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Saúde

Ozempic: o futuro do remédio que revolucionou tratamento da obesidade

Em cenário no qual demanda supera em muito a oferta, fabricante do Ozempic se prepara para ampliar produção e lidar com o fim da patente

17/09/2023 02:00, atualizado 17/09/2023 20:23
Reprodução
Montagem mostra uma série de injeções de ozempic contra um fundo vermelho - Metrópoles

No início de 2022, as perspectivas de tratamento para pacientes com obesidade passaram por uma revolução. O Ozempic, medicamento recomendado inicialmente para pessoas com diabetes, se mostrou extremamente eficaz para o controle do apetite, fazendo com que as pessoas perdessem até 30% do peso total.

De lá para cá, o uso “off label” se disseminou e a aplicação do medicamento se transformou em uma verdadeira febre. O Ozempic deixou de ser utilizado apenas por pacientes obesos, e até celebridades passaram a dizer que recorreram às canetas injetáveis para perder “alguns quilinhos”.

A Novo Nordisk se tornou a farmacêutica mais valiosa do mercado europeu por conta da semaglutida e moléculas similares, que estão no Saxenda, Wegovy, Rybelsus e Victoza. A fabricante se posiciona contra o uso “off label” do remédio e faz alertas constantes à população sobre a excassez do medicamento devido à demanda.

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Em entrevista à CNN Internacional, o CEO da multinacional, Lars Fruergaard Jorgensen, afirmou que a empresa está investindo no aumento da capacidade de fabricação, mas disse não acreditar que será o suficiente para atender à procura mundial pelo remédio.

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“Tenho a sensação de que pode levar alguns anos até realmente atendermos a demanda que já existe pelos nossos medicamentos. Na verdade, nem sabemos o quão grande ela pode ser, já que muitas pessoas com obesidade ainda querem receber o tratamento”, explica.

A versão da semaglutida especificamente contra a obesidade da Novo Nordisk, o Wegovy, foi aprovada em janeiro pela Anvisa, mas até hoje não tem data para começar a ser vendida no Brasil. A justificativa para a demora é a alta demanda global.

Atualmente, o Wegovy está disponível na Noruega, na Dinamarca e nos Estados Unidos. Alemanha e Reino Unido passaram a receber os remédios a partir deste mês.

Com obesidade e sobrepeso cada vez mais prevalentes no mundo, a onda Ozempic parece longe do fim e o mercado consumidor da medicação ainda pode ser ampliado muitas vezes. O remédio é caro — custa cerca de mil reais a caneta — mas, e se estivesse disponível no Sistema Único de Saúde (SUS)?

Incorporação no SUS

A Novo Nordisk entrou, em março deste ano, com um pedido de incorporação do Saxenda (que é aprovado pela Anvisa contra a obesidade e é uma versão anterior ao Ozempic) junto à Conitec, comissão que decide o que vai ser ou não disponibilizado pelo SUS.

“O comitê considerou que a tecnologia utilizada de forma isolada não é efetiva para o controle da obesidade como problema de saúde pública e que ela deveria estar associada a medidas de modificação no estilo de vida, tais como dieta hipocalórica, prática de exercícios físicos, tratamento psicológico, dentre outras”, escreveram os

representantes da Conitec no relatório preliminar

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. Eles também citam que o medicamento teria elevado impacto orçamentário e não seria custo-efetivo.

Na consulta pública

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, 98,9% das participações foram favoráveis à incorporação da tecnologia. Ainda assim, a Conitec não mudou de posição e decidiu contra a disponibilização do Saxenda na rede pública.

A farmacêutica fez outra tentativa em maio, com o Victoza (que é aprovado para o tratamento de diabetes e tem o mesmo princípio ativo do Saxenda). A expectativa é que a decisão preliminar da Conitec seja anunciada em novembro. Em nota enviada ao Metrópoles, a Novo Nordisk afirma que não há previsão para incorporação do Ozempic.

A médica endocrinologista Cynthia Valério, diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), conta que a entidade enxerga de maneira positiva a incorporação dessas drogas no SUS, desde que sejam observadas questões de custo e efetividade.

“Do ponto de vista prático, a obesidade traz comorbidades, muitas potencialmente fatais, que acabam sobrecarregando o sistema de saúde. Acreditamos que será de grande valor para a saúde pública e privada a possibilidade de tratar a doença mais precocemente e adequadamente”, explica a especialista.

A obesidade é uma das únicas doenças que não é tratada com medicamentos pelo SUS — por enquanto, o paciente que procura ajuda recebe apenas uma dieta e recomendações para a prática de exercícios. Em casos mais graves, há indicação para cirurgia bariátrica.

“Observamos que uma parte significativa das pessoas que têm obesidade precisa de tratamento farmacológico. E a gente vê um futuro promissor para o tratamento da obesidade desse ponto de vista: com o avanço da ciência, pois o número de medicações com segurança e eficácia comprovada vem crescendo“, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Paulo Augusto Miranda.

Ele aponta que os medicamentos disponíveis até o momento são caros, e que é preciso fazer uma conta complexa de custo/benefício para avaliar a incorporação tanto no SUS quanto na saúde suplementar. “A gente entende que o balanceamento entre o orçamento e o custo das medicações é complicado, e é um movimento que vai exigir o esforço de todos”, afirma.

A queda da patente

Porém, esse cenário pode mudar radicalmente a partir do próximo ano. A Novo Nordisk perderá a patente do Saxenda (liraglutida) a partir de 2024, e a do Ozempic (semaglutida), em 2026.

No Brasil, o entendimento é que o tempo de patente não pode ultrapassar 20 anos. A farmacêutica entrou com um recurso pedindo extensão da validade para considerar a demora da análise do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), mas o pedido foi negado em primeira instância. A empresa está recorrendo.

“A Novo Nordisk salienta que em suas ações judiciais não existe uma solicitação de extensão de patente, mas sim, apenas uma restituição ─ em medida exatamente igual, em natureza e tamanho ─ daquilo que lhe foi extraído pela inércia do INPI durante a fase de análise e aprovação das patentes objeto das ações judiciais”, afirma a empresa, em nota.

Se a patente realmente for derrubada, estima-se que o preço do medicamento possa cair até 75%.

Versões genéricas?

Em 2024, com a queda da patente do Saxenda, a indústria brasileira ficará livre para a produção de genéricos da liraglutida. A substância é uma das poucas liberadas pela Anvisa para o tratamento da obesidade, mas apesar de estar no mercado há muitos anos, a tecnologia para produzi-la não é simples.

Ainda assim, as farmacêuticas produtoras de genéricos estão se organizando para suprir a demanda. Procurada pelo Metrópoles, a Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos) não quis comentar sobre a organização do grupo para fabricar a liraglutida ou semiglutida no futuro, mas afirmou estar acompanhando o assunto.

Porém, os representantes da Sbem e da Abeso afirmam que o Brasil não só tem fábricas preparadas, como as empresas estão correndo para desenvolver produtos de qualidade. “Existe uma movimentação da indústria, mas como é uma tecnologia diferente das medicações orais, talvez leve um tempo a mais do que os remédios de uso oral”, afirma a endocrinologista Cynthia, da Abeso.

Miranda conta que duas empresas nacionais têm um parque industrial capaz de produzir a substância para atender o mercado interno. “Talvez a quebra da liraglutida nos abra uma porta. As empresas estão em fase de andamento com registros e validações, e isso nos abre uma boa perspectiva de ter essas medicações com eficácia e segurança de longo prazo com um custo um pouco mais baixo”, afirma.

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