Por que roncamos? Entenda como a evolução da fala criou os ruídos

Mudanças na anatomia ligadas à fala ajudam a entender por que o ronco se tornou tão comum entre humanos

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1 de 1 Foro colorida de mulher segurando travesseiro ao lado de home roncando - Metrópoles - Foto: Freepik

O ronco costuma ser tratado como um simples incômodo noturno, mas a explicação para o fenômeno pode estar ligada a um dos maiores marcos da evolução humana: o desenvolvimento da fala.

Especialistas explicam que as mudanças anatômicas que permitiram aos seres humanos criar uma comunicação sofisticada também deixaram a respiração mais vulnerável durante o sono.

Embora muitos associem o ronco apenas ao cansaço ou ao envelhecimento, estudos e observações clínicas indicam que ele está diretamente relacionado à forma como a anatomia humana evoluiu ao longo de milhares de anos.

O preço evolutivo da fala humana

Ao contrário de outros mamíferos, os humanos desenvolveram uma estrutura respiratória mais flexível e complexa. A adaptação favoreceu a comunicação verbal, mas trouxe consequências.

Segundo o otorrinolaringologista Eric Hiromoto Taninaka, do Hospital Mantevida, em Brasília, a evolução da fala alterou profundamente a região da garganta e da via aérea superior.

“A capacidade sofisticada de fala humana depende de características anatômicas específicas, como a posição mais baixa da laringe e maior flexibilidade da língua e da faringe”, explica.

De acordo com o especialista, essa troca evolutiva tornou a passagem de ar mais suscetível ao estreitamento durante o sono. Com o relaxamento da musculatura, os tecidos vibram e produzem o ruído característico do ronco.

Taninaka destaca ainda que os humanos roncam mais do que outros animais porque possuem uma face mais achatada, uma língua proporcionalmente maior e uma faringe mais longa e sem sustentação óssea rígida. Além disso, fatores modernos como obesidade, sedentarismo e consumo de álcool aumentam ainda mais a incidência do problema.

O “grande salto evolutivo” e suas consequências

Para o otorrinolaringologista Ricardo Valadares, do Hospital Santa Lúcia Sul, também em Brasília, o ronco faz parte de um processo conhecido como “grande salto evolutivo”.

“A formação de um trato aerodigestivo em humanos, com funções variadas de respiração, fonação e deglutição, favoreceu a possibilidade de roncar”, afirma.

Segundo o médico, a anatomia humana passou por mudanças importantes em comparação com outros primatas. Entre elas estão alterações no crânio, o posicionamento mais baixo da laringe e uma maior maleabilidade das estruturas da garganta.

Essas adaptações foram fundamentais para o desenvolvimento da linguagem, mas também aumentaram a tendência de vibração dos tecidos durante a passagem do ar.

Valadares afirma que o ronco não trouxe vantagens evolutivas próprias. Pelo contrário: ele é visto como uma consequência indesejada de mudanças que, no geral, foram positivas para a espécie humana. “Ronco é sinal de doença respiratória e fator de risco para doenças cardíacas, metabólicas e neurológicas”, alerta.

Quando o ronco deixa de ser apenas um barulho

Nem todo ronco significa necessariamente uma doença grave, mas especialistas afirmam que o sintoma merece atenção quando se torna frequente ou vem acompanhado de outros sinais.

Pausas respiratórias durante o sono, sonolência excessiva durante o dia, dores de cabeça ao acordar, dificuldade de concentração e pressão alta podem indicar apneia obstrutiva do sono, condição associada a riscos cardiovasculares e metabólicos.

Enquanto alguns médicos classificam o ronco ocasional como benigno, outros defendem que o sintoma deve ser sempre investigado. O consenso entre os especialistas é que roncar regularmente não deve ser normalizado.

Afinal, o mesmo processo evolutivo que permitiu aos humanos desenvolver linguagem complexa também deixou uma herança anatômica que continua impactando a qualidade do sono e a saúde de milhões de pessoas.

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