Até que ponto praticar fetiches sexuais é seguro para a saúde mental?

Especialistas explicam quando a fantasia sexual é saudável e quando a prática de alguns fetiches vira perigo à saúde mental

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Fetiches sexuais fazem parte da diversidade humana e, em muitos casos, são vividos de forma segura e consensual. No entanto, especialistas alertam que algumas pessoas ignoram cuidados básicos durante essas práticas — o que pode levar a consequências físicas, emocionais e até legais.

A linha entre prazer e risco, segundo psicólogos e psiquiatras, é mais tênue do que parece e depende de fatores como impulsividade, busca por intensidade e falta de preparo.

O que é fetiche e por que ele existe

De acordo com a psicóloga e sexóloga clínica, Alessandra Araújo, da Clínica Via Vitae, de Brasília, o fetiche é um deslocamento do desejo para objetos, partes do corpo ou situações específicas. A especialista explica que o fenômeno está ligado ao caráter simbólico da sexualidade humana.

“Não somos atraídos apenas pela biologia, mas também por significados. O fetiche pode funcionar como um complemento ao prazer, desde que não substitua o afeto nem comprometa a vida cotidiana”, afirma.

Na prática, isso significa que fantasias são consideradas saudáveis quando aumentam o bem-estar e fortalecem a conexão entre parceiros — sem causar sofrimento ou dependência.

O problema começa quando o fetiche deixa de ser uma preferência e passa a ser uma necessidade. Segundo Alessandra, alguns sinais indicam que a prática pode ter ultrapassado o limite saudável:

  • O prazer só acontece com aquela prática específica;
  • Há sofrimento psicológico ou prejuízo na vida pessoal e profissional;
  • Existe risco real de dano físico ou ausência de consentimento.

Nessas situações, o comportamento pode se aproximar de um transtorno parafílico e exige atenção. Para o psiquiatra Eduardo Perin, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC), o comportamento de risco está ligado a diferentes fatores psicológicos.

Entre eles, estão a busca por novidade e intensidade, o desejo de sair da rotina e até a tentativa de lidar com emoções como ansiedade, tristeza ou baixa autoestima.

“Em alguns casos, o sexo mais intenso funciona como forma de regular emoções”, afirma.

Outro ponto importante é a impulsividade. Pessoas com esse traço tendem a priorizar o prazer imediato e avaliar menos as consequências, o que pode levar a sexo sem proteção ou exposição a situações perigosas. O consumo de álcool ou outras substâncias também aumenta o risco, já que reduz a capacidade de julgamento e controle.

O papel do cérebro nas decisões impulsivas

Durante o pico da excitação sexual, áreas do cérebro responsáveis por decisões racionais — como o córtex pré-frontal — têm sua atividade reduzida. Isso favorece comportamentos impulsivos e diminui a percepção de risco.

Além disso, medo e excitação provocam respostas físicas semelhantes, como aumento da frequência cardíaca e liberação de adrenalina. Para algumas pessoas, essa combinação torna o risco ainda mais estimulante.

“Em certos casos, o perigo aumenta o desejo. O problema surge quando há perda de controle ou exposição a danos reais”, explica Perin.

Práticas intensas podem trazer riscos reais

Alguns fetiches envolvem práticas mais intensas, como BDSM- práticas e fetiches baseados em sensações intensas, poder, dominação e submissão – ou asfixia erótica. Sem preparo adequado, essas experiências podem causar:

  • Lesões físicas, queimaduras ou danos neurológicos;
  • Sufocamento acidental por falta de oxigênio;
  • Infecções por falta de higiene ou proteção;
  • Traumas psicológicos quando não há acordo prévio.

Conforme alerta a psicóloga e sexóloga, existe ainda uma “ilusão de invencibilidade”, na qual a pessoa acredita ter controle total da situação, mesmo quando o corpo já está em risco. No universo dos fetiches, o consentimento precisa ser claro, informado e contínuo.

Os especialistas destacam que não basta um “sim” inicial. É necessário que haja negociação prévia de limites, uso de palavras de segurança para interromper a prática e liberdade total para desistir a qualquer momento.

A ausência de consentimento ou a incapacidade de interromper a situação transforma a experiência em violência. Segundo Perin, a principal diferença está no controle e nas consequências.

“Práticas saudáveis envolvem adultos conscientes, limites definidos e possibilidade de interromper a qualquer momento. Já comportamentos de risco apresentam sinais como urgência, repetição, culpa, arrependimento e exposição frequente a situações perigosas”, explica.

Também merece atenção quando o sexo passa a ser usado como fuga de emoções negativas ou quando há dificuldade de controlar impulsos. Para quem deseja explorar fantasias.


Cuidados básicos ao realizar fetiches

  • Buscar informação sobre a prática;
  • Conversar abertamente com o parceiro;
  • Começar com intensidade baixa e evoluir gradualmente;
  • Utilizar proteção e medidas de segurança;
  • Garantir um momento de cuidado após a experiência.

A chamada fase de pós-cuidado é importante para equilibrar emoções e fortalecer o vínculo entre os envolvidos. A psicóloga Alessandra diz que Fetiches fazem parte da sexualidade e não devem ser automaticamente vistos como problema.

No entanto, ignorar limites, segurança e consentimento pode transformar uma experiência de prazer em risco real. Os especialistas concordam que o critério central é que a prática deve ser segura, consensual e trazer bem-estar para todos os envolvidos. Quando isso deixa de acontecer, é sinal de alerta e, em alguns casos, de necessidade de ajuda profissional.

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