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Saúde

Suco feminino: mudanças causadas por esteroides podem ser irreversíveis

Gíria popular descreve o uso de substâncias como oxandrolona e gestrinona por mulheres. Substâncias podem trazer problemas graves à saúde

16/08/2026 02:00
urbazon / Getty Images
foto colorida de mulher super musculosa, levantando peso em uma academia - Metrópoles.

Nas redes sociais e nas academias, a expressão “suco feminino” passou a ser usada para falar de uma prática que vai além da rotina de treino. A gíria deriva do inglês juice, termo empregado informalmente no universo fitness para se referir ao uso de esteroides anabolizantes.

Entre mulheres, ela costuma aparecer associada a substâncias como oxandrolona e gestrinona, utilizadas na tentativa de acelerar o ganho de massa muscular, reduzir gordura ou modificar a aparência.

O nome pode parecer inofensivo, mas as substâncias envolvidas não são. Esteroides anabolizantes são compostos naturais ou sintéticos relacionados à testosterona. Eles podem estimular o crescimento muscular, mas também interferem no funcionamento hormonal e em diferentes órgãos.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe os médicos de receitar esteroides anabolizantes e hormônios androgênicos com finalidade estética ou melhora do desempenho esportivo. A regra não vale para tratamentos hormonais indicados diante de uma deficiência comprovada.

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A Anvisa também proíbe a comercialização e o uso de implantes hormonais manipulados à base de anabolizantes ou andrógenos para estética, ganho muscular ou desempenho esportivo.

Por que o resultado pode aparecer mais rápido?

O principal atrativo está justamente na possibilidade de acelerar mudanças corporais. O nutricionista e educador físico Eduardo Lustosa, de Brasília, explica que genética, idade, tempo de treinamento e características individuais influenciam a velocidade e a dimensão dos resultados alcançados naturalmente.

Os esteroides anabolizantes podem aumentar a síntese de proteínas, um dos processos usados pelo organismo para construir e reparar os músculos. Ainda assim, não substituem treino, alimentação e recuperação. “O medicamento não substitui o trabalho”, afirma Lustosa.

Para o especialista, também é possível alcançar mudanças corporais expressivas sem recorrer aos hormônios. “Eu colocaria quatro pilares antes de qualquer outra coisa: treino, alimentação, sono e constância”, diz.

mulher puxando uma barra de ferro na academia
O uso de testosterona fora das indicações reconhecidas traz uma série de riscos à saúde

O que muda no organismo feminino?

Nas mulheres, a exposição a substâncias com ação semelhante à testosterona pode interferir diretamente no equilíbrio hormonal. O endocrinologista Felipe Henning Gaia Duarte, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP), explica que o excesso de hormônios androgênicos reduz os sinais enviados pelo cérebro aos ovários. Entre as primeiras alterações estão:

  • Queda de LH e FSH, hormônios envolvidos no funcionamento dos ovários;
  • Redução do estrogênio e mudanças no ciclo menstrual;
  • A menstruação pode ficar irregular ou parar, enquanto a ovulação também pode ser prejudicada;
  • Acne e aumento da oleosidade da pele;
  • Crescimento de pelos no rosto e no corpo;
  • Queda de cabelo em padrão masculino;
  • Engrossamento da voz;
  • Aumento do clitóris.

Algumas alterações podem melhorar após a interrupção, enquanto outras têm potencial de permanecer. “O engrossamento da voz é considerado um dos efeitos ‘estéticos’ mais preocupantes, porque, uma vez que a cartilagem da laringe muda de formato, ela não volta ao normal — é como se fosse uma ‘masculinização’ permanente da voz”, explica Duarte.

Aumento do clitóris e queda de cabelo em padrão masculino também podem persistir. Acne, alterações menstruais e aumento leve de pelos têm maior possibilidade de melhora depois da suspensão, embora a resposta varie entre mulheres.

Fertilidade também pode ser afetada

Como os anabolizantes interferem nos sinais responsáveis pelo funcionamento dos ovários, a maturação dos óvulos e a ovulação podem ser prejudicadas. Durante o uso, a mulher pode apresentar ciclos irregulares, ausência de menstruação e dificuldade para engravidar.

Segundo Duarte, menstruação e ovulação tendem a se recuperar na maioria dos casos após a interrupção dos anabolizantes. Uso prolongado ou doses elevadas, porém, podem tornar a recuperação mais demorada ou incompleta.

Outro problema é a falsa sensação de segurança associada a doses pequenas ou períodos curtos. “Não existe uma dose ou período de uso comprovadamente seguro quando o objetivo é apenas estético ou ganho de massa muscular, fora de indicação médica”, afirma o endocrinologista.

A sensibilidade aos andrógenos varia entre mulheres. Por isso, uma quantidade que provoca poucos efeitos em uma pessoa pode causar alterações importantes em outra.

Foto colorida de mulheres na academia se exercitando - Exercícios físicos não ajudam tanto na perda de peso, sugere estudo - Metrópoles
O uso de anabolizantes por mulheres pode acelerar o ganho de massa muscular, mas também provocar alterações hormonais, menstruais

Riscos não ficam restritos à aparência

Os danos também podem atingir órgãos que não são vistos no espelho. Os anabolizantes podem piorar o perfil de colesterol, aumentando o LDL e reduzindo o HDL, além de elevar a pressão arterial e contribuir para problemas cardiovasculares.

O fígado também pode sofrer consequências. Entre as complicações associadas ao uso estão inflamação e colestase, quando o fluxo da bile é prejudicado, além de alterações hepáticas mais graves.

No caso da gestrinona, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) fez um novo alerta em junho de 2026. A entidade afirma que a substância e outros hormônios manipulados vêm sendo oferecidos com promessas de ganho de massa magra, redução de gordura e melhora da performance sem respaldo científico adequado para tais finalidades.

Para o educador físico Rafael Ribeiro, da Fast Training, em Brasília, a busca por transformações rápidas também mudou a relação de parte das mulheres com a academia.

Fotos e vídeos mostram corpos definidos, mas nem sempre revelam quanto tempo foi necessário para alcançar o resultado, a influência da genética, a rotina alimentar ou o eventual uso de substâncias.

“Percebemos uma ansiedade muito maior em relação aos resultados. Muitas pessoas querem alcançar em poucos meses um físico que levou anos para ser construído”, afirma.

Por trás do “suco feminino”, há uma transformação que não aparece nas fotos de antes e depois. O ganho muscular pode ocorrer mais rapidamente, mas é acompanhado de uma exposição maior a efeitos adversos graves.

“Precisamos olhar também para qual foi o preço fisiológico daquele resultado”, resume o nutricionista Lustosa.