Pesquisa acha molécula com potencial para tratar câncer de ovário

Cientistas da USP estão trabalhando para usar uma molécula presente no próprio corpo humano como inibidor do desenvolvimento de tumores

atualizado 25/10/2019 16:59

Ericsphotography, Getty Images

Um estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, em parceria com o Laboratório de Células Tronco Musculares e Regulação Genética, do National Institutes of Health (NIH), nos Estados Unidos, descobriu uma molécula que pode revolucionar o tratamento de câncer de ovário. Segundo os pesquisadores, a molécula seria capaz de impedir que células tumorais entrem em metástase, situação na qual o câncer se espalha para outras partes do corpo.

A pesquisa teve como foco a molécula miR-450a, que atua na síntese de proteínas presente no DNA. De forma geral, essa molécula é pouco expressa em tumores, segundo os cientistas. Nos testes in vitro, contudo, a equipe demonstrou que, quando superexpressa, a miR-450a pode silenciar genes envolvidos na migração celular e no metabolismo energético do tumor. O estudo foi publicado na revista Cancer Research e é financiado pela Fapesp.

Em entrevistas, Wilson Araújo da Silva Junior, pesquisador e coordenador da pesquisa, definiu a descoberta como promissora. Segundo ele, a partir do estudo e com o uso de nanotecnologia, será possível desenvolver novas estratégias terapêuticas contra o câncer de ovário. Associada ou não à quimioterapia, a molécula miR-450a pode contribuir como terapia neoadjuvante (tratamento pré-cirúrgico), aumentando taxas de resposta pré-operatórias.

Em casos mais avançados, a molécula poderia diminuir o risco de progressão ou de morte pela doença, com efeitos colaterais possivelmente menores que os da quimioterapia. Outro ponto interessante, de acordo com o pesquisador, é a capacidade de bloquear o processo de metástase com a superexpressão da molécula.

A descoberta da molécula e de seu mecanismo de atuação surgiu em um estudo posterior, publicado na revista científica PLOS ONE em 2016. O trabalho mostrou que ocorre expressão elevada de miR-450a na placenta e baixa expressão em tumores, entre eles os de ovário. A conclusão do grupo foi que, na placenta, essas moléculas estariam regulando mecanismos análogos ao do desenvolvimento do tumor.

Embora a formação da placenta e a dos tumores sejam processos completamente diversos, existe, até certo ponto, muita semelhança na programação genética de ambos. “A placenta cresce, invade o útero, prolifera e passa por uma vascularização – processo conhecido como angiogênese. É tudo o que o tumor precisa. Porém, diferentemente dos tumores, na placenta esses programas genéticos estão ativos de forma controlada”, disse Silva Junior à Agência Fapesp.

O grupo teve então a ideia de buscar novos alvos terapêuticos estudando genes altamente expressos na placenta, mas que não estão ativos em tumores. “Essa correlação significa que moléculas como a miR-450a deixam de regular processos biológicos importantes para o desenvolvimento do tumor. Pelos nossos achados, se um gene aparece com essas características, é sinal de que ele pode ser um bom alvo terapêutico”, disse. (Com informações da Agência Fapesp)

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