas com uma frequência esmagadoramente maior do que no passado. Nos últimos 10 anos, houve aumento de 141% no número de procedimentos no público com idade entre 13 e 18 anos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). O país é líder nesse tipo de intervenção em todo o mundo.

Em parte, esse crescimento tem influência das redes sociais, como o Instagram. Hoje, mais do que mirar na estrela da tevê, há quem busque parecer com uma “versão melhorada de si mesma”. Para tal, recorrem aos filtros disponibilizados pela plataforma, que vendem uma beleza perfeita – e irreal.

A cirurgia mais procurada por adolescentes é a rinoplastia, intervenção cirúrgica para remodelar o nariz. Apenas em 2017, foram contabilizados 70.800 procedimentos. O implante de silicone fica em segundo lugar, nas contas da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps).

Especialistas, no entanto, divergem quanto à idade ideal para se render ao bisturi. Há quem ache que, aos 14 anos, por exemplo, as escolhas possam ser influenciadas por pressão externa ou, até mesmo, falta de maturidade emocional.

O cirurgião plástico Eduardo Mello recomenda esperar até os 16 anos para realizar os procedimentos estéticos. O médico defende que o paciente deve se submeter ao centro cirúrgico somente quando o desenvolvimento da região que deseja modificar estiver completo.

“Os pacientes buscam na rinoplastia uma autoafirmação, assim como o implante de silicone”, pontua.

Arrependimento

A estudante de biologia Manuela Amaral, 23 anos, faz parte dessa estatística. Aos 13 anos, a jovem se submeteu a uma rinoplastia. À época, apresentava problemas respiratórios,  meio encontrado para justificar a operação. No entanto, ela admite que também sofria bullying na escola, fato que pode ter contribuído com a decisão.

As pessoas faziam piadas no meio da sala. Sabia o que elas achavam sobre mim por conta do meu nariz

Manuela Amaral

O período pós-operatório foi o mais difícil. Entre as consequências, sofreu com falta de apetite por não sentir o cheiro dos alimentos. “O nariz fica muito obstruído, além das dores e dos hematomas”, relembra.

Desde o início, os pais da estudante apoiaram a decisão da filha. Hoje, no entanto, ela garante que não repetiria a cirurgia tão cedo. E afirma que manteria a aparência com a qual nasceu.

“Fiz, muito cedo, uma agressão ao meu corpo”, reflete.

Por sua vez, a estudante de engenharia agronômica Maria Eduarda Nobre, 21, não se arrependeu de encarar a sala cirúrgica aos 16 anos, logo após emagrecer 20 kg. “Coloquei silicone porque fiquei com vergonha da quantidade de pele que sobrou no meu peito”, justifica.

Quando realizou o procedimento, pais de amigos criticaram a atitude da jovem. Eduarda, no entanto, não se deixou abalar.

Na escola, antes de fazer a cirurgia, eu sofria bullyng por ser gorda

Maria Eduarda Nobre

Apesar de satisfeita, a estudante ainda se incomoda com algumas marcas da operação.

Meses depois da cirurgia, sentia as graves consequências de um seroma, como é chamado o acúmulo de líquido embaixo da pele, deixando a área da cicatriz mais alta do que o normal.

“Me submeti ao procedimento sabendo que tinha a chance de ficar com cicatrizes”, pondera. No momento, Eduarda assegura que atingiu a plenitude. Segundo a jovem, ela não pretende mexer em nenhuma outra área do corpo.

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Condições emocionais

Segundo a psicóloga Ana Paula Lessa, as maiores queixas de quem está nessa faixa etária são o tamanho do nariz, das mamas e o aumento de peso.

“É importante estudar as condições emocionais do jovem. A insatisfação pode esconder, na verdade, uma depressão, ansiedade e baixa autoestima”, adverte.

Quando a imagem se torna mais importante do que a saúde, é necessário ficar atento. “Entre os jovens, a maior parte dos relatos é de insatisfações pessoais. Eles tentam conquistar o que mais admiram para poder sentirem-se parte de um grupo social”, finaliza.

Redes sociais

“Com as mídias digitais, as pessoas estão o tempo todo se autoavaliando e procurando ‘defeitos’ para que possam melhorar. Elas querem se tornar mais bonitas para ficarem melhor nas fotos”, pontua Paolo Rubez, cirurgião plástico e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

O especialista defende que, ao tirar uma selfie, por exemplo, devemos levar em conta que os ângulos escolhidos na imagem podem distorcer a realidade.

Quanto antes começarem os autocuidados, melhor será o envelhecimento. No entanto, é preciso que isso seja feito com cautela, para evitar exageros e artificialidade

Paolo Rubez

Ainda assim, esse tipo de ferramenta, somada aos famosos filtros, tem acelerado a corrida pelo bisturi. Rubez, entretanto, não acha que a idade é um fator eliminatório. Para o médico, várias questões devem ser levadas em consideração.

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