Covid-19: entenda papel dos supertransmissores na disseminação da epidemia

Pessoas que têm maior capacidade de passar o vírus, em ambientes específicos, podem ampliar o número de indivíduos infectados

atualizado 19/05/2020 22:41

Homem coronavírus máscaraGetty Images

Segundo as pesquisas feitas até agora, uma pessoa com coronavírus é capaz de infectar de duas a três outras, sem tomar cuidado com nenhuma medida de proteção, ou evitar aglomerações. Porém, alguns indivíduos podem ser responsáveis por contaminar muito mais gente, sem saber: são os chamados supertransmissores, ou super-spreaders, em inglês.

Nas primeiras semanas da pandemia, o termo foi usado algumas vezes. Em Wuhan, na China, epicentro da pandemia, um paciente teria infectado 14 pessoas em um hospital. O terceiro inglês a ser contaminado pegou a doença em uma conferência em Singapura, contaminou cinco pessoas da própria família, além de outras cinco que estiveram com ele no mesmo chalé de ski em um resort na França. No Uruguai, uma mulher infectada pode ter contaminado 44 pessoas em uma festa.

Não se sabe bem por que isso acontece, mas já é certo que uma em cada cinco pessoas transmite mais infecções do que a maioria. O sistema imune dessa pessoa provavelmente não é muito bom em suprimir o vírus, ou pode ser tão eficiente que o paciente não tenha os sintomas, mesmo estando contaminado. Outra teoria é que o indivíduo foi exposto a uma quantidade de vírus maior do que a normal.

Não é possível saber quem é ou não supertransmissor, mas a situação já foi verificada também no caso de outras doenças. Em 1998, um estudante na Finlândia passou sarampo para 22 outras pessoas. Em 1995, dois indivíduos infectaram 50 outros com Ebola, no Congo. O vírus da Sars, que é muito parecido com o novo coronavírus, também teve seus supertransmissores: algumas pessoas podem ter contaminado até outras 10.

Ambientes perigosos
Porém, um cenário mais complicado é quando o supertransmissor (sem saber que está com o vírus) vai a um ambiente de supertransmissão, como uma academia, a reunião de um coral, um culto religiosos ou uma manifestação política.

“Provavelmente, eventos e ambientes são mais importantes na transmissão do que indivíduos específicos. É mais um caso de ‘supersituação’ do que ‘supertransmissor'”, diz o pesquisador Adam Kucharski, do Alan Turing Institute, na Inglaterra, ao jornal Daily Mail.

Kucharski é responsável por um estudo que sugere que 80% da transmissão de coronavírus foi causada por um pequeno número de indivíduos. Segundo ele, a quantidade de pessoas infectadas por um paciente pode ser controlada se eventos com grande oportunidade de transmissão forem cancelados. A ideia é evitar aglomerações e alguns tipos específicos de atividades para diminuir a chance de um supertransmissor estar em um ambiente perfeito para a disseminação da doença.

Corais, por exemplo, são ambientes em que muitas gotículas são expelidas, e os cantores costumam ficar perto uns dos outros: nos Estados Unidos, 87% dos participantes de um coral ficaram doentes e, na Holanda, 78% de um grupo se contaminou após uma apresentação.

Conferências também são focos, já que reúnem pessoas de vários locais em um espaço fechado, com ar-condicionado.

As academias, um dos estabelecimentos mais polêmicos na esfera de decisões do Brasil (o presidente Jair Bolsonaro decretou que os centros são serviços essenciais, o que não foi acatado por quase nenhum governador), também são um ótimo ambiente para a disseminação do vírus pela quantidade de pessoas e a facilidade de contato com fluidos de outros indivíduos.

“O ambiente úmido e quente de uma empresa de esportes junto com uma corrente de ar turbulenta gerada pelo exercício físico intenso pode causar uma transmissão mais densa de gotículas”, dizem os pesquisadores da Universidade de Dankook, na Coreia do Sul, que estudaram como o coronavírus se espalhou em uma escola de dança fitness.

Festas fechadas, mercados superlotados e bares também estão na lista de ambientes e atividades com alta chance de contágio.

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