Falar dormindo não é problema, mas pode sinalizar estresse e ansiedade
Sonilóquio é comum e geralmente inofensivo, mas pode estar ligado a estresse, ansiedade e outros distúrbios do sono

Falar durante o sono é uma situação que desperta curiosidade e, muitas vezes, preocupação. Conhecido pelos especialistas como sonilóquio, o comportamento consiste na emissão de palavras, frases ou sons enquanto a pessoa dorme, sem que ela tenha consciência do que está acontecendo.
Embora seja mais comum na infância e adolescência, o fenômeno pode ocorrer em qualquer fase da vida e, na maioria dos casos, não representa um problema de saúde.
Os episódios podem variar desde murmúrios incompreensíveis até conversas aparentemente estruturadas. Especialistas explicam que o comportamento está relacionado a ativações parciais do cérebro durante o sono, permitindo que algumas funções ligadas à linguagem se manifestem sem que ocorra um despertar completo.
Fatores como privação de sono, estresse, ansiedade e outros distúrbios do sono podem aumentar a frequência das ocorrências.
O que acontece no cérebro durante o sono?
Segundo o neurologista Diogo Haddad, do Alta Diagnósticos, em São Paulo, falar dormindo acontece quando áreas cerebrais responsáveis pela produção da linguagem são ativadas parcialmente durante o sono. O cérebro não desperta totalmente, mas apresenta uma espécie de ativação transitória que permite a emissão de sons e palavras.
O especialista explica que o sonilóquio pode ocorrer tanto no sono REM, fase em que os sonhos costumam ser mais vívidos, quanto no sono não REM. Em geral, trata-se de uma parassonia, grupo de comportamentos considerados anormais durante o sono, mas que nem sempre indicam uma doença neurológica.
“Quando a pessoa passa a encenar sonhos com movimentos intensos e vocalizações frequentes, é importante uma avaliação especializada para descartar outros transtornos do sono”, alerta Haddad.
A investigação médica é recomendada principalmente quando os episódios surgem pela primeira vez na vida adulta, são acompanhados por movimentos violentos, quedas da cama, sonolência excessiva durante o dia ou alterações importantes no padrão de sono.
Ansiedade pode aumentar os episódios
Questões emocionais também exercem influência direta sobre a qualidade do sono e podem favorecer o hábito de falar dormindo. De acordo com o psiquiatra Bruno Pascale Cammarota, que atende no Rio de Janeiro, momentos de ansiedade e estresse deixam o organismo em estado de alerta mesmo durante o período de descanso.
Nessas situações, o cérebro continua processando preocupações acumuladas ao longo do dia, o que pode resultar em sonhos mais intensos e manifestações como falas durante o sono. O especialista destaca que a ansiedade frequentemente está associada a outros transtornos, como a depressão, potencializando alterações no descanso noturno.
“O sono funciona como um espaço de processamento emocional e, quando a mente está sobrecarregada, algumas manifestações podem surgir de forma mais evidente durante a noite”, afirma Cammarota.
Além dos fatores emocionais, o uso de substâncias estimulantes, como anfetaminas, cocaína e determinados medicamentos, também pode aumentar a ocorrência do sonilóquio ao alterar o funcionamento normal do cérebro durante o sono.
Quando procurar ajuda médica?
Embora falar dormindo seja considerado um comportamento benigno na maior parte dos casos, alguns sinais merecem atenção. Acordar frequentemente cansado, apresentar dificuldade de concentração, sonolência excessiva durante o dia e queda no rendimento das atividades podem indicar que a qualidade do sono está comprometida.
Também é importante buscar avaliação quando os episódios se tornam muito frequentes, causam prejuízo ao descanso ou vêm acompanhados de roncos intensos, pausas respiratórias, sonambulismo ou comportamentos agressivos durante a noite.
Nesses casos, a investigação pode identificar desde fatores emocionais até distúrbios do sono que necessitam de tratamento específico, contribuindo para uma melhora significativa na qualidade do descanso e da saúde como um todo.

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