Dieta rica em batata pode ter moldado DNA de povos indígenas andinos
Estudo encontrou adaptação genética ligada à digestão do amido que ganhou força há cerca de 10 mil anos

Milhares de anos consumindo uma alimentação rica em batata podem ter deixado uma marca no DNA de populações indígenas dos Andes. Um estudo publicado em 05 de maio na revista científica Nature Communications encontrou entre povos da região uma quantidade elevada de cópias do gene AMY1, relacionado à digestão do amido.
A descoberta sugere que uma dieta historicamente rica em alimentos com amido pode ter favorecido, ao longo das gerações, pessoas com mais cópias do gene. A adaptação ganhou força há cerca de 10 mil anos, período que coincide com a domesticação da batata nos Andes.

Receba no seu email as notícias de Ciência&Saúde
Frequência de envio: Semanal
Ver todasPara chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram dados genéticos de 3.723 pessoas de 85 populações ao redor do mundo. Os indígenas andinos do Peru apresentaram alguns dos maiores números de cópias de AMY1 encontrados.
O gene participa da produção da amilase salivar, enzima que começa a quebrar o amido ainda na boca. Seres humanos podem carregar entre duas e 20 cópias de AMY1, e quantidades maiores podem influenciar a produção da enzima.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e CiênciaO que a adaptação pode ter proporcionado
Segundo os resultados e as hipóteses apresentadas pelos pesquisadores:
- Mais cópias de AMY1: populações andinas apresentaram números excepcionalmente elevados do gene;
- Maior produção de amilase: mais cópias podem estar relacionadas a maiores quantidades da enzima que inicia a digestão do amido;
- Adaptação à alimentação: a característica pode ter sido vantajosa quando batata e outros vegetais ricos em amido ganharam espaço na dieta;
- Vantagem evolutiva: a característica se tornou mais frequente ao longo das gerações;
- Efeito ainda não comprovado: o estudo não testou se indígenas andinos digerem batata melhor ou apresentam benefícios atuais para a saúde.
Evidências citadas no estudo situam a ocupação permanente de humanos na área entre aproximadamente 9,5 mil e 12 mil anos atrás. Na mesma época, a alimentação mudou.
A caça e a coleta começaram a dividir espaço com o cultivo. A batata, rica em amido, teria sido domesticada na região entre 6 mil e 10 mil anos atrás. A quinoa veio posteriormente, enquanto o milho chegou aos Andes milhares de anos depois.
Com o amido ganhando importância na alimentação, carregar mais cópias de AMY1 pode ter proporcionado alguma vantagem. Ao longo das gerações, variantes relacionadas à característica teriam se tornado mais comuns.
Os pesquisadores encontraram fortes sinais de seleção natural na região genética relacionada ao AMY1. As análises indicaram que mudanças aleatórias na população, sozinhas, dificilmente explicariam a frequência da variante encontrada entre os andinos.
Comparação com outros povos reforçou a descoberta
Para investigar se a diferença poderia ser explicada apenas pela ancestralidade indígena americana, os cientistas fizeram outra análise com 81 participantes quéchuas do Peru e 48 participantes maias do México.
Os dois grupos possuem alta ancestralidade indígena americana, mas apresentaram resultados diferentes. Entre os quéchuas, a mediana foi de 10 cópias de AMY1; entre os maias, seis. A mediana considerando todas as populações estudadas foi sete.
A comparação reforçou a hipótese de uma adaptação específica das populações andinas. Os cientistas também verificaram que o aumento estava concentrado no AMY1, e não em outros genes próximos da mesma família.
A descoberta não prova, portanto, que a batata criou um “superpoder digestivo”. O estudo indica algo mais concreto: uma alimentação rica em amido pode ter ajudado a moldar o DNA das populações indígenas dos Andes ao longo de milhares de anos.



